O dia em que não me mexi

4 ago

E o tão esperado quarto dia chegou. Fui para o Dhamma Hall bem cedinho, escutei o Goenka cantar seu mantra longo longo, meia hora cantando em Pali. Pali era a língua falada por Buda, muito mais de cinco mil anos atrás! Não existe mais, mas as escrituras espirituais originais as mantém e, sempre que você aprende os ensinamentos na língua original, sinto que os efeitos são bem mais poderosos. Tomei meu café, caminhei, varri a entrada do Dhamma Hall e estava prontinha, às 8, para aprender a nova técnica.

A meditação em grupo chegou e… nada de nova técnica. Seguimos concentrando na respiração, com leves mudanças… mais do mesmo. “Como assim minha gente? Pára tudo!”, pensei. Provavelmente minhas amigas encarceradas também pensaram a mesma coisa. Eu estava certa! O ar de “ein?” pairava sobre o ar (quanto menos você se comunica verbalmente e gestualmente, mais você se sintoniza com a comunicação energética! Bem doido!). Até que uma das meninas (com mais QI do que eu) resolveu ler o quadro com a explicação detalhada das atividades do dia que fica na entrada do Dhamma Hall (e que, nos primeiros 3 dias, teve a mesma explicação, logo, desencanei de ler mais). Estava lá: Meditação em grupo 14:30. Instruções para meditação Vipassana: 15:30 às 17:00. E em letras garrafais ALUNOS NÃO PODEM SAIR DO DHAMMA HALL DURANTE A INSTRUÇÃO.

Gelei. “Passar praticamente 3 horas meditando sem poder sair? E se eu quiser fazer xixi? Eu vou querer fazer xixi. Ahhhhhhhhhhhhh”, gritou minha mente. Ainda bem que eu estava ficando esperta e concluí que essa era mais uma impureza da minha mente rebelando-se contra as mudanças que estavam por vir! “Let’s see”, repensei! E voltei pra sala para meditar! Detalhe: na manhã do quarto dia minha mente começou a virar temática. O que?, você pergunta! Sim, temática! Explico: ela começou a se concentrar em áreas específicas (geralmente uma por dia) pra tirar minha concentração. E o primeiro assunto que ela escolheu foi… Tã Tã Tã Tãaaaa: comida!!!

Sim, das 8 às 11h minha mente só pensava em comida. Tudo de gostoso que eu não estava comendo lá (eu ainda estava mega decepcionada pela ausência de sobremesas no almoço. Minha amiga me jurou que tinha comido deliciosas guloseimas e, pra mim, nada!!) e que comia em Miami. A Muralha da China veio à minha mente! Não a original, mas uma sobremesa que existe em um restaurante aqui. Rápida descrição: imagina um pedaço de bolo de chocolate gigante, o maior que você já viu (por isso chama-se muralha da China), recheado com creme de chocolate, coberto com creme de chocolate e pingos de chocolate meio-amargo, dando uma certa crocância à receita. Acrescente a ele uma calda de frutas vermelhas levemente azedinha, acompanhada de morangos, blueberries, raspberries e amoras. O azedinho da calda e as frutas permitem que você saboreie a iguaria inteira sem ficar enjoativo. Enfim, é paraíso na terra!

Bom, a Muralha da China tomou uns bons minutos da minha meditação. Depois dela vieram todas as comidas que eu ia comer “assim que chegasse em Miami”. Beringela à parmegiana… respira Lívia. Guioza de legumes… hum… risoto de cogumelos… ai, ai, inspira, expira. Arroz e feijão (meu clássico preferido), batatalhau da minha mãe (não como o bacalhau, mas me jogo no resto dos ingredientes), cookies de chocolate… Socorro, volta pra respiração minha filha! O almoço chegou e quase caí pra trás de felicidade quando vi que tinha feijão! Não o brasileiro, mas em terra de cego caolho é rei minha gente!

Almoço, caminhada, mentalização pra não surtar durante 2:30 horas meditando. Exatamente às 14:30 o sino tocou pra avisar que era hora de ir pra sala. E lá fui eu. A primeira hora seguiu com a meditação na respiração (e mais alguns menus gastronômicos vieram à mente). 15:30. Hora da verdade. A voz de Goenka começa a soar pelo sistema de som de altíssima qualidade. Parece que ele está lá com a gente. A explicação começa. Por uma hora e meia Goenka nos guiou e explicou detalhadamente a nova técnica. Basicamente (e é basicamente mesmo, pois não estou autorizada à ensinar essa meditação) nossa atenção agora iria da área do nariz e boca para todo o corpo, cada cantinho dele, cada parte, cada pedaço.

Apesar de estar guiando a meditação, Goenka falava pausadamente, carinhosamente e me senti entrando em uma espécie de transe. Parênteses aqui: se tem uma coisa que a meditação do Som Primordial (a que ensino) melhorou 100% em mim é minha capacidade de concentração e memória. Nunca tirei notas tão boas na minha vida como tiro no meu Master (e sempre fui meio nerd ein), dou aulas de yoga sem listinha de posições, consigo fazer séries de exercícios enormes e lembrar a sequência direitinho depois, e por aí vai… Enfim, isso pra explicar por que pra mim foi tão fácil seguir os ensinamentos do Goenka e simplesmente não me desconcentrar por 1 hora e meia.

Caros companheiros de jornada na Terra, eu passei 1 hora e meia totalmente absorvida na minha meditação e… IMÓVEL. Detalhe importante: no início da explicação, Goenka deixa claro – “Não se mova até que eu finalize as instruções. A partir de agora, toda vez que você meditar, principalmente nas meditações em grupo, você vai permanecer imóvel durante todo o período. Sente-se confortavelmente e vamos começar”. “Ui, Deus meu, me ajuda”, foi só o que consegui pensar. Funcionou, pois para meu espanto total, passei uma hora e meia sentada, imóvel, com as pernas cruzadas, coluna reta, mãos relaxadas sobre meu colo. Se você acha fácil, tente não se mexer por 40 min, em qualquer posição que seja (menos deitado (a) né), e você entenderá o que estou falando.

Sim, eu era a perfeita foto de revista com a moça meditando pacificamente na praia. Sim, eu estava totalmente concentrada em cada centímetro do meu corpo. Sim, eu estava redescobrindo as mil e umas sensações que temos internamente, sutis ou fortes, espalhadas desde os dedos do pé até o topo da cabeça. Sim, eu não era só músculos, ossos, órgãos, mas também energia sutil correndo por canais energéticos. Sim, eu sentia meu corpo vibrando, tremendo, esquentando, esfriando, sendo pressionado, relaxado, cansado, energético, pesado, leve, estagnado, livre. Não, eu não tive um orgasmo no meio do Dhama Hall, mas as sensações foram tão intensas e sutis quanto ter um.

Sim, eu senti que sou muito mais do que sempre imaginei. Sim, eu visitei meu inconsciente e deixei bem claro pra ele que a visita seria constante e que nos tornaríamos grandes amigos. Sim eu me senti capaz de tudo e eu concluí que nos subestimamos 90% das vezes. Eu me senti mais, muito mais do que qualquer super herói ou heroína. Eu era o todo. Eu era energia, pura energia. Eu estava lá, presente. Eu estava viva e absolutamente consciente.

Quando a meditação acabou o silêncio era profundo na sala. Demorei um pouco pra conseguir me mexer. O corpo estava leve, mas ainda meio anestesiado. Abri a porta. O sol brilhava como nunca antes. As cores eram vivas, a vida pulsava dentro e fora de mim. Não sei se todos sentiram o que eu senti, não sei se alcançaram o grau de concentração que eu alcancei, mas entendi, pela primeira vez, o que Buda estava dizendo. Entendi internamente, abracei como verdade absoluta, e não só intelectualmente.

Por isso insisto que não adianta somente ler livro sobre meditação, ou ler meus post, ou conversar sobre meditação: o importante é praticar. Só então você entenderá a dimensão e o benefício da técnica. Só então você saberá quem realmente é. Só então a vida terá outro sentindo, as situações serão vistas por outro ângulo, as pessoas serão enxergadas por um novo prisma. Só então estaremos realmente prontos para evoluir positivamente. O resto é conversa (ao menos, na minha modesta opinião. Mas, como Buda diz – “Não siga o que estou dizendo – descubra sua própria verdade”).   

Logo logo tem mais. Muuuuito obrigada por seguir lendo! Beijo no coração e Namastê.

Anúncios

4 Respostas to “O dia em que não me mexi”

  1. Fabi Marques 4 de agosto de 2011 às 10:55 pm #

    Quando li Comer, Reza e Amar, tive vontade de meditar e sentir tudo aquilo que ela descreveu. Com a SUA descrição, que é minha amiga-irmã, a vontade triplicou! Que eu um dia chegue lá tb! Beijos

    • Lívia Stábile 10 de agosto de 2011 às 3:24 pm #

      Oh Amada!! SE Deus quiser te ensino logo logo! beijosss

  2. sueli 6 de agosto de 2011 às 11:30 am #

    Adoro teu jeito Comédia de descrever tua experiência!é bom conhecer um filho pela ótica dele mesmo e não pela nossa!bjs!

    • Lívia Stábile 10 de agosto de 2011 às 3:25 pm #

      Que bom que vocÊ está gostando mãe! REalmente imagino que as surpresas sejam muitas! Hehe! O mais importante é saber que em cada coisa que escrevo e faço, existe um pedaço seu e do pai comigo!! Beijos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: