Arquivo | março, 2011

Depois do Fim

31 mar

Há tempos não se animava tanto para sair. Aliás, há tempos não se animava tanto para nada. Era o primeiro dia de primavera após um longo inverno interior. As amigas, acostumadas à vida noturna, escolheram um barzinho descolado com música ao vivo. “ Vai tocar uma banda bacana”, explicaram.

Depois de alguns minutos de indecisão, escolheram a melhor mesa. “Nem muito perto da banda, nem muito longe do bar”. Engraçado como as quatro eram diferentes em tudo, até fisicamente. Enquanto as amigas escolhiam as bebidas no cardápio, ela observou o lugar com curiosidade. Sentiu uma felicidade simples, daquelas que brotam no peito sem motivo aparente e sorriu.

Já tinha tomado dois mojitos quando a banda começou a tocar. Estava sentada de costas e teve preguiça de virar-se para trás.

— Essa banda é muito boa, Ana. Você conhece?

— Acho que não, faz tempo que não saio né?

Mesmo de costas, passou a prestar atenção aos acordes e pouco a pouco foi se animando a virar para ver os músicos. Girou a cadeira e ficou de frente para o palco. Passou os olhos rapidamente pelo baterista e pelo guitarrista. Quando finalmente viu o vocalista sentiu seu sangue gelar. O coração não chegou a acelerar, ao contrário, batia mais devagar. Depois de tanto tempo, revê-lo trazia emoções calmas e nada turbulentas.  Ele ficava bem em cima do palco, mas ela já não conseguia enxergar o príncipe por quem tinha sido apaixonada. Ao contrário, viu um plebeu dos mais comuns, barrigudo e com um tique insuportável de fungar o nariz. Riu sozinha com a leveza de suas lembranças. “Além de tudo ele está ficando careca”, observou.

Percebeu que se sentia alegre por ele estar cantando ali, sabia o quanto aquilo lhe era caro. Mas também identificou uma ponta de rancor e despeito.   Não queria conversar com ele, não queria saber de nada, nem amizade, nem qualquer outro tipo de relação. Estava em paz com sua história terminando assim. Pensou em ir embora antes que ele a visse, mas deu os ombros. “Whatever”. Neste instante seus olhares se cruzaram.  Entre a surpresa e o desconforto, meio sorrisos se abriram, sobrancelhas se levantaram.  E só.

Ana virou-se de volta para as amigas e tranquilamente voltou a beber.  Ainda podia ouvi-lo cantando Nine Inch Nails,  “the farther I fall I’m beside you,as lost as I get I will find you, the deeper the wound I’m inside you for ever and ever I’m a part of you”. Eram os versos da música que uma dia tinha sido deles.

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Teu passado te condena?

24 mar

“Quem vive de passado é museu”. Lembro-me perfeitamente quando escutei essa declaração do filho do Pelé, que na época estava jogando como goleiro em algum time importante, e começou a ser cobrado por ser filho do Rei do Futebol… Eu era adolescente, mas aquela frase me tocou profundamente. Anos depois, em um workshop muito especial que fiz em Minas, a primeira atividade consistia em entrar em um local muito especial e lá deixar o que quer que estivesse te impedindo de ser feliz. Eu fiquei surpresa quando mais de 60% do grupo escolheu o passado como maior causador de sofrimento na vida deles. E assim vai… Tenho pensado muito no passado e discutido muito sobre ele. E você? Qual é o peso do passado na sua vida?

Desde de comecei meus estudos, sempre encontro a mesma afirmação em diversos e diferentes escrituras espirituais: para ter uma vida saudável, deixe o passado para trás. Concentre-se no presente. No Master em Psicologia que estou fazendo existem teorias diferentes, mas as mais recentes e impactantes também oferecem pouca atenção ao passado ou o ignoram completamente. Por muito tempo eu fiz psicanálise e acreditei que tinha dissecado todo o meu passado, mas a vida tem me oferecido muitas situações onde constato, mais e mais, que algumas feridas que eu julguei cicatrizadas ainda estão abertas profundamente. A pele parece curada, mas a ferida ainda sangra internamente.

Então o que fazer? Deixar o passado para trás e tentar seguir em frente totalmente concentrada no presente? Ou visitar o museu, abrir de vez a ferida e estancar o sangramento para que enfim a cicatrização aconteça? Eu decidi optar pelo caminho do meio. Quando sentir que existe algo ainda profundo e pesado sobre o meu passado, farei uma mini cirurgia para avaliar a situação e curar o que está me impedindo de viver plenamente. Quando sentir que estou reagindo baseada em fatos do passado, mas que não são dramáticos, são apenas condicionamentos e padrões cimentados com o tempo, buscarei agir de maneira diferente, buscarei permitir que o novo entre e me surpreenda. Pois é impossível beber duas vezes a mesma água do Rio com belas correntezas.

Sugiro que você comece a observar o quanto o passado te influencia. Pode ser que você abra mão de uma proposta por ter medo que algo que já ocorreu volte a acontecer (e a probabilidade de você estar certa é pequena, já que cada situação é única). Pode ser que você esteja negando-se certas experiências por medo de ser machucado (a) (mesmo sabendo que as pessoas envolvidas nessa nova experiência são totalmente diferente das do passado). Pode ser que você esteja magoando pessoas porque reage brutalmente à situações não tão complicadas, mas que te remetem à aquela ferida que ainda sangra embaixo da pele saudável.

Observe. Sem estresse. Aceita suas fraquezas, mas trabalhe para vencê-las. Encare-se como um eterno aluno (a) da vida. Saiba que sempre, sempre existe espaço para mudar, adaptar, transformar. E, quando sentir que a ferida cicatrizou genuinamente, feche a porta do museu e segue em frente! Beijo no coração e Namastê.

PS: acabo de observar que tenho escrito muito sobre o passado. Peço desculpas! No entanto, lembro que quando temos uma (ou algumas)  lição (ões) para aprender, ela volta a acontecer na nossa vida até que possamos compreender e aprender definitivamente. Provavelmente eu tenho algo para aprender sobre minha relação com o passado. E você?

A carta que eu sempre quis receber

21 mar

Minha querida e amada amiga,
A vida é um paradoxo. Luz e sombra co-existem. Enquanto somos de carne e osso, interagir com a dualidade é o desafio.
Sim, temos dias de luz, de amor incondicional, de compaixão, de singela beleza em cada olhar, de sorriso aberto, de esperança, de criatividade, de pleno e profundo amor.
E, sim, temos dias de profunda escuridão, de rancor, de inveja, de arrependimentos, de rabugice, de falta de crença, de solidão, de lágrimas com coração apertado, de dor, de depressão.
Somos humanos e viver entre esses dois extremos é inerente a nossa existência.
Entretanto, talvez esses dois opostos existam exatamente para nos oferecer nossa lição maior: aprender a viver em paz, independe da glória ou da derrota que acompanha nossa vida diária. Somos seres em evolução. Cada desafio, cada dia de luz ou de escuridão, é perfeito, pois nele está a oportunidade para aprender mais sobre nós, sobre que somos, sobre nossos defeitos e nossas qualidades, sobre como evoluir.
A evolução carece de retrocessos muitas vezes. Como aperfeiçoar algo sem burilá-lo muitas vezes?
Como saber o que é a luz sem nunca ter habitado na escuridão?
Como sentir amor sem nunca ter sentido indiferença, ou dor?
Esses são passos humanos e mágicos minha doce amiga!
Cada etapa dessa (luz ou escuridão) existe para nos trazer mais para perto do nossa auto realização.
Talvez, se sempre estivermos bem, não procuraremos curar feridas internas que parecem já cicatrizadas, mas que profundamente ainda seguem sangrando…
Muitas vezes é preciso abrir a cicatriz pra limpar todo e qualquer resquício de inflamação que ainda esteja camuflada…
O importante é se permitir sentir. Permita-se sentir a dor. Permita-se chorar. Permita-se não ser perfeita. Permita-se retroceder. Permita-se replanejar. Permita-se não ser feliz 100% do seu dia.
PErmita-se.
Deixe os sentimentos e emoções tomarem conta do seu corpo. Observe para que região eles vão.
Coração? Pescoço? Pernas? Ombros?
Fique com eles. Sinta-os profundamente. Mergulhe em cada sensação.
E… depois de algum tempo, deixe eles irem embora.
Respire fundo, muitas vezes.
Perceba que o ar que entra traz luz e energia para seu corpo e sua alma. Permita que ele purifique sua dor, purifique suas células, purifique a região onde sua dor está…
Perceba que o ar que sai leva com ele tudo aquilo que você não precisa mais. Toda a energia bloqueada. Todas as emoções que você já sentiu, mas que não te servem mais.
Faça isso muitas vezes. Muitos dias. Com intenção.
Relembre o aspecto divino dentro de você.
Estamos aqui para recordar que, não só somos filhos de Deus, mas que somos um com Ele.
Pouco a pouco abra seu peito, olhe para o céu. Agradeça mais essa oportunidade de estar viva, aprendendo, brincando de ser gente grande!
Saiba que Deus, e muitos outros seres angelicais, estão sempre ao seu lado. Eles estão apenas esperando que você abra sua mão para que possam colocar a deles sob a sua e te guiar pelo caminho certo.
O caminho seguirá te trazendo desafios, mas dessa vez você estará segura de que eles são o que você precisa para crescer. Você estará segura de que não está sozinha, de que nunca esteve…
Habitar pacificamente na existência da dualidade, do paradoxo – esse é um dos principais propósitos da humanidade minha amiga linda!
Somos todos aprendizes, alunos, discípulos, crianças de bom coração…
Queremos todos a mesma coisa.
Não, não é dinheiro, poder, mulheres/homens, status, roupas, carros, jóias, festas, comida e bebida em excesso…
Não.
Queremos ser amados e amadas. Queremos ser aceitos e aceitas.
E acreditamos que é o dinheiro, poder, festas, etc, que vai nos trazer o amor e aceitação que buscamos.
Não amiga querida.
O que trará mesmo tudo isso é recordar quem somos. É recordar que somos espírito, somos luz, somos mágicos.
Somos o que fazemos de nós a cada dia.
Somos o que fazemos do nosso dia.
Quando encontrarmos, internamente, o auto-amor, a auto-aceitação, a auto-realização, não existirá escuridão capaz de obscurecer nossa própria luz.
Essa é a caminhada espiritual que temos de trilhar.
Nela temos altos e baixos. O importante é seguir em frente. E crer em quem você é.
É crer que você é capaz.
É crer que você é Deus.

É se auto-respeitar e ser delicada com cada fase nova da vida.

É se auto-amar (na luz ou na escuridão), é se auto-aceitar, é se auto-perdoar.
Eu te amo minha amiga.
E eu carrego no meu coração as mesmas aflições que você carrega.
E eu entendo cada lágrima e cada sorriso seu.
E eu sei que você e eu podemos e alcançaremos algo maior.
Eu acredito em você.
E eu te amo profundamente!
Um beijo no seu coração.
Lívia

Lado B

18 mar

 

Post curto devido a braço engessado por tendinite…

Minha voz continua a mesma, mas meus cabelos, quanta diferença!

Sabe aquele som que você adora, mas morre de vergonha de confessar?  O meu é Shakira. Curto as músicas dela desde o começo dos anos 90, quando meu irmão apareceu em casa com um cd da colombiana descabelada cantando Estoy Aquí. De lá pra cá, a cantora ficou pop e seus showzinhos na boate de Ribeirão (!!!!) ficaram para trás. Por sinal ela está no Brasil e vai passar bem longe daqui. Mas gosto dela, ainda mais quando canta em espanhol. Pode me chamar de cafona, mas para mim Shakira rocks!

Enjoy!

Carta aberta ao meu grande amor

10 mar

Quem aguenta esse olhar sapeca?

Gael

Filho, hoje você faz dois anos. Não é tanto tempo, mas é o suficiente para eu já nem lembrar como era minha vida antes de você.  Tenho tantas coisas para te dizer e espero ter todo o tempo do mundo para te dizê-las diariamente. Mas há algumas coisas que você precisa aprender sobre sua mãe. Eu adoro escrever cartas e essa certamente será apenas uma delas para você.

Vou ser muito sincera. Aliás, essa é outra coisa que você vai aprender sobre a mamãe. Sou muito sincera, e isso pode até ser uma virtude, mas às vezes magoa. Então já te peço desculpas antecipadas por quando minha sinceridade machucar você. Porque por mais que eu tente ( e tentarei com todas as forças), um dia vou acabar magoando você. E pode ter certeza, que eu vou errar tentando acertar, sempre.

Voltando ao assunto. Pra ser sincera eu nunca imaginei que seria uma boa mãe. Aliás, nunca me imaginei muito como mãe. Embora você tenha sido planejado e muito desejado,  eu me sentia insegura de como exerceria a maternidade. Mas isso mudou no exato instante em que te olhei pela primeira vez. Depois de 15 horas de trabalho de parto ( ou 18, já não lembro mais), vi você ainda com a cabeça meio amassada, sujinho daquela cera branca, senti seu peso no meu peito, e soube que eu seria a melhor mãe que poderia ser.

Você é minha maior aventura.  E apesar de eu reclamar um pouquinho do que deixei de fazer depois que você nasceu ( outra coisa filho, sou reclamona pra caramba, sorry about that), faço tudo sem esforço. Por você, meu príncipe, vale tudo. Cada risada solta, cada cheirinho no cangote, cada beijo espontâneo, ultrapassam mil vezes os perrengues de ser mãe. E não vou mentir, ser mãe não é fácil. Cansa, esgota, exaure. Mas ser SUA mãe, faz toda a diferença.

Eu achei que fosse te ensinar a ver o mundo. Mas a verdade é que sou eu que aprendo contigo o tempo todo. Só com você consegui verdadeiramente apreciar o instante, ser feliz naquele minuto presente, no agora,  ter vontade de congelar o planeta só pra ficar te vendo correr atrás de passarinhos ou dormir esparramado no berço. Você me ensina a ter menos pressa e só isso já é motivo pra eu te agradecer a vida toda.

Eu quero um mundo de oportunidades para você. Tudo que faço hoje é por você. Sou capaz de tudo, matar e morrer, e não estou exagerando.  E sabe o que quero em troca? Absolutamente  nada. Ou quase. Quero mesmo, apenas, que você seja muito feliz.

Por isso meu filho, tente entender se eu ficar chateada no dia em que você me pedir pra não pegar mais na sua mão, ou quando você revirar os olhos por eu dizer algo que você ache antiquado.  E entenda também se eu ficar muito irritada quando partirem seu coração pela primeira vez.  É muito amor, Gael. É amor além do entendimento.  É amor pra toda vida.

Pra encerrar, vou repetir o que te digo sempre, mas acho bom deixar registrado por escrito. Você pode contar comigo para tudo. Estarei sempre ao seu lado, sempre.  Porque não há nada que possa fazer eu deixar de te amar. Entendeu? Que Deus te proteja meu amor.

Feliz Aniversário,

Beijos

Mamãe

De malas e coração prontos

7 mar

Estou de mudança. Literalmente. Logo, darei uma sumidinha básica por alguns dias (ou não, vai saber!!).

Quero apenas deixar registrado a maravilhosa transformação que acontece quando mudamos de casa, de trabalho, de cidade, de namorado, de hábitos alimentares, de hábitos mentais… !

Tudo começa no campo da sabedoria profunda da nossa alma. Ela sabe muito mais que nossa mente e começa a influenciar nosso campo das idéias, entre nossos pensamentos e emoções, para o que está por vir. Processos duradouros e positivos desabrocham vagarosamente. Assim como a orquídea daqui de casa: faz mais de um mês que, diariamente, festejo os brotinhos de flores dela nascendo! Ontem duas flores começaram a se abrir, lentamente, revelando todo o seu mistério, sua força e beleza.

É assim na vida também. Também germinamos. Precisamos de um tempo, um momento de pré-transformação, um espaço vazio entre o velho e o novo, para nos refazer e começar de novo de forma sólida, confiante, equilibrada. Toda transformação súbita é superficial, já dizia a psicologia tradicional e a cultura oriental (por isso praticamos infinitamente). Minha mudança começou há exato um ano, quando passando por uma experiência forte, escrevi em um papel que estaria me mudando de casa em exatamente um ano. Bem, intenção é poder e aqui vou eu!  

Durante esse tempo de espera me preparei para deixar muito espaço vazio na minha vida para o que essa etapa nova trará. Também finalizei muitas situações (familiares e internas) que precisavam ser finalizadas. Deixo o lar onde estou com muita gratidão, muitas boas lembranças e muito amor pelos que aqui ficarão. Entrarei no meu novo lar também cheia de amor, gratidão pelo novo e espaço de sobra para as novas lembranças que criarei!

Espero que as mudanças na sua vida também tenham hora certa pra acontecer! E que sejam leves, divertidas, duradouras e cobertas de amor e luz. Beijo no coração e Namastê.

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