Delicada, só que ao contrário

29 jun

Estudei a vida inteira com uma amiga chamada Maria Fernanda. Ela sempre foi a menina mais meiga, delicada e jeitosa da classe.   O exato oposto de mim. Inúmeras  vezes me peguei sonhando em ser como ela, tão dócil.

Mas não. Fui daquelas meninas que voltavam da escola com as canelas roxas e os joelhos ralados.  Aos 4 anos já tentava esconder os machucados do meu pai.  Ao invés de me encher de beijinhos, ele me dava muita bronca. Psicologia reversa.

Hoje entendo meu pai. Devia dar nos nervos dele ver a “princesinha” tão estabanada. O fato é que sempre fui meio desastrada. De bater nas quinas das mesas sem perceber, tropeçar até de chinelo, topar com a cabeça em tudo quanto é prateleira.

Pior. Sou distraída e estabanada. Uma combinação quase fatal.  Na adolescência eu arrebentava em média uma sandália por fim de semana. Salto agulha? Jamais. Não sei andar nisso até hoje. Eu consigo torcer o pé andando tranquilamente de chinelo, tênis e até mesmo descalça.  Ou seja, os saltos altos e finos são mantidos a segura distância de mim, assim como as facas dos suicidas.

Aos onze anos, brincando na casa de praia dos meus padrinhos, pulei um portão e até hoje não sei como, mas bati o nariz com tal força que o quebrei ( ou algo que o valha, pois surgiu um calo ósseo). Não satisfeita, dali um mês me deixei acertar por um rodinho ( não me perguntem como !) o que acabou com meu nariz de vez.

Estou tão acostumada a torcer o pé e quase cair no meio da rua (ou onde quer que seja) que criei  uma estratégia para não afundar de vergonha nessas situações. Eu me levanto com cara de dor ( na maior parte das vezes não me machuco, é puro desajeito), coloco as mãos no tornozelo, respiro fundo como se quisesse recobrar o fôlego e saio mancando. As pessoas se sensibilizam o suficiente para deixar de rir, mas não a ponto de me prestar socorro. É perfeito!

Uma noite, em Barcelona, estava chegando na balada com meus amigos e, do  NADA, meu joelho dobrou e eu despenquei 3 lances de escada. Formou-se um círculo de pessoas à minha volta, falando catalão. Fingi uma tontura para tentar disfarçar. Quando entendi que estavam pensando em chamar uma ambulância ( catalão é uma mistura de francês , espanhol e português dificílima de compreender), levantei num pulo e saí. Nessa hora desejei ser a Maria Fernanda mais do que nunca.

Dois dias depois, nessa mesma viagem, estava me despedindo de um mocinho, andando de costas, cheia de charme pelas Ramblas. Quando finalmente virei de frente, dei com a cara em uma árvore centenária e caí com tudo para trás. Lógico que o cara viu e correu pra me socorrer. Nem preciso dizer que nunca mais fiquei com ele, né?

Trabalhando eu também sou perigosa. Certa vez ao sair de uma entrevista, com a mesma pressa injustificada de sempre, trombei com um vaso de cactus gigante e me enchi de espinhos nas mãos e nos braços. Precisei até tomar vacina antitetânica.

Esse aqui acabei de lembrar e estou incluindo neste post um dia depois de tê-lo publicado. Fui ao circo com meu marido e uma turma de amigos. O circo foi montado numa casa de eventos, era comemoração dos 100 anos de uma faculdade. Enfim, chegamos atrasados, tudo escuro e a apresentação já rolando. Achei uma cadeira vazia e sentei. A cadeira estava em cima de uma palanque, era tipo um camarotezinho. Eu não tinha visto que estava tão próxima da beirada ( nem tinha percebido a diferença de altura pra ser sincera) e ao sentar com toda minha delicadeza e jeito,  despencamos, cadeira e eu, para o andar de baixo. O circo meio que parou pra me socorrer e dessa vez  doeu bastante. Passei o restante da apresentação sorrindo amarelo para todo mundo que gargalhava só de olhar para minha cara e lembrar.

Mas acho que a pior das histórias aconteceu quando eu estava grávida de nove meses, explodindo. Fui abrir uma garrafinha plástica de água e emperrou ( sempre acontece isso comigo). Então saquei uma faca afiada da gaveta e usei-a para cortar o plasticozinho. Jeitosa, escorreguei a mão e furei o meu dedo, rompendo o seu tendão e indo parar no hospital para uma microcirurgia. Dali uma semana fiz um parto normal com a mão enfaixada.

Por essas e outras, acho que Deus sabia o que estava fazendo quando me mandou um filho homem.  Assim ele não sofre com meu jeitinho na hora de tirar a sua roupa ( sempre fica com a cabeça presa na camiseta, quase sufocado, tadinho), nem com minha falta de delicadeza na hora de fazer carinho,  dar banho e todas as outras coisas.  Meus carinhos estão mais para apertões, mordidas e tapinhas carinhosos do que afagos delicados.

O fato é que já desisti de ser como a minha colega de classe.  Não faço o estilo mulherzinha-flor. O que não me torna melhor ou pior do que ninguém. No máximo mais engraçada e com as pernas mais roxas. E arrisco dizer que esse desajeito é parte do meu charme. Pelo menos meu pai nunca mais brigou comigo.  Até o próximo tombo!

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8 Respostas to “Delicada, só que ao contrário”

  1. pin 29 de junho de 2011 às 6:34 pm #

    hahahaha, adorei, Fá, estou aqui rindo sozinha… e sabe que eu tttbbb teeenhooo um calo ósseo no nariz, que “ganhei” brincando no elevador, q blz! isso p q nem sou tão estabanada quanto vc, figurinha!
    beeeijo!

  2. SILVINHA 29 de junho de 2011 às 9:12 pm #

    HAHAHAHAHAHAHA FAAAAAAABI, ESSA FOI DEMAIS!!!!!! SUPER ME IDENTIFIQUEI!!!! LOVE UUUUU

  3. Roberta Barbosa 1 de julho de 2011 às 1:15 am #

    Divertidissimo!!!! E especialmente sincero! Bj.

  4. Marilza 5 de agosto de 2011 às 12:30 pm #

    Querida afilhada…você puxou para a madrinha…em casa costumam me chamar de “jeitosinha”…
    Saudades suas!

  5. tati 29 de junho de 2016 às 11:44 pm #

    Fa vc me fez rir rios aqui… e me fez lembrar do seu tombo na papelaria. .. vc estava me explicando como fazer com o espanador e pronto caiu, era meu 1°dia e eu não pudi rir kkkkkk hj desmontei. … Saudades super bjos te admiro muito!

    • Fabi Marques 30 de junho de 2016 às 9:06 am #

      ahhahaha tati, ta vendo, mais um tombo pra minha coleção! Beijos e saudade!

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