Arquivo | outubro, 2011

Dia 11 – de volta pra casa e o medo da vida mundana

20 out

 Bom dia Winnie!

Bom dia Hummingbird (passarinhobeija-flor em inglês, e meu apelido durante meu retiro de 10 dias em silêncio aprendendo a Meditação Vipassana)!

Foi bom levantar e poder dizer bom dia pra minha roommate! A escuridão ainda tomava conta do céu e a lua cheia nos banhava com sua luz prateada. Me arrumei rapidamente. Pontualmente às 6 da matina eu estava sentadinha no meu colchonete e com um sorriso no rosto me entreguei a última meditação do curso. Apesar da conversa estar liberada, não podíamos falar no Dhamma Hall, onde o silêncio é sempre lei. A hora passou rápido e no final da meditação escutamos, pela última vez, a voz de Goenka nos dando algumas dicas de como manter a prática diária, nos parabenizando pela coragem de nossa iniciativa e nos desejando muitas felicidades e Metta (amor em Pali).

Saí da sala emocionada. O combinado era tomar café, fechar as malas (que todas arrumamos na noite anterior) e ajudar a limpar todo o complexo Bangu, refeitório e o Dhamma Hall, pois um novo grupo chegaria na próxima quarta-feira. O café tinha todo o “restodontê” dos dias anteriores: sopa de quinoa, cookies, brownies, e tudo mais de gostoso. Até pipoca! A mulherada comeu alegremente e falamos do nosso medo de enfrentar a “realidade”. Para os textos Indus antigos, e para vários livros de mestres atuais, a única realidade é aquela que nunca muda. Nunca mesmo.

Então, o que é real? Seu trabalho muda o tempo todo, você (seu corpo e sua mente) muda o tempo todo, a natureza, o dia, as pessoas, mudam o tempo todo… Então, o que é real “Jisuuuis”??? Caros amigos, para os sábios e gurus de ontem e de hoje (como Eckhart Tolle, Deepak Chopra, etc) a única coisa real é sua alma, e todas as outras almas, pois elas são constantes e imortais… Fogo, revólver, acidentes, nada consegue destruir a alma, ou espírito, que é eterno e reencarna pra quem é de reencarnação ou vai para o paraíso (ou céu) pra quem é de céu! Logo, pode relax total com o resto porque tudo isso aqui, essa vida, sua casa, sua bolsa Louis Vuitton que você dividiu em 12 vezes, suas celulites, seu carro que já está ficando velho, seu time que perdeu o campeonato, são todos irreais!!!

Fácil falar né! A questão é (e você deve estar cansado (a) de me ouvir falando isso): apenas com a meditação, apenas com a experiência e ir além dos seus pensamentos e das suas sensações, é que você vai experienciar o que estou relatando e aí sim passar a dar muuuuuito menos valor a tolices como se descabelar por não ter a bota da moda, ou por ter levado um fora federal do(a) ex, por não ter o iPhone 4S-plus-mega-hyper… Você saberá (saberá mesmo, não só intelectualmente) e sentirá que além de tudo isso existe o que é real e isso é uma libertação maravilhosa e profunda!  Você conhecerá profundamente seu ego e reconhecerá quando ele estiver limitando sua vida, tentando te fazer pensar que certas coisas são mais importantes do que realmente são… Plus, bebidas, Maconha, LSD, Ayuasca, tudo isso é bobagem: a grande viagem, a grande onda, a grande visão, a grande paz, o grande relaxamento, vem mesmo com a meditação! A melhor das drogas  (droga no sentido de alterar seu estado mental de agitado – o estado mais comum em que vivemos – para um estado profundo de relaxamento e consciência elevada). Sacou?

Bom, voltando ao último dia: tirei algumas fotos do retiro e resolvi (como boa brasileira que sou) entrar escondidinha no Dhamma Hall pra tirar uma foto da sala mais energizada que já conheci e que acolheu minha meditação e meus pensamentos selvagens! Gente, uma coisa muito bizarra aconteceu: as fotos simplesmente não saíam… Bolas de luz embaçavam a foto, apesar de não ter luz forte, umidade ou nada do tipo que pudesse causar esse efeito. Senti que o recado era “Querida, esse lugar é sagrado e não foi feito pra ser cartão postal”.  A energia era muito alta e por isso as circunferências de luz, olhando melhor, parecem até ter profundidade, como se fossem auras. PS: a foto acima não é a do meu Dhamma Hall, mas é a do Dhamma Hall em algum outro centro Vipassana pelo mundo. Nossa sala era mais aconchegante, mas os colchonetes e a simplicidade da sala são os mesmos da minha. PS2 aqui: um mês antes de ir para o retiro eu estive no Brasil e fui dar uma volta na mata fechada do sítio do meu Pai. Andando no meio da mata eu conversei com os espíritos da mata (tá, sou meio doidinha, mas tudo bem) e pedi pra eles me darem um sinal de que existiam por meio das fotos que eu ia tirar. Saí tirando foto de galhos, folhas, etc. Caros amigos, em duas fotos que tirei próxima à uma árvore gigante, as mesmas bolas de luz do Dhamma Hall apareceram (menores, mas estão lá)!! Só posso creditar que a vida é muito
mais mágica e especial do que podemos imaginar!

Desisti das fotos. Voltei pro refeitório e comecei a limpar. Sou virginiana, então já viu né! Limpei até a alma do lugar!!! Definitivamente mora uma Amélia dentro de mim! Ah, esqueci de contar: o professor me chamou pra lembrar que eu não estava autorizada a ensinar Vipassana. Disse que claro, nem me sinto pronta. Na vida, eu acredito, a gente tem de dominar o melhor possível aquilo que ensinamos, e eu só estava (e estou) começando a explorar essa técnica. Depois da sessão faxina fui pegar meu celular, carteira, chave do carro… – era a vida mundana de volta… Peguei minha mala. Beijei e abracei todas as minhas colegas de encarceramento. Lasque-se a regra do não tocar ninguém! All we need is Love people, vamos abraçar!!!

Entrei no carro. Olhos marejados. Liguei pra minha mãe pra dizer que estava viva e tudo estava bem. No alô dela eu já estava chorando, as lágrimas corriam, mas aguentei firme pra não assustar ela né! Essas experiências intensas enchem o coração de amor e ficamos bem mais sensíveis que o “normal”.  Depois liguei pro meu irmão, mais lágrimas! Ele me perguntou se eu já tinha me iluminado, se tinha batido um papo com Buda, etc. Meu irmão sempre consegue dizer as coisas mais hilárias sobre minha jornada espiritual, principalmente porque não entende muito, mas adora opinar e tirar sarro. Eu acho um barato. Assim rio do que ele e as pessoas que não entendem muito podem estar pensando, ou julgando, dos “yoguinis-hippies-pé-sujos” como eu! PS: eu gosto de tomar banho e não mudo não!

Liguei o carro e saí na estrada de terra rodeada de árvores enormes próximas ao retiro. Quando alcancei o asfalto liguei o rádio. Onze dias sem música foram meu recorde. Curiosamente Bon Jovi tocava na única rádio local não-country. Apesar da música ser meio brega (olha o julgamento aí gente) não poderia ter caído melhor:

“It’s my life
It’s now or never
I ain’t gonna live forever
I just want to live while I’m alive
(It’s my life)
My heart is like an open highway
Like Frankie said
I did it my way
I just wanna live while I’m alive
It’s my life”

Realmente, assim como Bon Jovi (hehe), eu sou uma pessoa que vivo minha vida, cada dia mais, seguindo meus princípios (e não os da sociedade). Cada vez mais, graças a Deus, me esforço para ser autêntica e seguir meu coração, independente do que os outros pensam,
julgam, esperam de mim ou me recomendam. Realmente meu coração está aberto, como nunca antes. Realmente o importante é viver o agora, viver a sua vida (e não a vida dos seus amigos, vizinhos, colegas de trabalho ou celebridades que você passa horas seguindo em Twitter ou sites de fofoca). Realmente o que importa é o agora. É esse momento. É essa vida. Sua vida. Respira fundo, olha ao redor, sinta seu coração batendo. Você é único (a), esse momento é único. E ele é todo seu. Lágrimas seguiam correndo no meu rosto, o carro deslizava pelas estradas centenárias da Georgia. No rádio e na minha mente: “It’s my life”…

Beijo no coração e muuuuito Metta pra vocês. Namastê.

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Ser mãe é…

10 out

Ser mãe é…

Nunca mais dormir uma noite inteira

Saber fazer a dança do Mickey

Sentir culpa por trabalhar

Sentir muita culpa por ter que viajar a trabalho

Sentir mais culpa ainda por gostar de trabalhar

Lembrar de todos os detalhes da vida de seu filho ( e consequentemente esquecer dos seus)

Ter dor nas costas

Perder a coragem de fazer loucuras

Ter a coragem de fazer qualquer coisa por ele

Deixar o mau humor e a timidez de lado sempre que o assunto for seu filho

Nunca mais ver uma criança sem pensar na sua

Ver um menino adolescente e ao invés de pensar – que gatinho- imaginar como seu filho será quando for um ( tá isso é ser mãe e estar ficando velha)

Não fazer planos sozinha

Nunca mais ficar sozinha ( tá, eu sei que isso vai durar até uns 13 anos, mas deixa eu me enganar gente)

Ter o seu coração batendo fora do seu corpo, no corpo de alguém

Ver um pedaço seu virando gente

Ser mais responsável por medo de faltar para o seu filho ( até para atravessar a rua estou mais atenta)

Deixar o umbigo de lado e colocar alguém à frente de suas prioridades para o resto da vida

Babar muito a cada conquista ( hoje ele aprendeu a lavar os pés no banho. é um gênio.)

Amar sem esperar nada em troca

Aprender a fazer duas ou três coisas ao mesmo tempo

Adquirir uma visão raio-x imaginária, que te faz enxergar todos os possíveis perigos de um lugar

Saber o nome de todos os personagens do Backyardigans

Preparar alguém para vida

Ceder a televisão no horário nobre ( e nunca mais ver novela das oito)

Jamais , em hipóteese alguma, ficar incomunicável ( posso estar cobrindo a erupção de um vulcão, mas dou um jeito de achar um número para entrarem em contato caso necessário)

É voltar a ver e ouvir  Xuxa depois de quase 25 anos ( e perceber o quanto a voz dela é insuportável, mas suportar mesmo assim)

Tomar leite puro porque o Nescau está acabando e só dá para um

Deixar de comer o último pedaço da sua torta favorita só porque talvez ele possa querer mais tarde

É escolher um restaurante/bar pelo playground

É chegar atrasada na aula de pilates porque não teve coragem de acordar seu anjinho

Nunca mais chegar na hora certa em lugar algum ( por mais pontual que tenha sido a vida toda)

Ler todos as teorias sobre educação infantil que caírem em  suas mãos e na prática acabar seguindo seu instinto

É ter as paredes de casa rabiscadas, o sofá quebrado e não estar nem aí

É precisar ser dura mesmo quando sua vontade é morder

Descobrir que você sabia fazer tudo isso sem nunca ter aprendido

Dia 10 – quando a boca fala a meditação cala

3 out

Queridos leitores. Obrigada pela paciência. Minhas ausências são, quase sempre, baseadas em falta de inspiração mesmo. Escrever, ao meu ver, é uma arte. E, as vezes, me dou ao luxo de ser uma artista afetada que desaparece até sentir que tem algo de bom pra produzir. Enquanto minha escrita não for meu ganha-pão posso fazer isso né… Mas, olha, tudo para o bem de vocês viu. Pois nunca, nunquinha, quero dar apenas parte de mim aos meus textos. Ou me dou por inteira ou permaneço reclusa. Hoje aqui vai minha alma toda no último dia do meu retiro. Logo logo escrevo sobre o dia em que deixei o retiro e
voltei à vida “normal”. Boa leitura.

Acordei as cinco. Não tinha como seguir dormindo. Sábado chegou e com ele a promessa da volta da comunicação com o mundo externo. Externo ao meu mundo interno. Corri para o Dhamma Hall. Não queria perder tempo. “Será que minha iluminação vem hoje?”, me perguntei, ou melhor, me perguntou meu ego. “Quietinho. Me deixa curtir os últimos momentos”, falei pra ele. A dedicação à meditação foi intensa naquela manhã. Era como se minha alma pudesse prever o que estava por vir. Quando Goenka começou a cantar o mantra que finaliza a primeira meditação do dia não aguentei: lágrimas corriam pelo
meu rosto. Foi um choro silencioso, em gratidão pelo silêncio que consegui cultivar naqueles 10 dias.

Café da manhã. Todos ainda em silêncio. Ninguém falava nada, mas uma bruma de tristeza nos rondava. A manhã foi nublada, assim como nossos pensamentos. Como quebrar o silêncio? Como voltar a uma vida louca, cheia de dramas, de ansiedades, de mini-depressões, de julgamentos constantes, de distrações pra não enfrentar a realidade, de medo, de paixões, de apegos? Foi quando entendi. No fundo, seguíamos sendo reles mortais: só que dessa vez apegados à ilusão da nossa nova vida espiritual. Estávamos esquecendo o principal – que tanto na roda viva da vida quanto em um retiro silencioso, seguimos
sendo sempre alma. Somos alma com um corpo físico temporário, e não um corpo físico com uma alma temporária. Pensando assim não existe medo, pois tudo é eterno e ao mesmo tempo passageiro. Mas esse pensamento pareceu durar pouco na
minha mente.

A segunda meditação da manhã chegou e corri para o Dhamma Hall. Uma hora sem me mexer. As sensações no corpo lternavam-se: dor, fluxo de energia, sensações paradoxais para um mundo paradoxal. O professor saiu da sala, mas eu segui meditando até a hora em que minha bexiga não me permitiu mais. Dou o primeiro passo pra fora da sala e lá está o cartaz em letras garrafais. “ Final do período de silêncio. Alunos podem comunicar-se, porém, contato físico não é permitido durante todo o curso”. O “meditative mode” acabou aí mesmo minha gente. “Hein?? Tá falando que eu não posso abraçar minhas companheiras de prisão?? Helllooooo eu sou brasileira minha gente… Eu abraço, beijo, encosto… É da minha natureza” gritava minha mente… Parei. Respirei fundo. Vamos ver no que isso vai dar, pensei.

Fui rumo ao banheiro e, na entrada do Bangu, já tinha gente de ti-ti-ti. Foi meio chocante ver pessoas conversando. Passei reto. “Será que eu falo? Será que permaneço calada?”, pensava. Saí do banheiro e duas meninas olharam pra mim. “Você sabe se a reunião final é agora?”, perguntaram. Meus olhos se arregalaram “ Meu Deus, alguém falou comigo… O que faço??? Pânico”. Claramente elas viram minha cara de espanto e, uma delas, que estava fazendo o curso pela segunda vez, falou: “ eu sei o que você está sentido. Eu senti o mesmo da outra vez. Dá uma vontade de não falar. Dá medo de voltar pro mundo
né? Não se preocupe. Logo passa. Vamos lá na sala que eles indicaram pra ver o que está acontecendo”. Muda segui as duas meninas. “Vou tentar evitar falar o máximo possível. Assim mantenho minha paz interna por mais tempo”, decidi.

A decisão durou exatos 5 minutos. Depois desses 300 segundos encontrei minha vizinha de colchonete de meditação no hamma Hall e não me aguentei. “Oi! Você é minha vizinha de meditação né? Olha, me impressionei com você. Você não fazia barulho nenhum. Foi muito bom te ter ao meu lado viu”. Pronto, falei!!! E daí se foram mais 60 minutos ininterruptos de conversa, pois Hanna, uma garota de 23 anos, recém-formada em psicologia, era um doce e foi delicioso poder ter uma conversa bacana depois de tanto tempo. E lembrei o quanto eu amo me comunicar e conhecer gente nova. Sim, a troca, a conversa, as novas amizades, estão entre as coisas que mais amo e cultivo na minha vida! Esses insights das suas rincipais características, do que é super importante pra você, também vem com o Vipassana. É como se você finalmente stivesse recebendo o “Manual de você mesmo – tudo sobre a dor e a delícia de ser quem você é”, parafraseando Caetano.

No almoço foi aquela falação generalizada né… A mulherada ria, contava o que tinha sentido. O clima era de festa total gente!  sem DJ ou bebidinhas. Eram nossas almas se divertindo e dividindo o que passamos juntas. A comida estava especialmente gostosa e tivemos cookies e brownies de sobremesa.Ignorei total a lei do “não me toque” e dei um abraço apertado na minha companheira de quarto (e em várias outras colegas depois)! “Roomy I love you!!”, falei com toda a sinceridade do meu oração. “Love you too Hummingbird”, ela respondeu. Pra quem não sabe, hummingbird é o passarinho beija-flor. Hummingbird???”,
perguntei sem entender. “Sim. Te apelidei de hummingbird já no segundo dia, pois você não parava quieta nunca. Estava empre andando de uma lado para o outro, varrendo, limpando, caminhando depois do almoço. Igual a um hummingbird que voa de uma flor pra outra e não pára nunca”, Winnie, 45 anos, professora do Bronx, em NY,  explicou. Outras colegas de prisão confirmaram “é verdade Lívia. Você estava sempre saracutiando por aí” e rimos todas juntas!!

Depois do almoço seguimos para a segunda meditação obrigatória do dia e foi quando entendi a frase dita por Goenka na noite anterior “Onde tem conversa não tem meditação”. Pensa que minha meditação foi praticamente um desastre (estou julgando, o que os professores de meditação – inclusive eu -SEMPRE pedem pra gente não fazer, mas tudo bem). Só onseguia
pensar em todas as conversas que tive, as pessoas que conheci. Uma alegria muito genuína tomou conta de mim e ela não estava a fim de meditar não. No resto da tarde praticamente todas nós ignoramos a segunda meditação.Preferimos papear, claro! Me vi no quarto ao lado do meu, em uma roda de mulheres. Éramos cerca de 12, com idades entre 18 a 75 anos, falando sobre o que vivemos. Foi um dos momentos mais especiais dos 10 dias. Apesar da diferença de idade, de nacionalidade e de história de vida, éramos todas iguais, vivemos o mesmo desespero, o mesmo “orgasmo spiritual”, os mesmos questionamentos durante os 10 dias. Fiquei espantada em saber que apenas mais uma garota era professora de Yoga. O resto da mulherada nunca tinha meditado antes! “Uau, admiro vocês demais”, falei.  Nossa condição de humano nos mostra, diariamente, que somos todos um, mas, de forma quase diabólica, nosso ego nos leva a acreditar que somos piores ou melhores (logo, diferentes e separados) do que os outros. Talvez esse seja o maior desafio da humanidade: relembrar e genuinamente sentir que somos todos um, unindo nossos corações e sendo fraternais uns com os outros novamente.

A última aula com Goenka na TV foi divertida e ao mesmo tempo triste. O Dhamma Hall parecia vibrar de alegria. Estávamos contentes. Quando Goenka falou (não me lembro literalmente…) “Hoje é o décimo dia do curso. Parabéns, você conseguiu sobreviver”, caímos todos no riso. Me emocionei no final, claro, pois sabia não o veria novamente tão cedo. Mesmo Goenka estando em uma tela de plasma, não tem como não se apaixonar por ele! Ele é puro amor! Opa, falando em amor, foi nessa hora que também me dei conta que eu não dei bola nenhuma para os meninos. Durante o dia todo o contato com os homens foi liberado, mas, até onde me lembro, nenhuma moçoila (a não ser os casais que estavam lá meditando juntos) se interessou em conhecer nenhum rapaz. Interessante.

A rotina do dia foi totalmente ignorada e nos vimos todas, depois das 21h, ainda sem tomar banho. Me deixaram ser a primeira a enfrentar o chuveiro e pela primeira vez sequei meu cabelo usando um secador. Me senti tão mulher! Saí do banheiro cantando “Men, I feel like a woman” e rimos juntas! Juro! essas coisinhas tipo secar o cabelo, fazer a unha, limpar a sobrancelha, é o que temos como conceito de feminilidades. Me dei conta do meu apego à beleza…  Admirei ainda mais as freiras e monjas, que vivem sem nada disso e são felizes. Conversa vai conversa vem.  Onze da noite e ainda estamos de papo. A gerente não aguentou e passou pela nossa ala no Bangu pra botar ordem. “Bora dormir cambada”, foi provavelmente o que ela gostaria de dizer, mas acabou sendo bem gentil e nos pedindo pra ir descansar.

Amanhã é o último dia. Meditaremos pela manhã, tomaremos café, ajudaremos a limpar o Bangu pela última vez e aí sim seremos soltas para o mundo. “O mundo pode ser um lugar perigoso”, pensei. Juntei minhas mãos e
iniciei uma prece. Boa noite.

Namaste, beijo no coração e até logo.

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