Jesus e Buda de mãos dadas e as lições que a vida nos oferece: Dia 9

19 set

Caros leitores!

Peço desculpas pelo sumiço. A vida acontece e, sinceramente, escrever é um processo criativo, logo, se não me sinto inspirada não escrevo. Quero doar o que existe de melhor em mim, nem mais nem menos! Dia 9 chegou. Divirta-se!

Dia 9 – O dia em que Buda e Jesus tiveram um “get together”

O dia começou bem e a meditação correu tranquilamente. O tédio de ontem foi embora, assim como as dezenas de resistências ou impurezas (como eles gostam de chamar no Vipassana) que passam pela nossa mente e corpo diariamente. Pude concluir que quanto mais aprendemos a, literalmente, sentar e ficar em contato com essas impurezas, senti-las e observá-las indo embora (mesmo que demore), mais nos livramos da ansiedade, estresse, medo. Mais compreendemos a força e capacidade que temos de superar qualquer desafio. Lição para o resto da vida. Transformação celular meus caros!

Também consegui entender, enfim, a importância de alinhar a espinha (coluna) para meditar: as sensações são tão mais sutis quando sento corretamente… a energia flui bem melhor quando a coluna está reta e, posso concluir, os 7 principais chakras (centros energéticos) em seus devidos lugares. Dica para os navegantes: sente-se em uma almofada firme (se possível compre uma especial para meditação) que deixe seu quadril mais alto (de 6 a 10 cm) que seu joelho e o (a) ajuda a sentar corretamente. Pra mim, o ideal e ter a coluna reta e o abdômen levemente contraído, o bastante para manter a coluna reta e não curvar a lombar. Os braços ficam dobrados confortavelmente, as mãos repousam sob os joelhos, abertas mesmo, pois segurar o dedo indicador e o dedão juntos (aquela posição das mãos tradicional em fotos de gente meditando), para quem está começando, pode ser difícil e tirar a concentração. Ombros relaxados, porém alinhados (não curvados pra frente) e as pernas cruzadas formam a “ultimate-master-plus-perfect-position” para a prática!

Voltando ao relato: no nono dia, durante os intervalos, lembrei do meu tempo de casada. Sim, para os que não sabem eu já fui Sra Lívia!! Era como se eu estivesse fazendo uma faxina e retirando qualquer assunto daquela época ainda mal resolvido dentro de mim. A meditação tem esse efeito de limpar memórias, levando embora as que não servem mais e mantendo as positivas. Pude ter uma perspectiva clara, como nunca antes, do meu casamento, de onde falhei, do que aprendi… De quem fui e quem sou. E das coisas boas que vivi. Minha vida de casada foi a maior lição que já tive e foi graças a ela que sou quem sou hoje.

As experiências que temos, principalmente as mais marcantes, são lições de vida e a razão de estarmos aqui. E nessa categoria de experiências, os relacionamentos – sejam eles no trabalho, com família, amigos, namorado (a), esposo (a) – estão no topo da lista TOP 10 de aprendizado! Uma vez que você entende o que tem de transformar ou aperfeiçoar, os desafios daquele(s) relacionamento(s) desaparece(m). “Eu agarantcho!!”. Por outro lado, quanto mais você se joga no drama dos relacionamentos, culpa o outro, grita, esperneia, fala mal do outro para seus amigos, mais você continuará enfrentando os mesmos desafios, até aprender (quem já casou várias vezes, ou trocou de emprego várias vezes, ou trocou de amigos várias vezes deve saber o que estou falando, mesmo que não queira admitir) a lição.

O clima introspectivo do dia foi potencializado pela chuva que nos acompanhou o dia todo. Era como se ela estivesse limpando a alma do grupo todo e, ao mesmo tempo, nos incentivando a ficar mais tempo na sala meditando. A energia das mulheres e homens era uma só. Estávamos todos em harmonia, um grupo, uma só respiração, algo que poucas vezes senti na vida. Uma observação: tudo isso que escrevo pode parecer absolutamente abstrato para você caro leitor, e eu não o culpo: como já expliquei antes, estamos tendo aqui uma experiência intelectual, ou seja, eu relato minha experiência e você a lê. Você está agregando conhecimento para seu hipocampo (local onde temos nossa memória, de acordo com a neurociência). No entanto, nada disso fará muito sentido enquanto você não “EXPERIENCIAR” o que estou contando, enquanto você não sentar e “permirtir-se” ter a experiência da meditação. Enquanto você não entregar suas dúvidas, desconfianças, perguntas e curiosidades e simplesmente praticar o processo meditativo ao ponto de entregar sua alma a ele e poder sentir quem você realmente é: pura energia, pura inteligência, pura potencialidade, puro amor. Do fundo do meu coração, eu espero que um dia você possa experimentar isso, pois é a maior libertação que um homem pode ter!

Lembra quando eu contei dos meus pensamentos sobre a diferença entre Jesus e Buda, e a mensagem que eles trouxeram para a mundo? Durante muito tempo não consegui entender porque suas mensagens eram tão diferentes: Jesus pregando o amor incondicional e Buda pregando a aceitação total da realidade e eliminação dos desejos. Pois bem, no nono dia, a água que caía do céu hidratou não só a terra do lindo retiro onde estávamos, mas também meus pensamentos e insights: depois do almoço, sentada embaixo de altas árvores, sentindo pequenas gotas de água caindo sobre meus ombros eu cabelo, eu tive uma mini-iluminação: a mensagem foi sempre a mesma, mas entregue de forma adequada às sociedades em que eles viveram.

Isso mesmo! O amor incondicional de Jesus é absolutamente impossível sem a aceitação da realidade de Buda! Como amar tendo desejos individualistas ou não aceitando o outro, ou não aceitando sua vida como ela é agora? Como ir além da ilusão da vida material sem ser puro amor? Impossível. Os dois foram grandes mestres e sabiam que não adiantaria explicar a lição de outra forma em suas respectivas épocas. Jesus, que viveu em um tempo de total barbárie, guerras e violência, teve de trazer a mensagem de que somos todos iguais, irmãos, e que o amor é o mais importante e a única salvação. Buda, que viveu em uma época onde o poder hierárquico era muito importante (e segue sendo, ainda não aprendemos…) e também o poder por experiências espirituais “mágicas” (que eram buscadas por mestres e pela população geral) teve de deixar claro que o importante é aceitar o que existe agora, no presente, e é essa aceitação que trará a paz e o amor interno. Tudo muito coerente e adequado! Dois mestres com a mesma mensagem: o caminho para a evolução e a auto-realização é por meio do amor e da aceitação. Ambos tem de ser vividos incondicionalmente. Um é impossível sem o outro. Got it??

Naquela noite tivemos a última aula com o Goenka. De certa forma foi triste e comecei a temer o dia seguinte, quando ele nos lembrou que voltaríamos a falar. Um arrepio correu solto no corpo e senti minha testa tensa. “Quando o diálogo começa, a meditação termina”, ele disse. Não poderia estar mais certo. Não existe meditação profunda quando conversas e fofocas multiplicam nossos pensamentos e desequilibram nosso equilíbrio energético. (Entende agora porque tem gente que passa anos em uma caverna na Índia?) “Será que dá pra esperar mais um dia? Só mais um vai…?”, quase gritei pra tela de televisão por onde ele discursava. O olhar das minhas companheiras também era de pânico: “Não estou pronta pra voltar pra esse mundo doido não”, devia ser o que a maioria delas pensava! Escovei o dente, creminhos no rosto, pijama, cama. “Relaxa a testa Lívia”, falei pra mim mesma. Amanhã é um novo dia e, com o advento da fala de volta no cenário, tudo é possível. “Que Deus nos ajude” e desmaiei.

Beijo no coração e Namastê.

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4 Respostas to “Jesus e Buda de mãos dadas e as lições que a vida nos oferece: Dia 9”

  1. Babi 19 de setembro de 2011 às 2:35 pm #

    Liviassita,
    Tenho acompanhado todos os seus relatos e em alguns momentos caio na risada (como no momento do feijão em terra de cego… ) outras vezes simplesmente acompanhando suas histórias reflito sobre as minhas.

    Saiba que antes mesmo de virar “guru”, você já ajudava sempre as pessoas e contagiava a todos com seu bom humor.

    Aguardo os próximos relatos. Como foi voltar a civilização? 🙂

    beijocas,

  2. Helga 24 de setembro de 2011 às 12:49 pm #

    Lívia, apenas gostaria de agradecer a sua devoção e carinho em nos passar estas lindas palavras das suas experiências, nos ajudando a refletir sobre as nossas próprias escolhas… Você escreve lindamente e eu sempre me emociono quando leio seus posts!!! Obrigada e obrigada e obrigada!!! Grande beijo.

    • Lívia Stábile 3 de outubro de 2011 às 10:24 am #

      Super obrigada querida! Bom demais te ter como leitora! Muitos beijos

  3. pin 5 de outubro de 2011 às 6:16 pm #

    adoro poder compartilhar seus insights! beijos! pin

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