Incômodo

14 jun

Depois de dez anos, a antiga turma da faculdade decidiu fazer um encontro. O primeiro desde que ela havia se formado.  Ao receber o convite, surpreendeu-se pensando nele, imaginando se ele estaria lá.  Na década que separava a formatura daquele convite, conviveu pouco com os colegas da faculdade. E ele, seu professor e  amante, desapareceu por completo.

O dia da reunião chegou e ela se preparou psicologicamente para não pensar nele. Travou uma luta intensa com seus demônios internos. Ainda assim, enquanto escolhia a roupa que ia vestir, um pequeno pensamento escapou de seu controle e ela se viu sorrindo, ao lembrar dele dizendo  “ Por que você se preocupa com a roupa, se eu gosto  de você de pijama?”.

 

Preparou um copo de vodka com suco de pêssego. Já tinha tomado dois antes mesmo de terminar a maquiagem. Queria que o álcool anestesiasse suas emoções, apagasse suas expectativas. Deu uma última olhada no espelho e acreditou que a vodka estivesse fazendo efeito, estava linda.

Chegou à festa sozinha, como sempre. Sentiu-se um pouco tímida, mas logo encontrou o olhar de uma amiga querida e aproximou-se da roda.  Os colegas falavam alto e derrubavam cerveja. Meia- hora depois, recordou exatamente porque não tinha feito amigos na faculdade.  Cansava rapidamente de ouvi-los vangloriar-se de sua inteligência.  “Pseudo-intelectuais de merda”.

 

Procurou o balcão de bebidas, em busca de salvação.  Avistou uma garrafa de vodka perdida entre as caixas de cerveja.  Teve que misturar com guaraná, sem gelo. “É o que tem pra hoje”. O primeiro gole arranhou a garganta, causando repulsa. Insistiu no segundo gole e no quarto já descia macio.  Filou um cigarro.  Outro grupo de amigos discutia a queda de um ministro com fervor quase religioso. Depois de se ver no meio da discussão, que não fazia o menor sentido,  olhou ao redor, em busca de socorro. A amiga querida veio ao seu encontro.

– Viu quem tá aqui também?

– Quem?

– Nosso professor preferido.

Ninguém soube de seu relacionamento com Reynaldo. Além do tabu em torno de relações professores x alunos, ele era casado. E ela, na época, também namorava. Ana fingiu surpresa, como se a ideia dele estar ali nunca lhe tivesse passado pela cabeça. Ameaçou perguntar “onde”, mas não foi preciso. Ele estava parado em sua frente, de costas. Antes que pudesse se decidir entre cumprimentá-lo naquele minuto ou esperar um pouco mais, ele foi para o fundo da festa, sentou-se numa mesa de pseudo-intelectuais e permaneceu escondido ali pelas duas horas seguintes.

Já havia perdido as contas de quantas doses tinha tomado, quanto cigarros havia filado e estava prestes a entrar involuntariamente, mais uma vez, na discussão sobre a queda do ministro, quando sentiu uma mão lhe tocar as costas. Ao virar-se, ele já tinha se afastado. Ainda não haviam sequer cruzado um olhar. Dez anos de silêncio e agora aquilo. A indiferença doía demais.

Algumas pessoas começaram a ir embora e o clima mais intimista tornou impossível a missão de manter a distância. Então seus olhares se cruzaram, rapidamente, algumas vezes. Frações de segundos, insuficientes para enviar qualquer tipo de mensagem.  Após uma dessas trocas de olhares, Reynaldo se levantou de forma brusca, fez um aceno geral e partiu.  Sem pensar duas vezes, Ana virou o último copo, apagou o cigarro e levantou atrás dele.

– Ei. Espera!

Ele virou-se para trás, contrariado.

– Cara, você não vai nem falar comigo?

– O que você quer que eu diga?

– Pode começar me dizendo oi.

– Oi.

– Por que você não quer falar comigo?

– Porque eu não tenho nada para te falar.

– Mas eu tenho!

– Então diga.

A decisão da separação foi mútua. Ela não queria destruir o casamento dele. Ele não queria fazer ninguém sofrer. Decisão tomada, ensaiaram o adeus por algumas semanas, sempre voltando atrás. Até que ele desapareceu sem aviso prévio. Foi uma mudança brusca. E ela sofreu. Mais pelo costume do que por amor.. A ausência doía. E não havia nada de físico que pudesse fazê-la relembrar. Não existia uma foto, uma carta, um presente. Não tinham amigos em comum que pudessem dar notícias. Ele virou um fantasma em suas memórias. A distância lhe trouxe incertezas. E de tanto repetir a mesma meia dúzia de histórias, passou a duvidar que elas tivessem realmente acontecido.

– O que eu te fiz?

– Olha, não acho que seja a hora de conversar. Você bebeu.

–  E daí? Você também bebeu.

– Mas eu sei beber.

– Me responde.

– Ana, volta pra festa e me deixa ir embora.

– Você não tem o direito de ser tão frio comigo, porra.

– Eu não sei o que você quer de mim, sério.

– Eu preciso saber.

– Eu não vejo como esse papo vai te ajudar em alguma coisa.

– Quero entender como de uma hora para outra nos tornamos completos desconhecidos.

– Não foi de uma hora para outra.

– Foi. Você simplesmente nunca mais me atendeu ou respondeu meus emails. Nunca. – gritou

– Você tá alterada.

– Pare de me tratar como uma menina de 15 anos.

–Pare de se comportar como uma então.

– Só quero confirmar que eu não inventei tudo sozinha.

–Pra quê?

Nesse momento Ana se aproximou de Reynaldo, que permanecia de cabeça baixa.

– Eu preciso saber.

– Porra, Ana. Achei que depois de tanto tempo você tivesse começado a entender como funciona o mundo.

– Não tenho o menor interesse em saber como funciona o mundo, só quero saber como funciona a sua cabeça! Eu sei que você fez o que tinha que ser feito, Rey. Não sou idiota. Mas tanta indiferença… Não entendo. Juro.

Ele respirou fundo, como se buscasse fôlego para uma prova olímpica. Levantou a cabeça e a olhou de frente, pela primeira vez. Permaneceu assim por alguns instantes. Ela não conseguiu definir se aquele olhar era de impaciência, raiva, saudade ou medo. Talvez fosse uma mistura de todas essas coisas. Ou talvez esses fossem os sentimentos dela. Já não sabia mais dizer.

– Depois de se chegar aonde chegamos, tão fundo, não dá para voltar atrás. Não dá pra sermos cordiais, civilizados. É tudo ou nada.

– Não existe um meio termo?

– Não para nós. Porque sempre vai haver um momento em que um de nós dois vai estar carente ou de saco cheio. E nessa hora vai ser difícil não pensar no quanto a gente se encaixava um no outro, como a gente  entendia o que o outro queria dizer antes mesmo de dizê-lo.  Vamos imaginar se ainda seria tão gostoso enroscar minha perna na sua. E aí, fode tudo. De novo.

Ela não soube o que responder. Havia imaginado aquela conversa tantas vezes e em seus delírios ela nunca tinha ido por aquele caminho. Chegou a se imaginar batendo nele, com toda sua fúria. Ele pediria perdão por sua ausência injustificada e ela lhe daria às costas.  Conseguiria expurgar seus fantasmas, arrancar da memória aquelas lembranças incômodas. Mas não. Estavam ali, imóveis, com todos os seus fantasmas  e nada mais a dizer.

– Vou nessa. Vá para sua casa, que você bebeu demais.

Ela permaneceu calada. Ficou ali de pé, observando ele sair com o carro e desaparecer mais uma vez.


 

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5 Respostas to “Incômodo”

  1. Solange 14 de junho de 2011 às 10:18 pm #

    Gostei muito do texto e da forma como você construiu os dialogos.

  2. Bruna Kalil 15 de junho de 2011 às 3:42 pm #

    Nossa, Fabi, adoro suas crônicas! Beijão

  3. Roberta Barbosa 16 de junho de 2011 às 9:18 pm #

    Fa, so pra variar… gostei muito! Beijo.

  4. Monique 22 de junho de 2011 às 8:48 pm #

    Nossa, gostei muito do texto, como é difícil dizer não, dar um basta. Para ambos na verdade, mas talvez mais para as mulheres, ás vezes me pergunto na verdade do que sentimos realmente falta, do amor ou da presença mesmo da pessoa.

  5. Fabi Marques 22 de junho de 2011 às 10:32 pm #

    Obrigada gente!!

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