Canalha

16 nov

O sol ainda nascia lá fora quando seu coração começou a bater descompassado. Sim, ela recebera a prova que temia e que comprovava sua intuição. Sim, ele estava dividindo seus beijos com outra, seus pensamentos com outra, seus sorrisos com outra, seu sexo com outra.

A lucidez abandonou sua mente, saiu pelas portas do fundo. Porém, manteve a frieza e o cinismo, aproveitando que ele ainda dormia para perguntar angelicamente sobre a prova. Sabia que homens são sinceros apenas quando não acordados, apenas quando suas guardas ainda estão baixas por conta da embriaguez, ou da sonolência, ou … Sim, ele confirmou candidamente o que ela precisava saber, sem se dar conta de que era o início do pagamento pela sua própria irresponsabilidade.

Homens são como cachorros, não sabem mentir… Pensam saber, mas deixam provas em cada esquina, olham com medo, soltam a frase errada na hora errada, tropeçam nos próprios sapatos. A culpa os consome bem mais do que quando nós a sentimos. Chega a ser interessante. Com provas em mãos, ela se deixou levar pela onda de ódio, raiva, desapontamento e um cado de superioridade, pois ela sabia que seu caráter intacto era algo que ele sempre temia.

Gritou tudo o que podia. Fodam-sem os vizinhos. Precisava tirar tudo de dentro. Foi irônica, raivosa, inteligente, cruel. Os olhos dele, arregalados como nunca antes, sabiam que não tinha mais volta. Tudo o que ela queria era que ele confessasse, explicasse seus motivos, jurasse amor eterno, pedisse perdão. Queria que ele fosse sincero ao menos uma vez na vida. Que deixasse seus traumas passados e abrisse seu coração. Que agisse como um homem de caráter. Ela queria que ele fosse um homem, mais uma vez ele foi um menino.

Tudo o que ele fez foi negar e fugir. Como sempre, ela pensou. Fugiu sem grandes explicações. O medo transpirava do seu olhar, do seu corpo, do seu cheiro, dos seus gestos. Não sabia por onde se movimentar, não sabia para onde ir. Saiu cambaleando, como um bebum. Afogado em sua própria culpa. Bêbado de sua imensa lista de mentiras. Bêbado por não saber mais quem era, quem é.

 Ela tremia. Sentia seu sangue correndo o corpo todo. Abriu a janela. Abriu um vinho. Foda-se que são nove da manhã. O estômago é meu e a dor é minha. Sorveu a bebida que parecia mais doce do que nunca. O doce contrastava com a acidez na sua boca, a cólera no seu coração. “Eu sabia”, repetia. “Eu sabia”. Sorriu de si mesma. Enganou-se por tanto tempo. A jornada estava chegando ao fim. Esse era o sinal. Ainda teria uma curta caminhada até finalizar tudo, mas sabia o que fazia ali e o porquê de tudo aquilo.

 Tomou um banho. Olhou-se no espelho. Sentiu mais orgulho do que nunca de ser quem era. Dignidade sempre foi sua parceira de vida e ela lhe era grata agora. O perdão viria na hora certa, pois manter o coração em pedaços era nada mais do que sorver pequenas doses diárias de veneno. Descobriu em si uma força que nunca imaginou ter. Descobriu em si uma ânsia de viver que a completava, arrepiava cada pelo do seu corpo. Respirou fundo. Agradeceu o destino. Era o começo do fim. Que assim seja. Vestiu seu vestido preto, seu sapato preto e foi viver.

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2 Respostas to “Canalha”

  1. Fabi Marques 16 de novembro de 2010 às 2:04 pm #

    Olha deusa, vc tem seu lado cronista tbm. Adorei! Conheco essa historia? Escreva mais. bjo

    • Lívia Stábile 16 de novembro de 2010 às 2:25 pm #

      Conhece não! Nem eu conhecia! Ou será… ; ) Veio como vômito (sorry pela comparação). Obrigada amada! bjo no coração!

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