Como esquecer?

22 ago

                                                                                             Fabiana Marques

– Um.

– Dois.

– Três. Tchau!

Despediram-se assim, contando até três. A despedida não trazia nenhuma surpresa. Era a crônica de uma morte anunciada, já que a relação começou com data certa para terminar. Portanto, tiveram tempo suficiente para controlar a situação e se programar para não sofrer tanto naquele momento. Mas sentimentos não são lá muito fáceis de controlar, eles têm vida e vontade própria.

Assim sendo, ela perdeu o controle. E o nó na garganta, que a tomou de assalto nos últimos segundos de conversa, explodiu em soluços e lágrimas. Foram alguns minutos de uma tristeza inesperada, como se uma cratera se abrisse bem no meio do seu peito. Sobrava apenas um vazio devastador.

Há anos não se apaixonava e, conseqüentemente, não sentia a dor de uma separação. Tinha se esquecido de como era dolorido dizer adeus. E só então se deu conta do quanto seria difícil transformar aquele que havia sido seu melhor amigo e companheiro em apenas uma boa recordação. “Como esquecer”?

Tinha esse grave defeito. Quando um relacionamento ia chegando ao fim, não sabia a hora de parar. Prolongava, resistia. Colocava reticências ao invés de ponto final. Combinava coisas que não conseguia cumprir, voltava atrás, se arrependia e voltava atrás de novo. Esse comportamento desesperado acabava por obrigar o outro agir de forma estúpida ou então com uma frieza polar. Era um mecanismo inconsciente para facilitar a ingrata tarefa de desencanar de alguém. A última lembrança tinha que ser ruim, sabe como é? Porque um idiota é muito mais fácil de ser esquecido.

Mas ela não queria rebaixá-lo ao nível de todos os outros. Ele não merecia ser transformado num idiota só para que ela o pudesse esquecer. Dessa vez era diferente. Com ele, ela queria cumprir o combinado e não voltar atrás. Realmente queria que ele  se tornasse uma boa lembrança. Queria ter orgulho de como lidaram com tudo de forma tão madura. Ambos mereciam que fosse assim.

Já era tarde, se arrastou até o quarto e deitou na cama, que naquela noite lhe pareceu maior e mais fria. De novo sentiu aquele aperto na garganta. Respirou fundo e expirou devagar, tentando expulsar junto com o ar a tristeza que tomava conta. Tentou se lembrar do último beijo, mas não conseguiu e ficou mais melancólica: “Eu devia ter abraçado ele naquela hora e dado mais um beijo. Devia ter falado o quanto ele era especial. Não, isso eu acho que falei… Mas devia ter falado mais vezes. E devia tê-lo encontrado uma última vez”. 

Três horas da manhã. Estava exausta, mas o sono não vinha.  Começou a repassar mentalmente cada olhar trocado, cada beijo, cada lambida, cada respiração. As mãos dele puxando com força o seu quadril, a língua molhada nos seus seios, o peso dele sobre ela, o gozo de dentro para fora, o gosto de cada parte de seu corpo. Cada detalhe era como espetar uma agulha. Uma dor fina surgia. Os sintomas de saudade tinham começado a se manifestar. Bateu um desespero. “Não faz nem uma hora que me despedi dele e já estou desse jeito. Tô ferrada. Como vai ser amanhã”?

Olhou para o relógio, quatro horas da manhã. Mudou de posição e abraçou o travesseiro, tentando aplacar a necessidade que sentia de ser abraçada. Passou a lembrar das análises profundas que, juntos, fizeram de sua situação. Da franqueza com que admitiam seus sentimentos um para o outro. Doeu pensar que não teriam esse tipo de conversa nunca mais. O nunca mais doía. “Não pira. Deixa de ser dramática. Foi melhor assim e você sabe. Pensa no lado bom, vai”. Fez força para pensar positivo. Então se lembrou de várias outras conversas, das conclusões e dos conselhos. Do quanto conseguiam ser ao mesmo tempo românticos incorrigíveis e irritantemente racionais. Lembrou-se do jeito anti-herói e atrapalhado. Das histórias engraçadas e dos contratempos. De como ele a fazia rir, da vida e de si mesma.  E das coisas que aprendeu com ele, mesmo sem ele saber.

Sem perceber, já estava rindo alto, sozinha. E ficou rindo assim mais um tempo, quase feliz, até adormecer.

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3 Respostas to “Como esquecer?”

  1. Helga 23 de agosto de 2010 às 11:26 am #

    Fiquei com gostinho de quero mais amiga!!! beijos

  2. Lívia Stábile 23 de agosto de 2010 às 2:31 pm #

    INSPIRADOR amiga-deusa-escritora!! Forte! Amei!! Beijo no seu coração!

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