Arquivo | agosto, 2011

Meditação Montanha Russa: dias 7 e 8

26 ago

Querido Leitor! Os dois próximos dias mostram quão paradoxal foi minha experiência. Assim como eu, a maioria dos que vão aos 10 dias de Meditação Vipassana relatam ter vivido e sentido absolutamente todo o leque de emoções, sentimentos e sensações, das mais agradáveis e transcendentais até as mais desagradáveis e mundanas. Uma espécie de montanha russa mental e espiritual. É intenso, e maravilhoso. Boa leitura e obrigada por seguir acompanhando.

Dia 7 – Minha missa de sétimo dia

O sétimo dia foi marcado pela minha própria missa de sétimo dia. Calma, calma, uso a imagem/analogia para explicar como me senti e o que aconteceu. Nos 7 dias anteriores uma grande parte de mim estava em processo ativo de morte, putrefação… O estresse estava sendo eliminado, a necessidade de controlar tudo se dissolvia, o medo era diluído no ar, o diálogo mental intenso se tornava cada vez menor, mais silencioso. Uma outra Lívia renascia, pois a minha visão de mundo e a visão sobre quem eu era se desintegrava mais a cada dia. Não tinha volta: o cadáver estava ali. Era hora de renascer. O renascimento veio com o silêncio: nesse dia fiquei muda o dia todo. Sim, eu – Lívia, a pessoa falante – calei.

Se você está assustada (o) com a possibilidade de matar parte de você, não tema! Suas principais características “positivas” e “negativas” (não existe certo ou errado, lembra??) permanecerão com você, só que você saberá que ambas são passageiras e poderá lidar bem melhor com elas. Por exemplo, eu segui me emocionando e tendo profunda empatia pelo sofrimento do(s) outro(s). Nesse dia, chorei pela mãe de uma grande amiga minha que está lutando contra o câncer faz um ano. Dessa vez ela foi para a mesa de cirurgia (enquanto eu estava prisioneira) e foi impossível não me emocionar ao lembrar o medo e a dor que toda a família devia estar passando.

Não só eu, como a maioria das minhas companheiras “prisioneiras” pareciam estar nesse estado de renascimento. A energia era muito mais harmoniosa. Todas começaram a ajudar na limpeza do Bangu, de forma orquestrada até. Eu segui fazendo minhas caminhadas até o último dia, mas elas eram mais leves, os passos muito mais conscientes, eu sentia a brisa tocar meu corpo, sentia meus músculos e ossos movendo-se, observava cada detalhe da trilha. Eu era uma com a trilha.

No sétimo dia também consegui burlar a regra do retiro (ok, ok, não sou perfeita, mas não atrapalhei ninguém, juro…) e fiz cerca de 15 minutos de yoga no meu quartinho apertado, no momento em que minha roomate estava fora. A experiência foi única. Senti a energia percorrer meu corpo tão claramente. Era mais uma prova (pra mim, que fui cética por muitos anos) que somos muito mais do que matéria. Como nunca antes, eu vivi e fui a descrição exata de Yoga – união entre corpo, mente e espírito. Nesse dia meu coração estava quieto. Equanimidade era meu sinônimo e eu era grata por isso.

A meditação foi bem mais fácil. Eu conseguia me concentrar em cada parte do corpo “pedaço por pedaço, parte por parte” como dizia o Goenka. O tempo livre passou a não apresentar mais grandes pensamentos ligados ao desejo. Eu estava agora, (na verdade comecei desde o quinto dia) mais concentrada em relembrar livros espirituais, a história de grandes gurus e personagens. Me peguei (não pela primeira vez) comparando Jesus e Buda. Pensei como eles podiam ser tão diferentes: Jesus pregava o amor como resposta para tudo e que Deus era nosso pai e um conosco. Buda não falava em Deus “nem a pau Juvenal” e dizia que a eliminação do desejo e a aceitação total da realidade eram as resposta para tudo. Achei um muito distante do outro, mas segui filosofando sobre o assunto e até perguntei sobre Buda e Deus em uma das conversas com meu professor, que me confirmou que Buda nunca falou em Deus e pra ele só existia a real natureza das coisas, da vida… Mais sobre o assunto virá no próximo post!

Ah! Esse dia também foi fantástico porque comecei a materializar comida!!! No dia anterior eu pensei, (pela milésima vez): “Poxa vida, eles bem que podiam fazer uma sobremesa básica vai… Nem precisa ser junk food, pode ser uma brownie vegan sem açúcar, sem leite…”. Mas logo deixei a idéia de lado e voltei ao contentamento do momento presente. Caros amigos, ao chegar no refeitório, lá estavam elas: brownies deliciosamente vegans, feitas de chocolate meio amargo e sem adição de leite ou manteiga. É a prova para o que falo: joga a intenção para o Universo e se desapega de recebê-la: na hora certa ela vem!! Não me contive: escrevi um bilhete no guardanapo de papel dizendo “Obrigada. Sobremesa delícia” e joguei por baixo da porta que dava para a cozinha. O agradecimento era não só para os cozinheiros, mas também para o Universo que escutou minhas “preces”!!

Dia 8 – Ócio criativo o caramba

O dia 8 começou como todos os outros 7 dias anteriores. Dessa vez eu consegui acordar às 4:30 e segui com a minha meditação. Bom, eu tentei seguir né… O dia foi caminhando e eu vi um sentimento que foi sempre meu companheiro (mas que nunca consegui definir tão claramente e acho que raras vezes eu o reconheci ao meu lado) crescendo e crescendo e crescendo: o tédio. Sim, porque para, aos 31 anos, eu já ter morado em 7 cidades, e estar mudando de profissão pela terceira vez o tédio tem de fazer parte da mistura de razões pela qual isso tudo acontece na minha vida… Não a principal, mas ele está lá. Pronto, a equanimidade de ontem foi pro ralo…

Mas gente, pensa comigo, todo dia a mesma rotina, todo o dia as mesmas pessoas, todo dia o mesmo tudo… !!! A mente voltou para comida: “Ahhhh, tudo o que vou comer assim que pisar em Miami”, ela pensava. Música foi outro escape usado pela minha criativa mente e eu acabei criando o slogan “Lívia FM: tocando tudo aquilo que toca você”. Teve de tudo, Maddonna, mantras, mas, principalmente, aquelas músicas de rádio que o refrão gruda na mente e não sai por nada…. Tipo, em um momento Black Eye Peas: “I got a feeling… Uhuuuuu”.  Observei tudo acontecendo, mas não consegui não me identificar com o tédio perverso.

Na hora do chá da tarde foi o limite: quase gritei: “Não aguento mais comer banana, maça e laranja todos os dias”. Eu estava muuuito indignada. E olha que eu ficava praticamente junto da porta de entrada perto da hora em que o sino tocava e nos permitia entrar no refeitório, só pra garantir que eu pegaria uma banana, pois não eram muitas na cesta não! Um absurdo! Eu me imaginava indo no Publix (supermercado perto de casa) e tendo a seguinte conversa com as frutas: “Uvas, cerejas, abacaxi, mamão, melão, peras, mangas, vocês todas virão comigo para casa”. “Agora vocês bananas, maças e laranjas vão apodrecer aí se depender de mim. Vocês não vão não!! Hahahahaha!!” – essa parte eu me imaginava com certa expressão maligna no rosto.

Também dei mais uma checada básica nos moçoilos do outro lado da sala. “Hum, o indiano gato segue lá…”. Chegou a noite e decidi falar com o professor depois da última meditação, às 21h, porque não dava mais… Lá fui eu. Sentei sorridente e soltei: “Olha, na verdade está indo tudo muito bem. A meditação está ótima, eu consigo sentir as sensações, mas, pra ser sincera, está tudo muito igual e eu estou sentindo um tremendo tédio”. Pronto, falei!

O professor, como sempre, dá o sorriso mais puro do ano e solta a terceiro tapa com luva de pelica dos meus 10 dias (que, na verdade, eu sabia que viria): “O tédio é uma impureza, como todas as outras da mente. E ele deixa claro que não estamos satisfeitos com a realidade, não estamos aceitando ela. O que é exatamente o oposto do que estamos aprendendo aqui”. Splash! Esse doeu! Mas acendeu aquela lâmpada em cima da cabeça (que nem em gibi, quando o personagem tem um ótimo insight): sim, sim, muito das minhas mudanças de vida e dos meus pensamentos obsessivos em comida vem do meu tédio. Ambas as coisas vem pra mudar minha realidade e me dar algo de novo, de diferente, pra minha mente se distrair. Tremenda Impureza meus caros!!!! Talvez, entre as minhas, seja uma das maiores.

E não somos todos assim? Fumamos pra lidar com a ansiedade ou com o tédio, bebemos pra lidar com a ansiedade social ou com o tédio, usamos drogas pra lidar com a ansiedade ou com o tédio, vamos ao shopping comprar coisas inúteis pra lidar com a ansiedade ou tédio, e por aí vai… Observe seus vícios e quando eles aparecem. Observe como eles tomam conta de você… Sem julgamentos, apenas observe e comece a tornar-se consciente do que os ativa e tente arrumar outras ferramentas, menos prejudiciais, pra lidar com suas ansiedades, medos e tédio!!! O dia oito foi um marco na minha vida. Uma das maiores lições que já tive! Espero que te ajude também! Pois é melhor aprender pelo conhecimento ou pela observação do que pela dor! Beijo no coração e Namastê!

Anúncios

Vale a Pena Ver de Novo – Os 10 filmes mais “ reassistíveis”

22 ago

Existem alguns filmes que – independente de quantas vezes eu já tiver visto – se estiverem passando na televisão, acabo  vendo novamente.  Não são necessariamente os melhores filmes da minha vida, mas algo neles me desperta um desejo irresistível de sentar em frente à telinha e assistir tudo de novo. E mesmo com a eliminação do efeito-surpresa, ainda é possível me divertir e emocionar com cenas  que posso recitar os diálogos de memória.

Preparei aqui uma listinha com os dez filmes mais reassistíveis ( sim, neologismo) na minha humilde opinião. Alguns são obras-primas do cinema, outros nem tanto. A Julia Roberts e o Steven Spielberg estão em três deles. Tem desde sessão da tarde a filme de terror dos anos 80.  Fazer essa lista foi bem mais difícil do que eu imaginava. Estavam no páreo filmes como Ghost, O Poderoso Chefão, Forrest Gump, O Amor Não Tira Férias e Curtindo a Vida Adoidado.  Para conseguir definir exatamente quem merecia fazer parte desse Top Ten estabeleci como critério o fator atratividade 100%, ou seja: são os dez filmes que eu realmente não conseguiria deixar de rever caso estivessem passando em algum canal.

Divirtam-se.

Garota Rosa- Shocking ( Pretty in Pink) – clássico das sessões da tarde. O filme de 1986 conta a história de amor entre a pobretona (Andy Walsh)– que só usa Pink –  e o riquinho ( Andrew McCarthy). Destaque para os figurinos, o atrapalhado e apaixonado Duckie ( interpretado por Jonh Cryer , o Alan de Two and a Half Man)  Nunca mais vi a atriz principal. Por onde será que ela anda?  Roteiro de John Hughes.

Uma Linda Mulher ( Pretty Woman) –  a história da Cinderela moderna. Dispensa apresentações né? Lançou Julia Roberts ao estrelato e colocou Richard Gear no imaginário das mulheres.  Assisti  umas  dez vezes e não me canso de ver a Julia Roberts arrasando naquele vestido vermelho ou voltando cheia de sacolas para esfregar na cara da vendedora que a tratou mal. Querem cair duros? O filme já tem 21 anos! Direção de  Garry Marshall.

Os Goonies  ( The Goonies) – mais um campeão das sessões da tarde. O filme de Steven Spielberg é uma aventura de adolescentes que buscam um tesouro de piratas para salvar a família de um amigo que está falindo.  Destaques para o Slot ( irmão deformado  e comedor de chocolate, que acabou virando meu apelido por conta de uma alergia no olho que me deixava assim, meio Slot né Livia?), o gordinho que não consegue parar de comer nunca e as invenções do japinha. Ah e a cena do beijo entre Mikey (Sean Astin) e a namorada do irmão também é bem inesquecível. Tem livro, que eu comprei e li algumas vezes . O único do elenco que me lembro de ter visto depois foi o intérprete de Mikey, que está em Senhor do Anéis como Sam, um dos melhores amigos do hobbit Frodo.

Closer – Perto Demais  (Closer)  –  Para mim um dos melhores filmes sobre relacionamentos da história do cinema americano. Adoro cada diálogo, cada olhar, cada música. Elenco de peso: Julia Roberts, Jude “Lindo” Law, Natalie Portman e Clive Owen.   Preciso dizer mais alguma coisa? Direção de  Mike Nichols e aquela música linda que grudou na cabeça de 100% dos expectadores ( The blower´s daughter) e foi regravada por Seu Jorge e Ana Carolina.

Poltergeist – Melhor filme de terror de todos os tempos. Quem não se lembra da loirinha hipnotizada pela estática da tevê? E quem não teve, pelo menos por um dia, pânico  de palhaços ? Faz bastante tempo que não assisto e imagino que os efeitos especiais devem parecer toscos perto do que há hoje, mas ainda assim é um filme que vai me fazer prender a respiração, principalmente na cena das cadeiras que se mexem sozinhas. Saudade do cinema dessa época! Mais um filme de Steven Spielberg, que dessa vez assinou o roteiro e a produção.

… E o vento levou ( Gone with the wind) – o filme de 1939 foi o predileto na minha infância e pré-adolescência. Faz no mínimo uma década que não vejo, mas tenhocerteza que se ele estivesse disponível em algum canal eu veria de novo, por mais longo que ele seja. E olha, ele é looongo. Clark Gable e  Vivian “ Scarlet O´hara” Leigh formam um dos casais mais charmosos da história. E o fato deles não ficarem juntos no final torna o filme ainda mais inesquecível.

Um Lugar Chamado Notting Hill (Notting Hill )– Ao fazer essa lista me dei conta do quanto gosto da Julia Roberts e nem sabia. Pois então; adoro essa comédia romântica com toda minha força. Hugh Grant está ( é) um charme como o cara que se apaixona pela estrela de cinema. Destaque para o flatmate dele, uma das personagens mais engraçadas ever, interpretado por   Rhys Ifans .  Cena favorita? Julia chorando ao dizer: I After all… I’m just a girl, standing in front of a boy, asking him to love her.  Direção de Roger Mitchell, o mesmo de Quatro Casamentos e Um Funeral

Clube da Luta (Fight Club) – O filme de David Fincher , pela lógica, não deveria fazer parte de uma lista dos filmes mais “ reassistíveis”, já que o elemento surpresa , para muitos, é justamente a graça do longa. Claro que o impacto da primeira vez é inesquecível, mas o filme é bom demais para se ver uma vez só. Até mesmo para você entender melhor a surpresa do final. Para variar Edward Norton arrasa,  Brad Pitt também manda bem como Tyler Durden  e a esquisita Helena Bonham-Carter  interpreta um papel que cai como uma luva em sua esquisitice.  Os diálogos são memoráveis: “The first rule of Fight Club is: You do not talk about Fight Club”.

ET – o extra-terrestre– Primeiro filme a ultrapassar a marca 700 milhões de dólares, o blockbuster de Steven Spielberg merece todo crédito. Você só não assistiu se estiver morto ( ou se tiver menos de 12 anos, talvez). Minha cena predileta é do E.T. ficando breaco e Elliot tendo todos os sintomas à distância. História de amizade fofa. Pra quem não sabe, a meninha lorinha do filme é Drew Barrymore, que depois do sucesso do filme ficou viciada em cocaína e álcool e blá blá blá, mas se recuperou alguns anos depois e hoje tá aí fazendo todas as comédia românticas do mundo.

Lendas da Paixão ( Legends of the Fall) – Meu irmão trouxe a fita VHS quando fez intercâmbio nos EUA. Eu acho que decorei cada fala entre a personagem de Julia Ormond e Brad Pitt. E sou capaz de chorar de novo em seu reencontro na prisão. A história de três irmãos que se apaixonam pela mesma mulher numa época de guerra. Cena favorita: Tristan ( Pitt) volta da guerra e passa pela casa onde agora Suzana mora, casada com seu irmão. Observação importante: O Brad Pitt tá bem gato. Só perde para ele mesmo, em Tróia.

PS- Sempre que faço estes posts mega elaborados e trabalhosos ninguém lê. Mas tudo bem, sou brasileira e não desisto nunca.

Vipassana versão masculina

19 ago

Queridos leitores,

A vida nem sempre segue como esperamos. Estou com muitas novidades acontecendo e uma vida, graças a Deus, agitada, logo, escreverei sobre os dias 7 e 8 semana que vem. Até lá, deixo-os com um blog FANTÁSTICO do Sebastian que, assim como eu, foi para um retiro Vipassana, só que na Espanha.  O bacana é ter o relato masculino da experiência. Eu adorei ler e espero que vocês também gostem. É sempre bom ter mais do que uma só perspectiva sobre algo e a versão dele traz muito conhecimento budista e das aulas do Goenka que eu não escrevi… Também mostra como tivemos experiências semelhantes. E, se eu gostei, é porque é hilário demais! Muito legal!

http://sebastianvalle.wordpress.com/2008/07/28/curso-de-vipassana-dia-00/

Passem por lá e curtam o relato dele.

Beijo no coração de cada um e Namastê

“Sex and the Meditation” e “O inferno são os outros” – Dias 5 e 6

10 ago

Antes de começar esse post gostaria de dar um aviso aos meus queridos pais, caso eles resolvam lê-lo: por favor, leiam sentados e lembrando-se, sempre, que eu tenho 31 anos e, para a infelicidade de vocês, não sou mais aquela menininha magricela (quem me dera), de aparelho nos dentes, que espalhava suas Barbies na varanda todo final de semana pra brincar de casinha.

 Dia 5 – Meu dia de Samantha ou Sex and the City é refresco

O quinto dia chegou e eu seguia impressionada com a capacidade de sentir sensações por todo o corpo. Eram muitas, de dores profundas (falarei sobre elas em outros post) até o fluir livre e gostoso (eu sei, eu sei, eu não deveria estar julgando as sensações, mas, ei, era só o quinto dia vai…) de energia pelo corpo. Bom, foi em um desses fluidos que minha mente encontrou o seu tema do dia: homens, ou, melhor dizendo, sexo! Seria meio impossível não pensar em sexo já que eu estava analisando cada pedacinho do meu corpo, mas, minha gente, a coisa foi braba e lutei bastante pra me concentrar e seguir meditando. Bravamente consegui, mas claro que com interrupções aqui e acolá pra dar uma pensadinha no tão prazeroso tema.

Começou com pensamentos sobre meus ex-namorados, meu ex-marido, memórias boas de momentos bons. Lembranças de beijos, abraços… e, aos poucos, o negócio foi pegando fogo mesmo! Passou pra agarração total e daí pra cama foi um pulo! Eu lembrava/imaginava como era bom namorar. Como era bom tocar, beijar… Como era bom dividir a energia e a sintonia quando duas pessoas estão apaixonadas. Evitar lembranças sensuais ou sexuais tornou-se um desafio. Chegou um momento em que me deixei, por cerca de 10 minutos, levar pela minha louca mente e logo observei que as imagens nem tinham mais nome ou rosto… o apego da minha mente era tanto que ela projetava desejo por sexo e homem como um todo, sem ter de ser especificamente a lembrança de alguém, ou uma celebridade, etc. Era puro desejo carnal. Coisa de animal irracional mesmo! Muito doido.

Claro que foi nesse dia que parei, pela primeira vez, pra dar uma checada báaaaasica nos cerca de 15 bravos companheiros de jornada que ficavam do outro lado da sala, em uma distância significativa, mas que me possibilitava fazer a “seleção natural” baseada nos meus critérios carnais (bem duvidosos, dica-se de passagem). Muitos eram mais velhos, mas, para a alegria da minha mente, amostras entre as idades de 25 a 35 estavam disponíveis. Me encantei por um indiano (acho que era indiano), alto, forte na medida certa, e de traços masculinos bem fortes, o que prova que, se seguimos apenas nosso instinto selvagem, vamos atrás do tal macho alfa mesmo. Um loirinho, típico americano (que geralmente não faz meu tipo), também me pareceu bem interessante, até porque sempre alongava os ombros e a coluna e eu, nesse dia caras (o) leitoras (os), estava com um diploma de massagista prontinho pra botar em prática na minha imaginação. 

Mas entre feridos e feridos todos se salvaram! Eu consegui administrar meus impulsos. Não, eu não ataquei ninguém nas trilhas com mata fechada do retiro, nem tomei nenhuma atitude para “aliviar” a situação. Consegui ver claramente que meu desejo por prazer era mais uma impureza, mais uma maneira que minha mente arrumou pra me tirar da minha jornada em busca do auto-conhecimento, em busca da tal equanimidade! A mente é viciada em drama, paixão e luxuria minha gente e, assim como vilã da novela das 8 da Globo, ela faz de tudo pra te vencer. Mas a meditação te ensina a aceitar o que quer que surja dentro de você, observar e não julgar! Foi isso que fiz. Apesar de ainda julgar que o indiano era gato com força… ai ai…

O quinto dia também foi o início de um estudo que chamo de “Projeto rato de laboratório Lívia”. Decidi no quinto dia levar ainda mais à sério meu mergulho interno e analisar profundamente os efeitos da meditação na minha mente, corpo e comportamento. E tive a situação perfeita para testar mais à fundo meu objeto de pesquisa (no caso, eu mesma): uma formiga picou meu pé esquerdo, próximo ao dedo mindinho.

Explico. Eu sou MEEEEEEGA alérgica a qualquer picada de inseto. Coço, inflama, sai pele, fica cicatriz pra sempre… Esse sempre foi um grande problema (drama) na minha vida e eu nunca consegui me conter e não coçar loucamente a área picada. No terceiro dia, por exemplo, uma formiga já havia me picado, também no pé esquerdo, próximo ao dedão, e eu, claro, me joguei na coceira total e a picada se ampliou, doía atingiu o próximo dedo, inflamou, blá, blá, blá. Enfim, o importante é que com essa segunda picada eu poderia realmente ver se a técnica aprendida funcionava: eu iria aplicar o mesmo processo dela na minha alergia. Eu simplesmente observaria a sensação da picada e não faria nada. O desafio era: não coçar, observar a sensação sem julgar e ver no que dava.

Foi difícil, mas consegui. E tive a iluminação divina de perceber que, se eu não coçasse, a picada parava de doer e coçar por muito tempo, até voltar a incomodar novamente. Eu consegui me separar da dor, consegui vê-la apenas como uma sensação e eu nunca, nunca cocei nos dias em que se seguiram, mesmo quando a sensação surgia. Além disso, observei que a picada desapareceu muito mais rápido, sem deixar rastros, enquanto a outra demorou muito mais pra cicatrizar.

Gente, isso foi uma mudança de paradigma na minha vida!! Vocês não tem noção. Me senti tão bem em saber que – “sim, mesmo fora da hora da meditação, eu posso dominar a dor, por mais insuportável que ela seja/pareça ser”. E, colocando de forma mais global, isso mostra que podemos lidar com qualquer dor… sejam elas físicas ou psicológicas (essas muito mais intensas e perigosas que as físicas). Meu projeto, ao longo dos dias, se expandiu para outras áreas e foi sempre um sucesso. E esse é mais um dos motivos pelo qual sou fã de carteirinha da meditação Vipassana.

Dia 6 – Quase um caso de homicídio doloso. Motivo? A respiração!

O sexto dia chegou. Pensei, “ah, hoje tudo vai fluir bem. Hoje vou ficar totalmente em silêncio”. (O professor te chama, em dias intercalados, pra saber como você está indo com a prática, logo, por alguns dias fui “obrigada” a responder brevemente às perguntas dele, mas eu sabia que nesse dia ele não me chamaria). E lá fui eu pro Dhamma Hall. Meditação começa e, dez minutos depois, a minha companheira sentada a minha direita começa a fazer algo que quase me levou à loucura: ela, de 5 em 5 minutos, expirava fortemente o ar de dentro dos pulmões. Sabe quando você está muito (a) bravo (a) ou irritado (a) ou insatisfeito (a) com uma situação e você dá aquela respirada profunda e quando expira o ar pra fora faz um barulhão (o que até ajuda a relaxar, mas, de 5 em 5 min é pra querer matar)??

Pois é! A moça fazia isso repetidamente, deixando bem claro pra mim, e pra todas as outras meditadoras próximas à ela (e provavelmente todos na sala) que ela estava absolutamente irritada, brava ou insatisfeita com a prática dela. Estava claro: ela não estava em um bom dia. A situação estava preta pra ela. A energia que ela emitia por meio da sua respiração era: “estou FRUSTRADA”. E a vontade que eu tinha era de gritar “Eu quero te MATAR. Pára de expirar forte peloamordeDeus. Você está atrapalhando todo mundo”. “O inferno são os outros”, já dizia Sartre. No meu caso, ele morava ao meu lado direito. Não aguentei e marquei uma hora com o professor, depois do almoço. Na ilusão (porque eu até tinha uma idéia do que ele ia dizer. Mas, sou brasileira “e não desisto nunca”) de que ele me daria uma solução. Meu plano de silêncio absoluto foi pras cucuias.

Fiquei surpresa ao chegar na salinha de espera e ver que a minha companheira expiradora-intensa-compulsiva também estava lá. “Vai ver ele chamou ela pra mandar ela parar de fazer isso”, pensou minha mente maligna em um breve momento de satisfação ilusória. Ironicamente fomos as últimas a falar com o profs. Eu fui primeiro. Tentei explicar a situação pelo viés da compaixão, ou melhor dizendo, meu ego escolheu esse aproach pra mostrar o quanto meus motivos eram absolutamente positivos pra pedir que ele interviesse no caso. “Eu sinto a frustração dela e minha vontade é de abraçá-la e dizer que tudo vai ficar tudo bem e que expirar assim não ajuda em nada e só atrapalha o resto da sala”, disse ao professor.

Ele, muito amorosamente, e com toda a inteligência para sacar pessoas com segundas intenções como eu, disse: “Lívia, é normal sentir raiva e também frustração. A frustração que você está vendo nela também é sua. Isso é mais uma impureza” – primeiro tapa na cara. “Não, não posso fazer nada. Posso apenas te pedir pra ter paciência, pra aceitar e observar esse sentimento dentro de você, sem julgar, com equanimidade, e pra seguir em frente com a sua meditação” – tapa na cara número dois. Eu dei minha risadinha sem graça e, com humildade e o reconhecimento de mais uma lição importante aprendida, recolhi minhas pernas, braços e cabeça, agradeci no meus gesto tradicional de Namastê e saí da sala. Nem tive coragem de olhar na cara da minha companheira e parceira de frustração. Fácil projetar nos outros nossas impurezas… Fazemos isso diariamente. Sim, ela era apenas um espelho de mais algumas das minhas: raiva, impaciência, frustração. Quem nunca sentiu que jogue a primeira pedra.

Obrigada por seguir lendo! Beijo no coração e Namastê.

O dia em que não me mexi

4 ago

E o tão esperado quarto dia chegou. Fui para o Dhamma Hall bem cedinho, escutei o Goenka cantar seu mantra longo longo, meia hora cantando em Pali. Pali era a língua falada por Buda, muito mais de cinco mil anos atrás! Não existe mais, mas as escrituras espirituais originais as mantém e, sempre que você aprende os ensinamentos na língua original, sinto que os efeitos são bem mais poderosos. Tomei meu café, caminhei, varri a entrada do Dhamma Hall e estava prontinha, às 8, para aprender a nova técnica.

A meditação em grupo chegou e… nada de nova técnica. Seguimos concentrando na respiração, com leves mudanças… mais do mesmo. “Como assim minha gente? Pára tudo!”, pensei. Provavelmente minhas amigas encarceradas também pensaram a mesma coisa. Eu estava certa! O ar de “ein?” pairava sobre o ar (quanto menos você se comunica verbalmente e gestualmente, mais você se sintoniza com a comunicação energética! Bem doido!). Até que uma das meninas (com mais QI do que eu) resolveu ler o quadro com a explicação detalhada das atividades do dia que fica na entrada do Dhamma Hall (e que, nos primeiros 3 dias, teve a mesma explicação, logo, desencanei de ler mais). Estava lá: Meditação em grupo 14:30. Instruções para meditação Vipassana: 15:30 às 17:00. E em letras garrafais ALUNOS NÃO PODEM SAIR DO DHAMMA HALL DURANTE A INSTRUÇÃO.

Gelei. “Passar praticamente 3 horas meditando sem poder sair? E se eu quiser fazer xixi? Eu vou querer fazer xixi. Ahhhhhhhhhhhhh”, gritou minha mente. Ainda bem que eu estava ficando esperta e concluí que essa era mais uma impureza da minha mente rebelando-se contra as mudanças que estavam por vir! “Let’s see”, repensei! E voltei pra sala para meditar! Detalhe: na manhã do quarto dia minha mente começou a virar temática. O que?, você pergunta! Sim, temática! Explico: ela começou a se concentrar em áreas específicas (geralmente uma por dia) pra tirar minha concentração. E o primeiro assunto que ela escolheu foi… Tã Tã Tã Tãaaaa: comida!!!

Sim, das 8 às 11h minha mente só pensava em comida. Tudo de gostoso que eu não estava comendo lá (eu ainda estava mega decepcionada pela ausência de sobremesas no almoço. Minha amiga me jurou que tinha comido deliciosas guloseimas e, pra mim, nada!!) e que comia em Miami. A Muralha da China veio à minha mente! Não a original, mas uma sobremesa que existe em um restaurante aqui. Rápida descrição: imagina um pedaço de bolo de chocolate gigante, o maior que você já viu (por isso chama-se muralha da China), recheado com creme de chocolate, coberto com creme de chocolate e pingos de chocolate meio-amargo, dando uma certa crocância à receita. Acrescente a ele uma calda de frutas vermelhas levemente azedinha, acompanhada de morangos, blueberries, raspberries e amoras. O azedinho da calda e as frutas permitem que você saboreie a iguaria inteira sem ficar enjoativo. Enfim, é paraíso na terra!

Bom, a Muralha da China tomou uns bons minutos da minha meditação. Depois dela vieram todas as comidas que eu ia comer “assim que chegasse em Miami”. Beringela à parmegiana… respira Lívia. Guioza de legumes… hum… risoto de cogumelos… ai, ai, inspira, expira. Arroz e feijão (meu clássico preferido), batatalhau da minha mãe (não como o bacalhau, mas me jogo no resto dos ingredientes), cookies de chocolate… Socorro, volta pra respiração minha filha! O almoço chegou e quase caí pra trás de felicidade quando vi que tinha feijão! Não o brasileiro, mas em terra de cego caolho é rei minha gente!

Almoço, caminhada, mentalização pra não surtar durante 2:30 horas meditando. Exatamente às 14:30 o sino tocou pra avisar que era hora de ir pra sala. E lá fui eu. A primeira hora seguiu com a meditação na respiração (e mais alguns menus gastronômicos vieram à mente). 15:30. Hora da verdade. A voz de Goenka começa a soar pelo sistema de som de altíssima qualidade. Parece que ele está lá com a gente. A explicação começa. Por uma hora e meia Goenka nos guiou e explicou detalhadamente a nova técnica. Basicamente (e é basicamente mesmo, pois não estou autorizada à ensinar essa meditação) nossa atenção agora iria da área do nariz e boca para todo o corpo, cada cantinho dele, cada parte, cada pedaço.

Apesar de estar guiando a meditação, Goenka falava pausadamente, carinhosamente e me senti entrando em uma espécie de transe. Parênteses aqui: se tem uma coisa que a meditação do Som Primordial (a que ensino) melhorou 100% em mim é minha capacidade de concentração e memória. Nunca tirei notas tão boas na minha vida como tiro no meu Master (e sempre fui meio nerd ein), dou aulas de yoga sem listinha de posições, consigo fazer séries de exercícios enormes e lembrar a sequência direitinho depois, e por aí vai… Enfim, isso pra explicar por que pra mim foi tão fácil seguir os ensinamentos do Goenka e simplesmente não me desconcentrar por 1 hora e meia.

Caros companheiros de jornada na Terra, eu passei 1 hora e meia totalmente absorvida na minha meditação e… IMÓVEL. Detalhe importante: no início da explicação, Goenka deixa claro – “Não se mova até que eu finalize as instruções. A partir de agora, toda vez que você meditar, principalmente nas meditações em grupo, você vai permanecer imóvel durante todo o período. Sente-se confortavelmente e vamos começar”. “Ui, Deus meu, me ajuda”, foi só o que consegui pensar. Funcionou, pois para meu espanto total, passei uma hora e meia sentada, imóvel, com as pernas cruzadas, coluna reta, mãos relaxadas sobre meu colo. Se você acha fácil, tente não se mexer por 40 min, em qualquer posição que seja (menos deitado (a) né), e você entenderá o que estou falando.

Sim, eu era a perfeita foto de revista com a moça meditando pacificamente na praia. Sim, eu estava totalmente concentrada em cada centímetro do meu corpo. Sim, eu estava redescobrindo as mil e umas sensações que temos internamente, sutis ou fortes, espalhadas desde os dedos do pé até o topo da cabeça. Sim, eu não era só músculos, ossos, órgãos, mas também energia sutil correndo por canais energéticos. Sim, eu sentia meu corpo vibrando, tremendo, esquentando, esfriando, sendo pressionado, relaxado, cansado, energético, pesado, leve, estagnado, livre. Não, eu não tive um orgasmo no meio do Dhama Hall, mas as sensações foram tão intensas e sutis quanto ter um.

Sim, eu senti que sou muito mais do que sempre imaginei. Sim, eu visitei meu inconsciente e deixei bem claro pra ele que a visita seria constante e que nos tornaríamos grandes amigos. Sim eu me senti capaz de tudo e eu concluí que nos subestimamos 90% das vezes. Eu me senti mais, muito mais do que qualquer super herói ou heroína. Eu era o todo. Eu era energia, pura energia. Eu estava lá, presente. Eu estava viva e absolutamente consciente.

Quando a meditação acabou o silêncio era profundo na sala. Demorei um pouco pra conseguir me mexer. O corpo estava leve, mas ainda meio anestesiado. Abri a porta. O sol brilhava como nunca antes. As cores eram vivas, a vida pulsava dentro e fora de mim. Não sei se todos sentiram o que eu senti, não sei se alcançaram o grau de concentração que eu alcancei, mas entendi, pela primeira vez, o que Buda estava dizendo. Entendi internamente, abracei como verdade absoluta, e não só intelectualmente.

Por isso insisto que não adianta somente ler livro sobre meditação, ou ler meus post, ou conversar sobre meditação: o importante é praticar. Só então você entenderá a dimensão e o benefício da técnica. Só então você saberá quem realmente é. Só então a vida terá outro sentindo, as situações serão vistas por outro ângulo, as pessoas serão enxergadas por um novo prisma. Só então estaremos realmente prontos para evoluir positivamente. O resto é conversa (ao menos, na minha modesta opinião. Mas, como Buda diz – “Não siga o que estou dizendo – descubra sua própria verdade”).   

Logo logo tem mais. Muuuuito obrigada por seguir lendo! Beijo no coração e Namastê.

O pior dia da minha vida – e de outras vidas também

2 ago

Naquela noite me vesti inteira de preto, coisa que nunca faço, como se eu  estivesse de luto pelo que estava por vir. Saí meio contrariada e cheguei à festa já querendo ir embora. Passei a noite em um canto, observando. Duas latas de cerveja quente chegaram às minhas mãos e foram deixadas , depois de um gole, no último degrau da escada da boate. Eu ainda não gostava de cerveja naquela época, ainda mais quente.

Eu e o objeto de minha afeição nos cruzamos no corredor e mal nos olhamos. Era nosso primeiro encontro depois daquele dia. Tive  a certeza que faltava para ir embora. Quatro da manhã intimei as amigas que estavam de carona comigo e paramos numa lanchonete antes de ir pra casa.

Lá reencontrei um amigo das antigas e demos uma volta de carro. Ele estava animado e tinha mil coisas para contar. Eu ouvi tudo sem muita atenção, queria ir para casa. Deixei-o novamente na lanchonete e liguei o piloto automático. Já eram mais de cinco da manhã e passei em todos os sinais vermelhos. Desacelerava, buzinava e seguia em frente. No último sinal antes de chegar em casa, passei direto – na mudança do amarelo para o vermelho- , sem desacelerar.

Do outro lado da cidade uma turma de amigos saía da festa do peão. O casal de irmãos lotou o carro de colegas para dar carona. Passava das cinco da manhã e eles já deviam estar cansados e sonolentos. Faltava apenas uma amiga para ser deixada em casa quando passaram pelo sinal verde daquele cruzamento fatídico.

Minha memória então dá um salto. Estou no meio da rua, em estado de choque, observando uma menina ensangüentada no porta molas de um carro. Da minha boca saía : desculpa, desculpa, desculpa. Na minha frente um menino desesperado me respondeu: que desculpa o quê! Minha irmã, minha irmã!

Flashes. Uma amiga segurando minha mão e ligando para os meus pais. A ex-namorada do meu irmão me dizendo que eu precisava ir ao hospital dar pontos na minha cabeça. Polícia, ambulância, multidão. Desculpa, desculpa, desculpa.

Horas depois acordei em um quarto de hospital. Meus pais e irmão me rodeavam com cara de enterro. Eu estava inteira e sem dor. Passei a mão na cabeça e senti os fios espetando. Flashback. Porta malas. Menina ensangüentada. Desculpa, desculpa, desculpa.

Perguntei da menina. Desconversaram. Fechei os olhos e devo ter dormido mais um pouco. Acordei e perguntei novamente. Agora entraram no quarto meu pai, meu irmão e meu tio. Já dava pra imaginar que a resposta seria aquela que eu não queria ouvir.

— A menina não resistiu e morreu.

Choro, soluço, medo, pânico e desespero. Piores minutos da minha vida. Piores dias da minha vida. Pior ano. Desculpa, desculpa, desculpa.

Eu gostaria muito que o texto acima fosse apenas uma crônica, um conto. Mas não é. É a vida real em sua pior manifestação e a minha pior lembrança.

Não costumo esconder essa passagem da minha vida, até porque ela faz parte de quem sou. Mas por motivos óbvios não tenho orgulho algum do que aconteceu e não é um assunto que se puxe á toa. Fui condenada por homicídio culposo, prestei dois anos de serviço comunitário e perdi a carteira de motorista pelo mesmo período. Sei que isso não é nada, estou viva. O pior é conviver com a responsabilidade, ainda que acidental, pela morte de outra pessoa. É saber que um pai e uma mãe diariamente sofrem a ausência de uma filha e devem me odiar por isso.

Na época decidiu-se que seria melhor eu não entrar em contato com eles. Hoje me arrependo. Hoje sou mãe e sei a raiva que eles devem ter de mim. Imagino e compreendo a necessidade que eles devem ter de me odiar.  E imagino a diferença que poderia ter feito  olhá-los nos olhos e pedir perdão. Tempos depois, numa sessão de terapia, pedi um perdão  “virtual”.  Mas não é a mesma coisa. Se eu pudesse, pediria perdão — e de joelhos.

Até hoje não consigo ver um carro de resgate sem sentir arrepios e um pouco de ânsia. Chorei incontáveis noites. Por muito tempo  lembrei da garota falecida  diariamente.  Há algum tempo consegui me desvencilhar um pouco dessa lembrança. Mas sempre que algo muito bom acontece comigo, como  quando casei e quando meu filho nasceu, sinto uma ponta de tristeza ao pensar que ela não teve a chance de ter nada disso. E ela só tinha 21 anos.

Hoje faz 13 anos que aquela garota morreu num acidente de carro, atingida por um carro que eu dirigia. Os pais dela e seu irmão devem estar tristes. E eu estou triste também. Gostaria que eles soubessem disso e, de alguma forma, se sentissem reconfortados.

* Duas amigas me fizeram ver o motivo pelo qual tornei pública essa história. Além do perdão da família, também estava precisando do meu perdão. E escrever sobre isso, é uma forma de me perdoar também.

%d blogueiros gostam disto: