Um abraço sem braços

1 set

                                                                                                                 

                                                                                  Fabiana Marques          

Decidiu, no último minuto, que queria comprar um cd. Atravessou a Avenida Paulista fora do sinal e entrou na megastore. Caminhou sem pressa pelos corredores, procurando pela seção de música. Viu um pôster do Bob Dylan e entrou naquele corredor, meio vazio àquela hora do dia.

De costas, um cara observava cuidadosamente a capa de um cd, tentando decidir se ouvia uma faixa dele ou não. Devia ter uns quarenta anos, usava camiseta e calça jeans, alguns fios brancos. Tantos anos depois, ela reconheceu a silhueta. Sentiu o sangue correr mais rápido em suas veias e acelerar as batidas do seu coração. Quase podia ouvi-las. O nome escapou de sua boca, sem que ela tivesse tempo de raciocinar:

—  Alê?

Ele olhou para trás e a surpresa se estampou não só em seu rosto, mas no corpo todo. Abriu um sorriso desajeitado, tentando disfarçar:

— Oi! O que você está fazendo aqui?

— A mesma coisa que você, comprando cds, né?- respondeu rindo —  E você? Ainda trabalha aqui perto?

— No mesmo lugar.

— Quanto tempo, cara!

— Muito. Você está bem.

—  Como assim?

—  Tá bem, tá bonita.

—  Tô? Você também. Gostei dos cabelos brancos.

— Você está bonita mesmo sem os cabelos brancos.

— E aí? Casou?

— Casei. Você…

— Continuo casada. – interrompeu mostrando a aliança.

Pela primeira vez seus olhares se cruzaram de verdade. Doeu. Ela abaixou os olhos, colocou as mãos nos bolsos da calça e mexeu no cabelo. O silêncio, mesmo que por dez segundos, incomodava.

— Que cd você está comprando?

— Ah, eu ainda estou só ouvindo, não sei se vou levar.

— Você ainda compõe?

— Não. Parei faz tempo.

— Que pena. Sabe que eu ainda tenho aquela sua música no computador?

—  Nossa, você não deletou “aquilo”?

—  Claro que não. “Aquilo” é a única recordação que tenho de você. Sei de cor. Às vezes ainda ouço. É boa pra caramba.

Ele sentiu um misto de vergonha e orgulho. Achou que nunca mais saberia dela e que seus mundos paralelos jamais voltariam a se cruzar. Acreditar nisso tornava as coisas mais fáceis. Mas agora ela estava ali, diante dele, lembrando-o das coisas que dividiram um dia. Deu saudade.

— É estranho te ver de novo. – confessou

— Eu sei.

Ela quis abraçá-lo e dizer como havia sido difícil esquecer. Quis contar quantas madrugadas passou controlando bravamente o desejo de procurá-lo. Quantas lágrimas precisou sufocar sozinha. E quanto desejou ficar com ele. Mas, de que adiantaria?

— Eu tenho que ir.

Beijou-o no rosto, em despedida. Resistiram ao ímpeto de tocarem um ao outro. Ainda assim, sentiram o contato e o beijo se prolongou em uma espécie de abraço sem braços. Anos de ausência condensados naquela fração de segundos. Ela soprou em seu ouvido:

— Sinto muito sua falta –  virou as costas e partiu, quase correndo, sem olhar para trás.

— Eu também- ele respondeu, embora ela não pudesse ouvir. E permaneceu ali sozinho, imóvel, com o cd na mão.

Anúncios

7 Respostas to “Um abraço sem braços”

  1. Helga 1 de setembro de 2010 às 12:24 pm #

    Fabiiiiiiiii, você me deixa sempre querendo ler mais, sacanagem! Muito lindo! beijos

  2. Lívia Komar 1 de setembro de 2010 às 2:26 pm #

    Uau!

  3. Lívia Stábile 1 de setembro de 2010 às 8:13 pm #

    SOCORRO! AMEEEEEIII!! E sei lá porque… fiquei SUPER emocionada!!! Lindo lindo!!! Obrigada pela sua criatividade amada! Bjos

    • Guilherme Leme 1 de setembro de 2010 às 8:56 pm #

      Eu também achei esse texto fantástico. Acho que já li umas 3 vezes. De uma sensibilidade sem tamanho. Vocês são muito queridas!

  4. Fabiana Marques 2 de setembro de 2010 às 12:07 am #

    Eu nunca tive muita coragem de divulgar meus textos pretensamente literários. Mas ultimamente só consigo me expressar por meio de literatura… Que bom que gostaram. beijocas.

  5. Bruno Imbroisi 2 de setembro de 2010 às 9:37 am #

    É um super estado de tensão!
    Um estímulo rompendo o estado de equilíbrio psicológico e re-criando uma necessidade…
    A tensão conduzindo a um comportamento capaz de atingir alguma forma de satisfação dessa necessidade…

    Será que ficou satisfeita a necessidade?
    Será que voltaram mesmo ao seu estado de equilíbrio inicial?

    (to be continued?…rs)
    Muito bom! Parabéns e obrigado

    • Fabiana Marques 2 de setembro de 2010 às 10:35 pm #

      Bruno, gostei dessa sua definição. Eu pensei em outra parte, sobre o que rolou depois, mas acho que certas historias ficam melhor se a gente não souber mais…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: