Depois do Fim

31 mar

Há tempos não se animava tanto para sair. Aliás, há tempos não se animava tanto para nada. Era o primeiro dia de primavera após um longo inverno interior. As amigas, acostumadas à vida noturna, escolheram um barzinho descolado com música ao vivo. “ Vai tocar uma banda bacana”, explicaram.

Depois de alguns minutos de indecisão, escolheram a melhor mesa. “Nem muito perto da banda, nem muito longe do bar”. Engraçado como as quatro eram diferentes em tudo, até fisicamente. Enquanto as amigas escolhiam as bebidas no cardápio, ela observou o lugar com curiosidade. Sentiu uma felicidade simples, daquelas que brotam no peito sem motivo aparente e sorriu.

Já tinha tomado dois mojitos quando a banda começou a tocar. Estava sentada de costas e teve preguiça de virar-se para trás.

— Essa banda é muito boa, Ana. Você conhece?

— Acho que não, faz tempo que não saio né?

Mesmo de costas, passou a prestar atenção aos acordes e pouco a pouco foi se animando a virar para ver os músicos. Girou a cadeira e ficou de frente para o palco. Passou os olhos rapidamente pelo baterista e pelo guitarrista. Quando finalmente viu o vocalista sentiu seu sangue gelar. O coração não chegou a acelerar, ao contrário, batia mais devagar. Depois de tanto tempo, revê-lo trazia emoções calmas e nada turbulentas.  Ele ficava bem em cima do palco, mas ela já não conseguia enxergar o príncipe por quem tinha sido apaixonada. Ao contrário, viu um plebeu dos mais comuns, barrigudo e com um tique insuportável de fungar o nariz. Riu sozinha com a leveza de suas lembranças. “Além de tudo ele está ficando careca”, observou.

Percebeu que se sentia alegre por ele estar cantando ali, sabia o quanto aquilo lhe era caro. Mas também identificou uma ponta de rancor e despeito.   Não queria conversar com ele, não queria saber de nada, nem amizade, nem qualquer outro tipo de relação. Estava em paz com sua história terminando assim. Pensou em ir embora antes que ele a visse, mas deu os ombros. “Whatever”. Neste instante seus olhares se cruzaram.  Entre a surpresa e o desconforto, meio sorrisos se abriram, sobrancelhas se levantaram.  E só.

Ana virou-se de volta para as amigas e tranquilamente voltou a beber.  Ainda podia ouvi-lo cantando Nine Inch Nails,  “the farther I fall I’m beside you,as lost as I get I will find you, the deeper the wound I’m inside you for ever and ever I’m a part of you”. Eram os versos da música que uma dia tinha sido deles.

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3 Respostas to “Depois do Fim”

  1. Julia Husseini 2 de abril de 2011 às 12:00 am #

    ai Fabii, sou sua fã! Vc descreve exatamente o que passa na cabeça em segundos (eu tb “gravo” tudo! ahahaha…) Começa o livro de cronicas logo! Um já é meu!

  2. Fabi Marques 7 de abril de 2011 às 9:50 pm #

    hahaha, obrigada querida. Quem sabe lanço um livro : crônicas de dor de cotovelo. Beijos

  3. Lívia Stábile 7 de abril de 2011 às 10:05 pm #

    ADORO suas crônicas! bjos

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