O pior dia da minha vida – e de outras vidas também

2 ago

Naquela noite me vesti inteira de preto, coisa que nunca faço, como se eu  estivesse de luto pelo que estava por vir. Saí meio contrariada e cheguei à festa já querendo ir embora. Passei a noite em um canto, observando. Duas latas de cerveja quente chegaram às minhas mãos e foram deixadas , depois de um gole, no último degrau da escada da boate. Eu ainda não gostava de cerveja naquela época, ainda mais quente.

Eu e o objeto de minha afeição nos cruzamos no corredor e mal nos olhamos. Era nosso primeiro encontro depois daquele dia. Tive  a certeza que faltava para ir embora. Quatro da manhã intimei as amigas que estavam de carona comigo e paramos numa lanchonete antes de ir pra casa.

Lá reencontrei um amigo das antigas e demos uma volta de carro. Ele estava animado e tinha mil coisas para contar. Eu ouvi tudo sem muita atenção, queria ir para casa. Deixei-o novamente na lanchonete e liguei o piloto automático. Já eram mais de cinco da manhã e passei em todos os sinais vermelhos. Desacelerava, buzinava e seguia em frente. No último sinal antes de chegar em casa, passei direto – na mudança do amarelo para o vermelho- , sem desacelerar.

Do outro lado da cidade uma turma de amigos saía da festa do peão. O casal de irmãos lotou o carro de colegas para dar carona. Passava das cinco da manhã e eles já deviam estar cansados e sonolentos. Faltava apenas uma amiga para ser deixada em casa quando passaram pelo sinal verde daquele cruzamento fatídico.

Minha memória então dá um salto. Estou no meio da rua, em estado de choque, observando uma menina ensangüentada no porta molas de um carro. Da minha boca saía : desculpa, desculpa, desculpa. Na minha frente um menino desesperado me respondeu: que desculpa o quê! Minha irmã, minha irmã!

Flashes. Uma amiga segurando minha mão e ligando para os meus pais. A ex-namorada do meu irmão me dizendo que eu precisava ir ao hospital dar pontos na minha cabeça. Polícia, ambulância, multidão. Desculpa, desculpa, desculpa.

Horas depois acordei em um quarto de hospital. Meus pais e irmão me rodeavam com cara de enterro. Eu estava inteira e sem dor. Passei a mão na cabeça e senti os fios espetando. Flashback. Porta malas. Menina ensangüentada. Desculpa, desculpa, desculpa.

Perguntei da menina. Desconversaram. Fechei os olhos e devo ter dormido mais um pouco. Acordei e perguntei novamente. Agora entraram no quarto meu pai, meu irmão e meu tio. Já dava pra imaginar que a resposta seria aquela que eu não queria ouvir.

— A menina não resistiu e morreu.

Choro, soluço, medo, pânico e desespero. Piores minutos da minha vida. Piores dias da minha vida. Pior ano. Desculpa, desculpa, desculpa.

Eu gostaria muito que o texto acima fosse apenas uma crônica, um conto. Mas não é. É a vida real em sua pior manifestação e a minha pior lembrança.

Não costumo esconder essa passagem da minha vida, até porque ela faz parte de quem sou. Mas por motivos óbvios não tenho orgulho algum do que aconteceu e não é um assunto que se puxe á toa. Fui condenada por homicídio culposo, prestei dois anos de serviço comunitário e perdi a carteira de motorista pelo mesmo período. Sei que isso não é nada, estou viva. O pior é conviver com a responsabilidade, ainda que acidental, pela morte de outra pessoa. É saber que um pai e uma mãe diariamente sofrem a ausência de uma filha e devem me odiar por isso.

Na época decidiu-se que seria melhor eu não entrar em contato com eles. Hoje me arrependo. Hoje sou mãe e sei a raiva que eles devem ter de mim. Imagino e compreendo a necessidade que eles devem ter de me odiar.  E imagino a diferença que poderia ter feito  olhá-los nos olhos e pedir perdão. Tempos depois, numa sessão de terapia, pedi um perdão  “virtual”.  Mas não é a mesma coisa. Se eu pudesse, pediria perdão — e de joelhos.

Até hoje não consigo ver um carro de resgate sem sentir arrepios e um pouco de ânsia. Chorei incontáveis noites. Por muito tempo  lembrei da garota falecida  diariamente.  Há algum tempo consegui me desvencilhar um pouco dessa lembrança. Mas sempre que algo muito bom acontece comigo, como  quando casei e quando meu filho nasceu, sinto uma ponta de tristeza ao pensar que ela não teve a chance de ter nada disso. E ela só tinha 21 anos.

Hoje faz 13 anos que aquela garota morreu num acidente de carro, atingida por um carro que eu dirigia. Os pais dela e seu irmão devem estar tristes. E eu estou triste também. Gostaria que eles soubessem disso e, de alguma forma, se sentissem reconfortados.

* Duas amigas me fizeram ver o motivo pelo qual tornei pública essa história. Além do perdão da família, também estava precisando do meu perdão. E escrever sobre isso, é uma forma de me perdoar também.

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22 Respostas to “O pior dia da minha vida – e de outras vidas também”

  1. Bruna Kalil 2 de agosto de 2011 às 11:52 pm #

    Que texto triste e consciente, Fabi. Sinto muito, viu? Boas vibrações para você!

  2. Livia 2 de agosto de 2011 às 11:56 pm #

    Oh amada tô aqui chorando. Lembro de como vc estava sentindo-se perdida naquela época (ao menos vc parecia perdida pra mim)… Posso ter uma idéia do que vc sente e respeito demais sua coragem de colocar aqui sua história. Mesmo. E espero que o tempo traga paz ao seu coração e ao coração da família. Penso que seu texto é um pedido de perdão… Mas não esqueça de se perdoar também… Te amo! Bjo no seu coração.

    • Fabi Marques 3 de agosto de 2011 às 12:13 am #

      Obrigada Li. Eu REALMENTE estava muito perdida nessa época e fiquei ainda mais depois disso. Vc e uma outra amiga disseram a mesma coisa,m até acrescentei no post. Acho que escrevi para me perdoar tbm. Quem sabe agora consigo? Bjos e namastê

  3. pati 3 de agosto de 2011 às 3:27 pm #

    Fabi, me emocionei muito lendo seu texto, estou desde hj de manhã pensando no texto e no que te escrever. Fiquei pensando “e se tivesse sido eu no lugar da Fabi”. Talvez eu não tivesse essa sua humildade e maturidade para tornar pública a história. Depois pensei que com certeza vc se coloca no lugar da familia dela, principalmente depois de ter virado mãe.
    Depois fiquei pensando que, se vc consegue se colocar no lugar da familia a familia dela também já deve em algum momento ter se colocado no seu lugar, e principalmente, no lugar dos seus pais e por isto Fabi, com certeza eles já te perdoaram, foi um acidente e poderia ter sido qualquer pessoa, tanto no seu lugar como no lugar da menina.
    um beijo enorme e te admiro ainda mais! bjs Pati

    • Fabi Marques 3 de agosto de 2011 às 10:40 pm #

      pati querida, obrigada pelo carinho. mesmo. beijo.

  4. Helga 4 de agosto de 2011 às 10:06 pm #

    Fabi, eu não tinha idéia desta parte de sua história, mas se um dia já lhe admirava, agora lhe admiro ainda mais, admitir um acontecimento, por mais duro que seja, já faz parte do auto-perdão e o processo é longo mas é possível e eu tenho certeza que você, como uma garota que filosofa sobre a vida, já deve ter entendido que tudo na vida é amarrado e portanto tudo tem seu propósito, para o nosso próprio crescimento. Existem relatos em livros de outras pessoas que já passaram por isso com uma visão espírita e se algum dia lhe interessar me comunique, pois eu adoraria lhe ajudar, muito. beijos e meus pensamento positivos estão contigo. 😉

    • Fabi Marques 4 de agosto de 2011 às 11:57 pm #

      Hel, MUITO OBRIGADA. Tenho sim interesse em ler esses relatos, me passe o nome do livro por favor. Beijos

  5. Abner 4 de agosto de 2011 às 11:03 pm #

    Nossa, Fabi! Eu não sabia dessa história!
    Chorei e me arrepiei do começo ao fim.
    Saudade!

  6. Cristina Lemos 5 de agosto de 2011 às 12:46 am #

    Oi Fabi
    Vi, senti e sofri junto com voce tudo isto, de muito perto.Fui com sua mãe na casa da familia que acabava de perder a menina.Não se martirize mais pois isto só piora sua alma. É natural que a familia tenha te julgado, nem gosto de me imaginar no lugar deles… com certeza voce tambem, embora tenha se imaginado mil vezes.O que importa é que voce é verdadeira e o fato de assumir esta sua historia com esta coragem e este sentimento só pode realmente servir de perdão. Tomara que isto chegue de qualquer forma à estas pessoas que com certeza também te perdoarão te conhecendo melhor.Fique tranquila e em paz, todos nós estamos sujeitos a passar por isto um dia, nem nós e nem esta família somos diferentes … temos que ´pedir sempre a Deus para nos livrar mesmo de todo o mal que possa nos acontecer.Um beijo grande.Fique com Ele.

  7. Marilza 5 de agosto de 2011 às 12:37 pm #

    Querida Fabiana!
    As coisas acontecem em nossa vida para nossa transcendência, perante Deus!
    E você já sabe disso não?
    A vida nos ensina e percebo isso em seus textos..
    Vejo você, cada vez mais, uma criatura doce, transparente, amadurecida e fazendo acontecer …
    Tenho o maior orgulho de você, querida!
    Te amo muito!

  8. Fabi Marques 5 de agosto de 2011 às 1:48 pm #

    Obrigada pelo carinho, mesmo. Beijos

  9. Giulliana Carrazzone 5 de agosto de 2011 às 1:54 pm #

    Fabi, amada. Por hora eu não consigo lhe escrever… estou emocionada e com todo meu amor e energia voltados para seu perdão. Perdoar-se afinal é tão difícil e ao mesmo tempo tão crucial… te amo

  10. sueli 6 de agosto de 2011 às 11:36 am #

    Fabi-quando li seu post chorei.Chorei por mim , por vc ,pelos pais que perderam sua filha…e fica a pergunta por que estas coisas acontecem com pessoas que jamais fariam mal a alguem? Destino? Carma?..Só sei que vc já foi punida o suficiente …pelas lembranças Não há puniçào social que supere isto-Agora vc precisa se perdoar e tirar este peso da sua vida com as boas ações que vc faz a cda um que se aproxima de vc !bjs!

  11. maisa lemos p c medeiros 13 de agosto de 2011 às 12:10 pm #

    Fa, nem preciso te dizer nada… te amo amiga! Ma (isa)

  12. marli 29 de agosto de 2011 às 11:27 pm #

    Fabi querida
    Não sei como escrever, mas preciso. Estou chorando muito, por sentir agora, por osmose, o sofrimento que atingiu você, tão duramente. Acho que eu preferia pensar que você já tinha superado, que tudo estava equilibrado na sua cabeça. Na verdade o que eu mais queria era que aquela história pudesse ser apagada, para que você não sofresse.
    Vejo agora quanto esforço você teve que fazer para sobreviver àquela tragédia, da qual vc fez parte por desígnios insondáveis.
    Fabi, vc não precisa mais de perdão, a sua integridade como pessoa a exime de sentimento de culpa.
    Viva a sua vida intensamente, com a certeza de que tem direito a muitas alegrias e conquistas.
    Amo muito você, minha sobrinha preferida!
    tia Marli

  13. Fran 2 de setembro de 2011 às 5:16 pm #

    Fa, eu nem sei o que dizer em relação a esse texto. Acho que qualquer elogio sobre ele vai parecer patético em relação ao que ele significa.

    Nada do que for feito vai fazer as coisas voltarem, mas que bonita a sua atitude de se perdoar e de compartilhar isso. Com certeza essa história serve pra muita gente, mostrando que sempre existem dois lados e muitas vezes nenhum deles sai ganhando.

    um bjo pra vc minha querida.

  14. Dani Farah Antunes 2 de agosto de 2017 às 2:01 pm #

    Muito triste Fabi.
    Seu relato é emocionante.
    E como você mesmo disse, nem dá para ter noção do sentimento dos familiares da menina. Colocar-se no lugar deles é um exercício doloroso também, imagino.
    um beijo.

  15. tia Lucilia 2 de agosto de 2017 às 2:51 pm #

    Fabiana menina e mãe , olhe bem nos olhos de seus lindos filhos , veja a presença de Deus neles e fale : O Senhor é meu pastor e nada me faltará’ ! Depois vc me diz o que este Salmo 23 lhe trouxe . Muita paz como vc nunca sentiu , tenha certeza disso . E sempre que vc sentir necessidade medite este Salmo tão poderososo ! Bjs e um abraço bem grande querida menina e mãe de duas crianças lindíssimas !

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