Meditação Montanha Russa: dias 7 e 8

26 ago

Querido Leitor! Os dois próximos dias mostram quão paradoxal foi minha experiência. Assim como eu, a maioria dos que vão aos 10 dias de Meditação Vipassana relatam ter vivido e sentido absolutamente todo o leque de emoções, sentimentos e sensações, das mais agradáveis e transcendentais até as mais desagradáveis e mundanas. Uma espécie de montanha russa mental e espiritual. É intenso, e maravilhoso. Boa leitura e obrigada por seguir acompanhando.

Dia 7 – Minha missa de sétimo dia

O sétimo dia foi marcado pela minha própria missa de sétimo dia. Calma, calma, uso a imagem/analogia para explicar como me senti e o que aconteceu. Nos 7 dias anteriores uma grande parte de mim estava em processo ativo de morte, putrefação… O estresse estava sendo eliminado, a necessidade de controlar tudo se dissolvia, o medo era diluído no ar, o diálogo mental intenso se tornava cada vez menor, mais silencioso. Uma outra Lívia renascia, pois a minha visão de mundo e a visão sobre quem eu era se desintegrava mais a cada dia. Não tinha volta: o cadáver estava ali. Era hora de renascer. O renascimento veio com o silêncio: nesse dia fiquei muda o dia todo. Sim, eu – Lívia, a pessoa falante – calei.

Se você está assustada (o) com a possibilidade de matar parte de você, não tema! Suas principais características “positivas” e “negativas” (não existe certo ou errado, lembra??) permanecerão com você, só que você saberá que ambas são passageiras e poderá lidar bem melhor com elas. Por exemplo, eu segui me emocionando e tendo profunda empatia pelo sofrimento do(s) outro(s). Nesse dia, chorei pela mãe de uma grande amiga minha que está lutando contra o câncer faz um ano. Dessa vez ela foi para a mesa de cirurgia (enquanto eu estava prisioneira) e foi impossível não me emocionar ao lembrar o medo e a dor que toda a família devia estar passando.

Não só eu, como a maioria das minhas companheiras “prisioneiras” pareciam estar nesse estado de renascimento. A energia era muito mais harmoniosa. Todas começaram a ajudar na limpeza do Bangu, de forma orquestrada até. Eu segui fazendo minhas caminhadas até o último dia, mas elas eram mais leves, os passos muito mais conscientes, eu sentia a brisa tocar meu corpo, sentia meus músculos e ossos movendo-se, observava cada detalhe da trilha. Eu era uma com a trilha.

No sétimo dia também consegui burlar a regra do retiro (ok, ok, não sou perfeita, mas não atrapalhei ninguém, juro…) e fiz cerca de 15 minutos de yoga no meu quartinho apertado, no momento em que minha roomate estava fora. A experiência foi única. Senti a energia percorrer meu corpo tão claramente. Era mais uma prova (pra mim, que fui cética por muitos anos) que somos muito mais do que matéria. Como nunca antes, eu vivi e fui a descrição exata de Yoga – união entre corpo, mente e espírito. Nesse dia meu coração estava quieto. Equanimidade era meu sinônimo e eu era grata por isso.

A meditação foi bem mais fácil. Eu conseguia me concentrar em cada parte do corpo “pedaço por pedaço, parte por parte” como dizia o Goenka. O tempo livre passou a não apresentar mais grandes pensamentos ligados ao desejo. Eu estava agora, (na verdade comecei desde o quinto dia) mais concentrada em relembrar livros espirituais, a história de grandes gurus e personagens. Me peguei (não pela primeira vez) comparando Jesus e Buda. Pensei como eles podiam ser tão diferentes: Jesus pregava o amor como resposta para tudo e que Deus era nosso pai e um conosco. Buda não falava em Deus “nem a pau Juvenal” e dizia que a eliminação do desejo e a aceitação total da realidade eram as resposta para tudo. Achei um muito distante do outro, mas segui filosofando sobre o assunto e até perguntei sobre Buda e Deus em uma das conversas com meu professor, que me confirmou que Buda nunca falou em Deus e pra ele só existia a real natureza das coisas, da vida… Mais sobre o assunto virá no próximo post!

Ah! Esse dia também foi fantástico porque comecei a materializar comida!!! No dia anterior eu pensei, (pela milésima vez): “Poxa vida, eles bem que podiam fazer uma sobremesa básica vai… Nem precisa ser junk food, pode ser uma brownie vegan sem açúcar, sem leite…”. Mas logo deixei a idéia de lado e voltei ao contentamento do momento presente. Caros amigos, ao chegar no refeitório, lá estavam elas: brownies deliciosamente vegans, feitas de chocolate meio amargo e sem adição de leite ou manteiga. É a prova para o que falo: joga a intenção para o Universo e se desapega de recebê-la: na hora certa ela vem!! Não me contive: escrevi um bilhete no guardanapo de papel dizendo “Obrigada. Sobremesa delícia” e joguei por baixo da porta que dava para a cozinha. O agradecimento era não só para os cozinheiros, mas também para o Universo que escutou minhas “preces”!!

Dia 8 – Ócio criativo o caramba

O dia 8 começou como todos os outros 7 dias anteriores. Dessa vez eu consegui acordar às 4:30 e segui com a minha meditação. Bom, eu tentei seguir né… O dia foi caminhando e eu vi um sentimento que foi sempre meu companheiro (mas que nunca consegui definir tão claramente e acho que raras vezes eu o reconheci ao meu lado) crescendo e crescendo e crescendo: o tédio. Sim, porque para, aos 31 anos, eu já ter morado em 7 cidades, e estar mudando de profissão pela terceira vez o tédio tem de fazer parte da mistura de razões pela qual isso tudo acontece na minha vida… Não a principal, mas ele está lá. Pronto, a equanimidade de ontem foi pro ralo…

Mas gente, pensa comigo, todo dia a mesma rotina, todo o dia as mesmas pessoas, todo dia o mesmo tudo… !!! A mente voltou para comida: “Ahhhh, tudo o que vou comer assim que pisar em Miami”, ela pensava. Música foi outro escape usado pela minha criativa mente e eu acabei criando o slogan “Lívia FM: tocando tudo aquilo que toca você”. Teve de tudo, Maddonna, mantras, mas, principalmente, aquelas músicas de rádio que o refrão gruda na mente e não sai por nada…. Tipo, em um momento Black Eye Peas: “I got a feeling… Uhuuuuu”.  Observei tudo acontecendo, mas não consegui não me identificar com o tédio perverso.

Na hora do chá da tarde foi o limite: quase gritei: “Não aguento mais comer banana, maça e laranja todos os dias”. Eu estava muuuito indignada. E olha que eu ficava praticamente junto da porta de entrada perto da hora em que o sino tocava e nos permitia entrar no refeitório, só pra garantir que eu pegaria uma banana, pois não eram muitas na cesta não! Um absurdo! Eu me imaginava indo no Publix (supermercado perto de casa) e tendo a seguinte conversa com as frutas: “Uvas, cerejas, abacaxi, mamão, melão, peras, mangas, vocês todas virão comigo para casa”. “Agora vocês bananas, maças e laranjas vão apodrecer aí se depender de mim. Vocês não vão não!! Hahahahaha!!” – essa parte eu me imaginava com certa expressão maligna no rosto.

Também dei mais uma checada básica nos moçoilos do outro lado da sala. “Hum, o indiano gato segue lá…”. Chegou a noite e decidi falar com o professor depois da última meditação, às 21h, porque não dava mais… Lá fui eu. Sentei sorridente e soltei: “Olha, na verdade está indo tudo muito bem. A meditação está ótima, eu consigo sentir as sensações, mas, pra ser sincera, está tudo muito igual e eu estou sentindo um tremendo tédio”. Pronto, falei!

O professor, como sempre, dá o sorriso mais puro do ano e solta a terceiro tapa com luva de pelica dos meus 10 dias (que, na verdade, eu sabia que viria): “O tédio é uma impureza, como todas as outras da mente. E ele deixa claro que não estamos satisfeitos com a realidade, não estamos aceitando ela. O que é exatamente o oposto do que estamos aprendendo aqui”. Splash! Esse doeu! Mas acendeu aquela lâmpada em cima da cabeça (que nem em gibi, quando o personagem tem um ótimo insight): sim, sim, muito das minhas mudanças de vida e dos meus pensamentos obsessivos em comida vem do meu tédio. Ambas as coisas vem pra mudar minha realidade e me dar algo de novo, de diferente, pra minha mente se distrair. Tremenda Impureza meus caros!!!! Talvez, entre as minhas, seja uma das maiores.

E não somos todos assim? Fumamos pra lidar com a ansiedade ou com o tédio, bebemos pra lidar com a ansiedade social ou com o tédio, usamos drogas pra lidar com a ansiedade ou com o tédio, vamos ao shopping comprar coisas inúteis pra lidar com a ansiedade ou tédio, e por aí vai… Observe seus vícios e quando eles aparecem. Observe como eles tomam conta de você… Sem julgamentos, apenas observe e comece a tornar-se consciente do que os ativa e tente arrumar outras ferramentas, menos prejudiciais, pra lidar com suas ansiedades, medos e tédio!!! O dia oito foi um marco na minha vida. Uma das maiores lições que já tive! Espero que te ajude também! Pois é melhor aprender pelo conhecimento ou pela observação do que pela dor! Beijo no coração e Namastê!

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7 Respostas to “Meditação Montanha Russa: dias 7 e 8”

  1. sueli 27 de agosto de 2011 às 4:55 pm #

    Dizem que o melhor da viagem não é o destino…é a viagem..Acho que é mesmo!

    • Lívia Stábile 27 de agosto de 2011 às 6:08 pm #

      Verdade mãe!! TE adoro muito! beijos

  2. Cárita 28 de agosto de 2011 às 6:33 pm #

    Amiga, mandou muitísismo bem…de novo! vou ficar com suas experiências…esse “tapinha ” me caiu bem…
    bjos
    amo você

    • Lívia Stábile 29 de agosto de 2011 às 5:47 pm #

      Amiga Linda!!
      Que bom que te inspirou!! Esse é meu objetivo!!
      Saudade demais! Amo muito Você e a Lívia!
      Beijos mil pra vocês

  3. marcelo stabile 29 de agosto de 2011 às 10:24 pm #

    Prima, saudades. Adoro o blog. Conheco bem este tal de tedio. Corre solto na familia ate que o aceitemos. E tia, concordo, o melhor da viagem eh a propria e as pessoas que encontramos. Beijos e saudades

  4. pin 8 de setembro de 2011 às 4:28 pm #

    Deusa querida, li agora, de uma vez, do dia 3 até este da sua incrível experiência no retiro. Depois dos lindos ensinamentos que vc divide, o melhor é te ler e ter a sensação de te ouvir – as expressões, as comparações e invenções para explicar a realidade, o jeitinho fofo e divertido de ver a vida. Beijos, como sempre, e um abraço virtual especial de aniversário! =)

  5. maildalyra 19 de setembro de 2011 às 12:31 pm #

    Pois é melhor aprender pelo conhecimento ou pela observação do que pela dor!

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