Arquivo | junho, 2011

Delicada, só que ao contrário

29 jun

Estudei a vida inteira com uma amiga chamada Maria Fernanda. Ela sempre foi a menina mais meiga, delicada e jeitosa da classe.   O exato oposto de mim. Inúmeras  vezes me peguei sonhando em ser como ela, tão dócil.

Mas não. Fui daquelas meninas que voltavam da escola com as canelas roxas e os joelhos ralados.  Aos 4 anos já tentava esconder os machucados do meu pai.  Ao invés de me encher de beijinhos, ele me dava muita bronca. Psicologia reversa.

Hoje entendo meu pai. Devia dar nos nervos dele ver a “princesinha” tão estabanada. O fato é que sempre fui meio desastrada. De bater nas quinas das mesas sem perceber, tropeçar até de chinelo, topar com a cabeça em tudo quanto é prateleira.

Pior. Sou distraída e estabanada. Uma combinação quase fatal.  Na adolescência eu arrebentava em média uma sandália por fim de semana. Salto agulha? Jamais. Não sei andar nisso até hoje. Eu consigo torcer o pé andando tranquilamente de chinelo, tênis e até mesmo descalça.  Ou seja, os saltos altos e finos são mantidos a segura distância de mim, assim como as facas dos suicidas.

Aos onze anos, brincando na casa de praia dos meus padrinhos, pulei um portão e até hoje não sei como, mas bati o nariz com tal força que o quebrei ( ou algo que o valha, pois surgiu um calo ósseo). Não satisfeita, dali um mês me deixei acertar por um rodinho ( não me perguntem como !) o que acabou com meu nariz de vez.

Estou tão acostumada a torcer o pé e quase cair no meio da rua (ou onde quer que seja) que criei  uma estratégia para não afundar de vergonha nessas situações. Eu me levanto com cara de dor ( na maior parte das vezes não me machuco, é puro desajeito), coloco as mãos no tornozelo, respiro fundo como se quisesse recobrar o fôlego e saio mancando. As pessoas se sensibilizam o suficiente para deixar de rir, mas não a ponto de me prestar socorro. É perfeito!

Uma noite, em Barcelona, estava chegando na balada com meus amigos e, do  NADA, meu joelho dobrou e eu despenquei 3 lances de escada. Formou-se um círculo de pessoas à minha volta, falando catalão. Fingi uma tontura para tentar disfarçar. Quando entendi que estavam pensando em chamar uma ambulância ( catalão é uma mistura de francês , espanhol e português dificílima de compreender), levantei num pulo e saí. Nessa hora desejei ser a Maria Fernanda mais do que nunca.

Dois dias depois, nessa mesma viagem, estava me despedindo de um mocinho, andando de costas, cheia de charme pelas Ramblas. Quando finalmente virei de frente, dei com a cara em uma árvore centenária e caí com tudo para trás. Lógico que o cara viu e correu pra me socorrer. Nem preciso dizer que nunca mais fiquei com ele, né?

Trabalhando eu também sou perigosa. Certa vez ao sair de uma entrevista, com a mesma pressa injustificada de sempre, trombei com um vaso de cactus gigante e me enchi de espinhos nas mãos e nos braços. Precisei até tomar vacina antitetânica.

Esse aqui acabei de lembrar e estou incluindo neste post um dia depois de tê-lo publicado. Fui ao circo com meu marido e uma turma de amigos. O circo foi montado numa casa de eventos, era comemoração dos 100 anos de uma faculdade. Enfim, chegamos atrasados, tudo escuro e a apresentação já rolando. Achei uma cadeira vazia e sentei. A cadeira estava em cima de uma palanque, era tipo um camarotezinho. Eu não tinha visto que estava tão próxima da beirada ( nem tinha percebido a diferença de altura pra ser sincera) e ao sentar com toda minha delicadeza e jeito,  despencamos, cadeira e eu, para o andar de baixo. O circo meio que parou pra me socorrer e dessa vez  doeu bastante. Passei o restante da apresentação sorrindo amarelo para todo mundo que gargalhava só de olhar para minha cara e lembrar.

Mas acho que a pior das histórias aconteceu quando eu estava grávida de nove meses, explodindo. Fui abrir uma garrafinha plástica de água e emperrou ( sempre acontece isso comigo). Então saquei uma faca afiada da gaveta e usei-a para cortar o plasticozinho. Jeitosa, escorreguei a mão e furei o meu dedo, rompendo o seu tendão e indo parar no hospital para uma microcirurgia. Dali uma semana fiz um parto normal com a mão enfaixada.

Por essas e outras, acho que Deus sabia o que estava fazendo quando me mandou um filho homem.  Assim ele não sofre com meu jeitinho na hora de tirar a sua roupa ( sempre fica com a cabeça presa na camiseta, quase sufocado, tadinho), nem com minha falta de delicadeza na hora de fazer carinho,  dar banho e todas as outras coisas.  Meus carinhos estão mais para apertões, mordidas e tapinhas carinhosos do que afagos delicados.

O fato é que já desisti de ser como a minha colega de classe.  Não faço o estilo mulherzinha-flor. O que não me torna melhor ou pior do que ninguém. No máximo mais engraçada e com as pernas mais roxas. E arrisco dizer que esse desajeito é parte do meu charme. Pelo menos meu pai nunca mais brigou comigo.  Até o próximo tombo!

Não quer ser escravo de ninguém? Então perdoe!

27 jun

 Nada alivia mais que o perdão. Aquele verdadeiro, que vem de dentro do coração. Que vem com tanta força e naturalidade que parece arrancar e levar embora tudo o que não é positivo, tudo o que não nos serve mais. Eu vivi um desses momentos poderosos semana passada. Conversei com uma pessoa que foi muito importante pra mim (e que sempre será), mas que no passado me magoou muito, e eu sei que a magoei muito também. Levou tempo pra eu conseguir sarar as feridas e, na verdade, acho que elas só cicatrizaram de vez depois que conversamos. Quem guarda rancor, quem não perdoa, permanece ligado a sentimentos ruins, como um escravo amarrado em um tronco… Eu consegui me libertar! E você? Quem falta você perdoar?

 O perdão é um dos sentimentos mais libertadores que existem, pois com ele alcançamos o amor incondicional: aquele que não impõe nem espera nada em troca, aquele que aceita sem barreiras, sem “mas”, sem “se”. Ele abre nosso coração para o que existe de mais puro e permite que nos conectemos com nossa alma e a alma do outro. É nessa conexão que percebemos como somos genuinamente iguais, como somos espelhos um do outro, e como aquilo que nos irrita ou magoa no outro também faz parte da gente. Logo, como julgar ou condenar?

Meu momento de perdão foi genuíno. Senti que minhas palavras saiam do coração e sinto que as da outra pessoa também. Demos risadas, falamos de nossas vidas, planos, amigos famílias. Tudo com uma energia linda de passividade e sei que enquanto estávamos ali conversando algo muito mais superior, no plano espiritual e energético, estava sendo processado. E é isso que acontece sempre quando deixamos de lado nosso ego, nosso orgulho, e nos entregamos ao amor. O resultado foi um sentimento de leveza pura, de jogar fora um peso de 10 kilos de cada ombro, de respirar tranquila de novo, de saber que o que aconteceu foi necessário para nossa caminhada e que somos ambos especiais e ao mesmo tempo eterno aprendizes. No final, de forma mágica, só sobraram boas lembranças de tudo o que passamos, pois o resto (que não servia nem a mim nem a outra pessoa) foi definitivamente eliminado.

Lembro que para poder perdoar o outro, antes de mais nada, é importante se perdoar. Perdoar seus próprios erros, falhas, defeitos, pois são todos lições dessa jornada (em busca da auto-realização) chamada vida. Espero que um dia você possa viver isso. Espero que, caso você tenha ressentimento, mágoa, inveja, raiva, remorso no seu coração, você possa um dia se perdoar, ter compaixão por você mesmo, e depois por aquele (a) (s) envolvido (s) (a) nesses sentimentos. Compaixão, perdão, geram liberdade, geram amor, geram paz. E é isso que eu desejo a vocês! Tudo começa com a intenção (assim como começou meu processo). Logo, se hoje parecer difícil perdoar aquela ou aquelas pessoas que te feriram, comece com a intenção de perdoar-se e perdoá-la (s). Já é um ótimo início!! E depois conta pra gente como foi! Beijo no coração e Namastê!

Um homem extraordinário

23 jun

Eu sei, eu sei: duas semanas atrás eu prometi escrever um post por semana e semana passada eu já deixei vocês na mão! No entanto, foi por uma causa nobre: meu pai fez 60 anos sábado passado e eu e meu irmão fizemos uma surpresa pra ele e viajamos rapidinho para o Brasil pra comemorar!! Foi uma delícia e os cinco dias que passei por lá foram super intensos, mostrando que cada minuto, cada encontro, cada conversa, tinha um sentido mais profundo do que o eu poderia imaginar.

Agora de volta divido com vocês o que eu escrevi e li para o meu pai em sua festa de aniversário. Estávamos todos reunidos no nosso sítio, rodeados de grandes árvores, pássaros e natureza sem fim! Naquele lugar pude entender ainda mais a beleza e a pureza da família, a importância de se ter amigos e parentes por perto, pois são nossa rede de suporte e amor incondicional! Espero que gostem! E espero que os inspire para que vocês lembrem sempre de dizer aos seus pais, mães, irmãos (as) e parentes o quanto vocês amam eles!

 Um homem extraordinário:

 Um homem que constrói uma fazenda com as próprias mãos é um homem extraordinário.

Um homem que dorme em tronco de árvore, que monta em búfalo e cavalo bravo com muita tranquilidade é um homem extraordinário.

Um homem que fala pouco, mas quando fala usa sempre sábias palavras é um homem extraordinário.

Um homem que aceita as pessoas como elas são, que não tenta mudar o que não lhe agrada é um homem extraordinário.

Um homem que respeita a decisão de seus filhos e que sempre os apóia silenciosamente, mas profundamente, é um homem extraordinário.

Um homem que é honesto ao extremo, que não gosta de levar vantagem, que não joga ou planeja jogadas é um homem extraordinário.

Um homem que sabe que colher frutas maduras para a mulher amada é muito mais especial do que presentear com coisas materiais é um homem extraordinário.

Um homem que não gasta energia à toa, que não reclama compulsivamente, que não se deixa levar por emoções negativas é um homem extraordinário.

Um homem que dirige sozinho por 30 Kms com 4 costelas quebradas e um pulmão perfurado é um homem extraordinário. (detalhe: o acidente aconteceu duas semanas antes do aniversário. Ele caiu de um burro e o burro caiu em cima dele… Ninguém merece)

Um homem que dá sem pedir nada em troca é um homem extraordinário.

Um homem que trabalha sem reclamar, que nunca diz estar cansado é um homem extraordinário.

Um homem que vê a beleza da vida na pureza das plantas, na magia dos animais e na sutileza da natureza é um homem extraordinário.

 O discurso foi mais longo, mas essa foi a essência!

Beijo no coração e Namastê!

 

Relato de uma (ex) viciada

21 jun

– Oi, meu nome é Fabiana e eu estou há 10 dias sem acessar o Facebook e o twitter.

Pois é, os dez dias passaram e vou confessar, foi mais fácil do que eu imaginei.

Os dois primeiros dias foram críticos. Fiquei extremamente mal humorada e cheguei a ter dor de cabeça. Diversas vezes me peguei digitando o endereço dos sites, automaticamente. Como já disse aqui, trabalho em casa, esquema home office, então o primeiro e principal sintoma da abstinência foi o isolamento. Me senti sem voz. E comecei a entender porque escrevo tão compulsivamente o que penso nas redes sociais. É carência, gente. Se eu trabalhasse cercada de pessoas, viraria pro colega do lado, faria a piadinha e continuaria trabalhando. Como não tenho com quem compartilhar, azar de quem me segue no twitter ( que é onde tenho menos freios).

Mas estou divagando, voltemos ao que interessa.

Passados esses dois primeiros dias, ficou realmente mais fácil. No terceiro dia, comprovei minha tese de que o facebook me atrasa a vida profissional e rendi muito mais.  Mas tenho uma confissão horrível a fazer. Eu entrei no Orkut. Depois de quase um ano sem qualquer atualização, apelei a ele para satisfazer meus desejos inexplicáveis pela vida alheia. Mas olha, tinham 598 scraps de propaganda e as duas primeiras atualizações que vi de “ amigos” eram fotos em churrasco e com banda de pagode. Sai da página correndo.

No terceiro dia eu já estava esquecendo o Iphone em casa.  Aliás, meu celular ficou bem largado esses dias. Como ODEIO falar ao telefone ( fui daquelas adolescentes que comiam, bebiam, dormiam e etc ao telefone e acho que esgotei todo meu saco de falar no aparelho), usei muito pouco e quando saía no máximo checava meus emails. Foi ótimo, pois vi  que não é a bateria do celular que dura pouco, sou eu que uso muito a internet nele. Nesse dias o tempo útil da bateria praticamente dobrou.

Outra coisa notável foi a qualidade do tempo que passei com meu filho.  Geralmente, ele chegava em casa da escola e ficávamos juntos na sala, enquanto ele via um desenho eu ficava grudada no celular. Acabei brincando mais com ele e vendo os desenhos também, o que foi uma delícia pois ele contava pra mim tudo que ia acontecer. Como ele está aprendendo a falar, foi bem emocionante.

Lá pelo quinto ou sexto dia fui a trabalho cobrir um evento em Piracicaba. Acho que foi o dia que mais senti falta de tuitar. Em geral, nesse eventos rola um tempo ocioso de espera entre as entrevistas e o twitter me salvava do tédio. Em compensação, tive mais tempo para me preparar e observar o que estava acontecendo.

Um grande ponto negativo é que fiquei mal informada. Não costumo entrar em sites de notícias aleatoriamente, o twitter e até mesmo o FB sempre me serviram como “ porta de entrada” pra esse tipo de site. Clico em uma matéria que um amigo compartilhou, acabo lendo outra e mais outra. Nesses dez dias fiquei totalmente por fora.

Ah, também sobrou mais tempo para o maridão. Conversamos mais durante à noite e assistimos vários filmes juntos. Coisa rara! Até ele deu uma afastada das redes sociais no embalo, sem nem perceber.

Resumindo, a experiência maluca foi muito enriquecedora. Sério. Recomendo a todo mundo o óbvio, que deixemos um pouco de lado o mundo virtual para VIVER.

Incômodo

14 jun

Depois de dez anos, a antiga turma da faculdade decidiu fazer um encontro. O primeiro desde que ela havia se formado.  Ao receber o convite, surpreendeu-se pensando nele, imaginando se ele estaria lá.  Na década que separava a formatura daquele convite, conviveu pouco com os colegas da faculdade. E ele, seu professor e  amante, desapareceu por completo.

O dia da reunião chegou e ela se preparou psicologicamente para não pensar nele. Travou uma luta intensa com seus demônios internos. Ainda assim, enquanto escolhia a roupa que ia vestir, um pequeno pensamento escapou de seu controle e ela se viu sorrindo, ao lembrar dele dizendo  “ Por que você se preocupa com a roupa, se eu gosto  de você de pijama?”.

 

Preparou um copo de vodka com suco de pêssego. Já tinha tomado dois antes mesmo de terminar a maquiagem. Queria que o álcool anestesiasse suas emoções, apagasse suas expectativas. Deu uma última olhada no espelho e acreditou que a vodka estivesse fazendo efeito, estava linda.

Chegou à festa sozinha, como sempre. Sentiu-se um pouco tímida, mas logo encontrou o olhar de uma amiga querida e aproximou-se da roda.  Os colegas falavam alto e derrubavam cerveja. Meia- hora depois, recordou exatamente porque não tinha feito amigos na faculdade.  Cansava rapidamente de ouvi-los vangloriar-se de sua inteligência.  “Pseudo-intelectuais de merda”.

 

Procurou o balcão de bebidas, em busca de salvação.  Avistou uma garrafa de vodka perdida entre as caixas de cerveja.  Teve que misturar com guaraná, sem gelo. “É o que tem pra hoje”. O primeiro gole arranhou a garganta, causando repulsa. Insistiu no segundo gole e no quarto já descia macio.  Filou um cigarro.  Outro grupo de amigos discutia a queda de um ministro com fervor quase religioso. Depois de se ver no meio da discussão, que não fazia o menor sentido,  olhou ao redor, em busca de socorro. A amiga querida veio ao seu encontro.

– Viu quem tá aqui também?

– Quem?

– Nosso professor preferido.

Ninguém soube de seu relacionamento com Reynaldo. Além do tabu em torno de relações professores x alunos, ele era casado. E ela, na época, também namorava. Ana fingiu surpresa, como se a ideia dele estar ali nunca lhe tivesse passado pela cabeça. Ameaçou perguntar “onde”, mas não foi preciso. Ele estava parado em sua frente, de costas. Antes que pudesse se decidir entre cumprimentá-lo naquele minuto ou esperar um pouco mais, ele foi para o fundo da festa, sentou-se numa mesa de pseudo-intelectuais e permaneceu escondido ali pelas duas horas seguintes.

Já havia perdido as contas de quantas doses tinha tomado, quanto cigarros havia filado e estava prestes a entrar involuntariamente, mais uma vez, na discussão sobre a queda do ministro, quando sentiu uma mão lhe tocar as costas. Ao virar-se, ele já tinha se afastado. Ainda não haviam sequer cruzado um olhar. Dez anos de silêncio e agora aquilo. A indiferença doía demais.

Algumas pessoas começaram a ir embora e o clima mais intimista tornou impossível a missão de manter a distância. Então seus olhares se cruzaram, rapidamente, algumas vezes. Frações de segundos, insuficientes para enviar qualquer tipo de mensagem.  Após uma dessas trocas de olhares, Reynaldo se levantou de forma brusca, fez um aceno geral e partiu.  Sem pensar duas vezes, Ana virou o último copo, apagou o cigarro e levantou atrás dele.

– Ei. Espera!

Ele virou-se para trás, contrariado.

– Cara, você não vai nem falar comigo?

– O que você quer que eu diga?

– Pode começar me dizendo oi.

– Oi.

– Por que você não quer falar comigo?

– Porque eu não tenho nada para te falar.

– Mas eu tenho!

– Então diga.

A decisão da separação foi mútua. Ela não queria destruir o casamento dele. Ele não queria fazer ninguém sofrer. Decisão tomada, ensaiaram o adeus por algumas semanas, sempre voltando atrás. Até que ele desapareceu sem aviso prévio. Foi uma mudança brusca. E ela sofreu. Mais pelo costume do que por amor.. A ausência doía. E não havia nada de físico que pudesse fazê-la relembrar. Não existia uma foto, uma carta, um presente. Não tinham amigos em comum que pudessem dar notícias. Ele virou um fantasma em suas memórias. A distância lhe trouxe incertezas. E de tanto repetir a mesma meia dúzia de histórias, passou a duvidar que elas tivessem realmente acontecido.

– O que eu te fiz?

– Olha, não acho que seja a hora de conversar. Você bebeu.

–  E daí? Você também bebeu.

– Mas eu sei beber.

– Me responde.

– Ana, volta pra festa e me deixa ir embora.

– Você não tem o direito de ser tão frio comigo, porra.

– Eu não sei o que você quer de mim, sério.

– Eu preciso saber.

– Eu não vejo como esse papo vai te ajudar em alguma coisa.

– Quero entender como de uma hora para outra nos tornamos completos desconhecidos.

– Não foi de uma hora para outra.

– Foi. Você simplesmente nunca mais me atendeu ou respondeu meus emails. Nunca. – gritou

– Você tá alterada.

– Pare de me tratar como uma menina de 15 anos.

–Pare de se comportar como uma então.

– Só quero confirmar que eu não inventei tudo sozinha.

–Pra quê?

Nesse momento Ana se aproximou de Reynaldo, que permanecia de cabeça baixa.

– Eu preciso saber.

– Porra, Ana. Achei que depois de tanto tempo você tivesse começado a entender como funciona o mundo.

– Não tenho o menor interesse em saber como funciona o mundo, só quero saber como funciona a sua cabeça! Eu sei que você fez o que tinha que ser feito, Rey. Não sou idiota. Mas tanta indiferença… Não entendo. Juro.

Ele respirou fundo, como se buscasse fôlego para uma prova olímpica. Levantou a cabeça e a olhou de frente, pela primeira vez. Permaneceu assim por alguns instantes. Ela não conseguiu definir se aquele olhar era de impaciência, raiva, saudade ou medo. Talvez fosse uma mistura de todas essas coisas. Ou talvez esses fossem os sentimentos dela. Já não sabia mais dizer.

– Depois de se chegar aonde chegamos, tão fundo, não dá para voltar atrás. Não dá pra sermos cordiais, civilizados. É tudo ou nada.

– Não existe um meio termo?

– Não para nós. Porque sempre vai haver um momento em que um de nós dois vai estar carente ou de saco cheio. E nessa hora vai ser difícil não pensar no quanto a gente se encaixava um no outro, como a gente  entendia o que o outro queria dizer antes mesmo de dizê-lo.  Vamos imaginar se ainda seria tão gostoso enroscar minha perna na sua. E aí, fode tudo. De novo.

Ela não soube o que responder. Havia imaginado aquela conversa tantas vezes e em seus delírios ela nunca tinha ido por aquele caminho. Chegou a se imaginar batendo nele, com toda sua fúria. Ele pediria perdão por sua ausência injustificada e ela lhe daria às costas.  Conseguiria expurgar seus fantasmas, arrancar da memória aquelas lembranças incômodas. Mas não. Estavam ali, imóveis, com todos os seus fantasmas  e nada mais a dizer.

– Vou nessa. Vá para sua casa, que você bebeu demais.

Ela permaneceu calada. Ficou ali de pé, observando ele sair com o carro e desaparecer mais uma vez.


 

Mulher camaleão

10 jun

Eu já:

Plantei árvore

Plantei bananeira

Escrevi sobre corujas órfãos (e foi um sucesso)

Devolvi troco a mais

Cozinhei bêbada

Toquei o interfone de várias casas e saí correndo

Me vesti de índia, fada, noiva, enfermeira, dominator…

Fiquei 7 dias sem comer

Falei “eu te disse” pra muita gente

Me arrependi de ser a chata que fala “eu te disse”

Amei o New Kids on the Block

Cavalguei de olhos fechados e braços abertos

Brinquei em cemitério

Tomei vinho de quase mil reais

Visitei a Casa Branca e fiz xixi no banheiro que na época era do Bush filho

Fui atacada por um tarado que passou a mão na minha bunda e saiu correndo

Parei de ler livros na metade

Fui infeliz em Paris

Meditei por 4 horas em um mesmo dia

Fiz drama pra chamar a atenção

Ganhei a maior pipa do mundo

Fui peão de obra

Fui perseguida por um delegado que denunciei por tortura

Fui perseguida por um doido varrido porque escrevi sobre charutos

Vi vários corpos mortos no chão

Fugi de vários velórios porque a família queria me bater

Troquei um amigo pelo outro porque o outro era bem melhor que o amigo

Tive duas enteadas

Tive duas ovelhas: uma amarela e a outra laranja

Não escutei minha mãe

Provoquei homens

Virei professora

Salvei uma vaca da morte

Larguei tudo e mudei de país

Cantei em karaokê e ganhei nota 95

Mudei de profissão

Provei drogas

Não achei graça em drogas

Tive experiências transcendentais sem o uso de drogas

Ofendi muita gente

Pedi muita desculpa

Falei muito te amo

Guardei muitas palavras e me arrependi

Fiz ballet, jazz, joguei futebol.

Fui mega mal humorada pelas manhãs

Fui semi-assediada sexualmente pelo meu primeiro chefe (de acordo com a Fabi fui mega assediada! hehe)

Levei cantada de muitos chefes e não dei bola

Dei bola pra um chefe e acabei casada

Separei 

Troquei de roupa 15 vezes antes de sair de casa

Chupei halls pra ter hálito melhor

Comi bisnaguinha as 3 da manhã

Ensaiei conversas à toa

Lambi a tampinha do iogurte

Amei tanto minha família que doeu o coração

Amei tanto meus amigos que doeu o coração

Menti

Assumi responsabilidade

Dancei sozinha loucamente pela casa

Me preocupei demais à toa

Fui atrás do meu sonho

Tomei multa

Tomei bolo

Tomei um homem que não era meu

Cantei no chuveiro

Disse a verdade

Tive medo do novo

Mas ainda assim abri as asas e voei!

E você?

Social Media Free

9 jun

Há algum tempo venho sentindo vontade de me abster de alguma coisa. Não sei exatamente porque, talvez puro masoquismo, mas acredito que essas experiências de abstinência sempre nos ensinam alguma coisa. Já fiquei anos sem tomar refrigerante, sem comer carne vermelha, meses sem comer chocolate e fritura.  E outras coisas não relacionadas à alimentação.

Queria algo diferente. Pensei em ficar sem beber álcool. Mas depois que engravidei  ficar sem beber é quase natural,  não me faria tanta falta. Dessa vez quis deixar de fazer algo que amo e cuja abstenção não necessariamente vá me fazer bem.  Deixar de beber ( álcool ou refrigerante), comer doce só vai me fazer bem né?

Apesar do meu temperamento compulsivo eu nunca tinha realmente me viciado em nada, até agora. Fato já exposto aqui em outro post (https://tresnortes.wordpress.com/2011/05/11/how-much-is-too-much/ )  estou completamente viciada no Facebook e no Twitter. Não é nada que me faça mal, ao contrário, me diverte e  me distrai, já que passo 8 horas do dia sentada em frente ao computador trabalhando sozinha, em casa.

O vício é tamanho que não consegui me comprometer ( comigo mesma) a ficar 30 dias sem. Serão dez dias, a partir da meia-noite de hoje. Dez dias sem qualquer contato com mídias sociais. Só poderei compartilhar meus posts do blog no FB usando a ferramenta do próprio blog. Juro que estou ansiosa.

Wish me luck! Vou precisar!

Lista 2011: reinventando sua vida

3 jun

Eu sempre digo nas minhas aulas de Yoga (as matutinas) que toda manhã é um novo recomeço e nela podemos mudar absolutamente tudo na nossa vida. Existe uma moda de viola muito antiga, que é cantada pelo Almir Sater, que eu amo e diz: “Amanhecer é uma lição do Universo. Que nos ensina que é preciso renascer. O novo amanhece” (acho até que já escrevi isso aqui). Pra mim funciona como um mantra! E, já que estamos exatamente no mês 6 e pique da renovação, que tal refazer aquela lista do início do ano com as suas intenções e promessas de mudança?

No calendário Maia o ano novo começa apenas em Julho (dia 26 se não me engano), logo, mais um motivo para renovar seus votos de mudança, repensar, mudar o que for necessário e seguir em frente fazendo o melhor para levá-los adiante e alcançar seus objetivos. Tudo nessa vida começa com intenção! A intenção move a energia para que possamos alcançar o que queremos, logo, cuidado com o que vc deseje (e pensa). Só para complementar, Deepak Chopra sempre diz “Intenção tem poder organizador”!!  Divido aqui com vocês alguns dos quesitos da minha nova lista de intenções (não todos)!! Faça a sua e divida aqui com a gente! Beijo no coração e Namastê:

1)      Não checar meu e-mail e/ou Facebook antes de meditar pela manhã.

2)      Não comprar o pacote de cookie de chocolate com pedaços de chocolate branco do Publix (supermercado ao lado de casa) ou brownies com o frozen de vanilla toda vez que tiver ansiosa. Comer mais frutas e verduras.  

3)      Ler o máximo possível e anotar partes importantes dos livros.

4)      Não ter mini-surtos toda vez que algo novo acontecer na minha vida. Estar aberta para o novo!

5)      Escrever, ao menos, um post por semana para o blog.  = )

6)      Ajudar e servir ao menos uma pessoa todos os dias!

7)      Perdoar, entender e empatizar (essa palavra existe? se não existe acabei de inventar!) com todos aqueles que me ferem ou magoam. Saber que nada é pessoal.

8)      Trabalhar minha paciência e flexibilidade.

9)      Voltar sempre para o momento presente.

10)    Escutar meu coração.

11)    Desligar Internet e TV após 21h.

12)   Aceitar e confiar que tudo o que chega até mim é para o meu bem e para o meu aprendizado, sempre.

13)   Lembrar que nada nessa vida é para sempre.

14)   Agradecer, agradecer, agradecer.

PS: eu adorei a foto, pois é um amanhecer e o barco (pra mim) simboliza a humanidade… Estamos todos no mesmo barco, em busca das mesmas coisas, remando juntos!

Rolling in the Deep

1 jun

Se você AINDA não ouviu falar dela, ou ainda pior, não A ouviu, corra se atualizar no youtube.

Adele se tornou  quase uma unanimidade. E basta ouvir uma de suas músicas para entender o motivo.

Para mim, não é ” mais uma” britânica cantando soul music. É a salvação.  É melhor que Amy Winehouse ( provavelmente vai viver mais que ela, já que não está se destruindo com drogas e álcool)  e tem uma voz ainda mais poderosa que a de Joss Stone. Mas eu não entendo nada de música. Então ouça aí e me fale o que achou.

Enjoy the music!

“As soon as I got a microphone in my hand, when I was about 14, I realised I wanted to do this”  –  Adele

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