Pretexto

21 dez

Era para ser um dia qualquer. Mas ela tinha essa coisa com datas e números. Guardava todos e não esquecia nunca mais. A primeira vez que viu o primeiro namorado num show de talentos do colégio. O dia que foi ao cinema com aquele amigo que depois virou amante. A última vez que falou ao telefone com o ex. Era uma espécie de sina, maldição. Por mais que tentasse esquecer a data de aniversário dele, não funcionava. Então naquele dia 15 ela não conseguia pensar em outra coisa.

Não que fazer aniversário fosse importante para ele, ou pra qualquer pessoa nessa altura da vida, mas era uma data em que era permitido lembrar e pior, era permitido entrar em contato. Escreveu alguns rascunhos de email, apagou todos sem enviar. Pensou em mandar uma mensagem pelo celular (é, ela apagara o telefone, mas ainda sabia o número de cor, maldição!), também desistiu. Até que teve a brilhante ideia de fazer uma ligação. “É rápido, prático e objetivo. Escrever deixa muita coisa nas entrelinhas”. Antes que tivesse tempo de mudar de opinião, já tinha discado.

— Alô.

— Oi, sou eu, tudo bem?

–…

— Você não sabe quem é, né?

— Sei.

— Então quem é?

— Preciso mesmo responder?

— Credo. Você continua grosso.

— Foi para isso que você me ligou?

— Não, liguei para te desejar parabéns. Muitas felicidades, saúde, dinheiro, amor, e todas essas coisas.

— Obrigado.

— E aí, vai comemorar?

— Você sabe que eu não ligo muito para aniversário. Nem meus pais me telefonam mais para me dar parabéns.

— Eu sei, mas é um bom pretexto para entrar em contato com você.

— E você precisa de pretexto?

— Claro que preciso.

— Ah tá, como se alguém conseguisse te deter.

— Nossa, quem vê pensa. Você tem noção há quanto tempo não nos falávamos?

— Seis meses, 13 dias e quatro horas?

— Porra, te ligo na maior das boas intenções e você fica tirando uma com minha cara.

— Vai dizer que você não sabe exatamente quanto tempo faz?

— Errr. Sei. Mas sei o tempo exato de muitas outras coisas também. Não é nada pessoal.

— Quanto tempo faz?

— Cala a boca

— Quanto?

— Não vou falar.

— Fala vai, quero saber.

— Três meses e 20 dias.

— Tudo isso?

— Aham.

— E como você agüentou?

— Você não me deu muita escolha.

— Você também não me deu muita escolha.

— Sei.

— Eu já te expliquei que você me obrigou a fazer certas coisas para o seu próprio bem.

— Ah pronto. Lá vem…

— Me preocupo com você. Não queria que estragasse sua vida.

— A minha ou a sua?

— A sua, claro.

— Mentira. Você tinha é medo de estragar a sua. Tinha medo de eu decidir com todas as forças que queria ficar com você e você ter que se decidir também. Medo de acabar com a ordem e a previsibilidade da sua vidinha medíocre.

— Não. Eu realmente me preocupo com você.

— Sei. E por isso quando você fica bêbado e com saudade você acha OK me ligar pra conversar de madrugada? Aí não tem problema? Só tem problema se for eu quem estiver bêbada e carente, é isso?

— Tá, você tem um pouco de razão.

— Claro que tenho, mas hoje eu só te liguei mesmo para falar parabéns. Aí você me provoca e eu acabo falando mais do que queria.

— Entende porque eu me esforço tanto para não falar mais com você? Não é que eu não deseje ou não sinta saudade, é que acaba sempre nisso aí.

— Eu não quero que seja sempre assim.

— Não vai ser. Um dia vai passar.

— Quando?

— Daqui cinco meses, 23 dias e três horas.

— Odeio quando você tira sarro de mim.

— Adoro te deixar nervosa, você fica ainda mais linda.

— Não começa.

— Tá bom.

— Então feliz aniversário de novo.

— Valeu.

— Um beijo.

— Outro.

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5 Respostas to “Pretexto”

  1. claudio r. 22 de dezembro de 2010 às 2:25 am #

    Ficção ou realidade???

  2. Fabi Marques 22 de dezembro de 2010 às 7:58 am #

    Ficção sempre.

  3. ony2005 23 de dezembro de 2010 às 12:02 pm #

    Não sei não, está parecendo realidade isso ai!

    • Fabi Marques 23 de dezembro de 2010 às 7:14 pm #

      Em tudo q escrevo há alguma inspiração na realidade. Nesse texto, por exemplo, eu realmente sou boa com datas e tal. Mas a história em si nunca aconteceu nao…

      Enviado via iPhone

  4. Lívia Stábile 29 de dezembro de 2010 às 11:02 am #

    Interessante como as pessoas sempre se preocupam em saber se e real ou nao… Coisas do ser humano!! Eu amei o dialogo! Como sempre! beijos amada

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