Dia 10 – quando a boca fala a meditação cala

3 out

Queridos leitores. Obrigada pela paciência. Minhas ausências são, quase sempre, baseadas em falta de inspiração mesmo. Escrever, ao meu ver, é uma arte. E, as vezes, me dou ao luxo de ser uma artista afetada que desaparece até sentir que tem algo de bom pra produzir. Enquanto minha escrita não for meu ganha-pão posso fazer isso né… Mas, olha, tudo para o bem de vocês viu. Pois nunca, nunquinha, quero dar apenas parte de mim aos meus textos. Ou me dou por inteira ou permaneço reclusa. Hoje aqui vai minha alma toda no último dia do meu retiro. Logo logo escrevo sobre o dia em que deixei o retiro e
voltei à vida “normal”. Boa leitura.

Acordei as cinco. Não tinha como seguir dormindo. Sábado chegou e com ele a promessa da volta da comunicação com o mundo externo. Externo ao meu mundo interno. Corri para o Dhamma Hall. Não queria perder tempo. “Será que minha iluminação vem hoje?”, me perguntei, ou melhor, me perguntou meu ego. “Quietinho. Me deixa curtir os últimos momentos”, falei pra ele. A dedicação à meditação foi intensa naquela manhã. Era como se minha alma pudesse prever o que estava por vir. Quando Goenka começou a cantar o mantra que finaliza a primeira meditação do dia não aguentei: lágrimas corriam pelo
meu rosto. Foi um choro silencioso, em gratidão pelo silêncio que consegui cultivar naqueles 10 dias.

Café da manhã. Todos ainda em silêncio. Ninguém falava nada, mas uma bruma de tristeza nos rondava. A manhã foi nublada, assim como nossos pensamentos. Como quebrar o silêncio? Como voltar a uma vida louca, cheia de dramas, de ansiedades, de mini-depressões, de julgamentos constantes, de distrações pra não enfrentar a realidade, de medo, de paixões, de apegos? Foi quando entendi. No fundo, seguíamos sendo reles mortais: só que dessa vez apegados à ilusão da nossa nova vida espiritual. Estávamos esquecendo o principal – que tanto na roda viva da vida quanto em um retiro silencioso, seguimos
sendo sempre alma. Somos alma com um corpo físico temporário, e não um corpo físico com uma alma temporária. Pensando assim não existe medo, pois tudo é eterno e ao mesmo tempo passageiro. Mas esse pensamento pareceu durar pouco na
minha mente.

A segunda meditação da manhã chegou e corri para o Dhamma Hall. Uma hora sem me mexer. As sensações no corpo lternavam-se: dor, fluxo de energia, sensações paradoxais para um mundo paradoxal. O professor saiu da sala, mas eu segui meditando até a hora em que minha bexiga não me permitiu mais. Dou o primeiro passo pra fora da sala e lá está o cartaz em letras garrafais. “ Final do período de silêncio. Alunos podem comunicar-se, porém, contato físico não é permitido durante todo o curso”. O “meditative mode” acabou aí mesmo minha gente. “Hein?? Tá falando que eu não posso abraçar minhas companheiras de prisão?? Helllooooo eu sou brasileira minha gente… Eu abraço, beijo, encosto… É da minha natureza” gritava minha mente… Parei. Respirei fundo. Vamos ver no que isso vai dar, pensei.

Fui rumo ao banheiro e, na entrada do Bangu, já tinha gente de ti-ti-ti. Foi meio chocante ver pessoas conversando. Passei reto. “Será que eu falo? Será que permaneço calada?”, pensava. Saí do banheiro e duas meninas olharam pra mim. “Você sabe se a reunião final é agora?”, perguntaram. Meus olhos se arregalaram “ Meu Deus, alguém falou comigo… O que faço??? Pânico”. Claramente elas viram minha cara de espanto e, uma delas, que estava fazendo o curso pela segunda vez, falou: “ eu sei o que você está sentido. Eu senti o mesmo da outra vez. Dá uma vontade de não falar. Dá medo de voltar pro mundo
né? Não se preocupe. Logo passa. Vamos lá na sala que eles indicaram pra ver o que está acontecendo”. Muda segui as duas meninas. “Vou tentar evitar falar o máximo possível. Assim mantenho minha paz interna por mais tempo”, decidi.

A decisão durou exatos 5 minutos. Depois desses 300 segundos encontrei minha vizinha de colchonete de meditação no hamma Hall e não me aguentei. “Oi! Você é minha vizinha de meditação né? Olha, me impressionei com você. Você não fazia barulho nenhum. Foi muito bom te ter ao meu lado viu”. Pronto, falei!!! E daí se foram mais 60 minutos ininterruptos de conversa, pois Hanna, uma garota de 23 anos, recém-formada em psicologia, era um doce e foi delicioso poder ter uma conversa bacana depois de tanto tempo. E lembrei o quanto eu amo me comunicar e conhecer gente nova. Sim, a troca, a conversa, as novas amizades, estão entre as coisas que mais amo e cultivo na minha vida! Esses insights das suas rincipais características, do que é super importante pra você, também vem com o Vipassana. É como se você finalmente stivesse recebendo o “Manual de você mesmo – tudo sobre a dor e a delícia de ser quem você é”, parafraseando Caetano.

No almoço foi aquela falação generalizada né… A mulherada ria, contava o que tinha sentido. O clima era de festa total gente!  sem DJ ou bebidinhas. Eram nossas almas se divertindo e dividindo o que passamos juntas. A comida estava especialmente gostosa e tivemos cookies e brownies de sobremesa.Ignorei total a lei do “não me toque” e dei um abraço apertado na minha companheira de quarto (e em várias outras colegas depois)! “Roomy I love you!!”, falei com toda a sinceridade do meu oração. “Love you too Hummingbird”, ela respondeu. Pra quem não sabe, hummingbird é o passarinho beija-flor. Hummingbird???”,
perguntei sem entender. “Sim. Te apelidei de hummingbird já no segundo dia, pois você não parava quieta nunca. Estava empre andando de uma lado para o outro, varrendo, limpando, caminhando depois do almoço. Igual a um hummingbird que voa de uma flor pra outra e não pára nunca”, Winnie, 45 anos, professora do Bronx, em NY,  explicou. Outras colegas de prisão confirmaram “é verdade Lívia. Você estava sempre saracutiando por aí” e rimos todas juntas!!

Depois do almoço seguimos para a segunda meditação obrigatória do dia e foi quando entendi a frase dita por Goenka na noite anterior “Onde tem conversa não tem meditação”. Pensa que minha meditação foi praticamente um desastre (estou julgando, o que os professores de meditação – inclusive eu -SEMPRE pedem pra gente não fazer, mas tudo bem). Só onseguia
pensar em todas as conversas que tive, as pessoas que conheci. Uma alegria muito genuína tomou conta de mim e ela não estava a fim de meditar não. No resto da tarde praticamente todas nós ignoramos a segunda meditação.Preferimos papear, claro! Me vi no quarto ao lado do meu, em uma roda de mulheres. Éramos cerca de 12, com idades entre 18 a 75 anos, falando sobre o que vivemos. Foi um dos momentos mais especiais dos 10 dias. Apesar da diferença de idade, de nacionalidade e de história de vida, éramos todas iguais, vivemos o mesmo desespero, o mesmo “orgasmo spiritual”, os mesmos questionamentos durante os 10 dias. Fiquei espantada em saber que apenas mais uma garota era professora de Yoga. O resto da mulherada nunca tinha meditado antes! “Uau, admiro vocês demais”, falei.  Nossa condição de humano nos mostra, diariamente, que somos todos um, mas, de forma quase diabólica, nosso ego nos leva a acreditar que somos piores ou melhores (logo, diferentes e separados) do que os outros. Talvez esse seja o maior desafio da humanidade: relembrar e genuinamente sentir que somos todos um, unindo nossos corações e sendo fraternais uns com os outros novamente.

A última aula com Goenka na TV foi divertida e ao mesmo tempo triste. O Dhamma Hall parecia vibrar de alegria. Estávamos contentes. Quando Goenka falou (não me lembro literalmente…) “Hoje é o décimo dia do curso. Parabéns, você conseguiu sobreviver”, caímos todos no riso. Me emocionei no final, claro, pois sabia não o veria novamente tão cedo. Mesmo Goenka estando em uma tela de plasma, não tem como não se apaixonar por ele! Ele é puro amor! Opa, falando em amor, foi nessa hora que também me dei conta que eu não dei bola nenhuma para os meninos. Durante o dia todo o contato com os homens foi liberado, mas, até onde me lembro, nenhuma moçoila (a não ser os casais que estavam lá meditando juntos) se interessou em conhecer nenhum rapaz. Interessante.

A rotina do dia foi totalmente ignorada e nos vimos todas, depois das 21h, ainda sem tomar banho. Me deixaram ser a primeira a enfrentar o chuveiro e pela primeira vez sequei meu cabelo usando um secador. Me senti tão mulher! Saí do banheiro cantando “Men, I feel like a woman” e rimos juntas! Juro! essas coisinhas tipo secar o cabelo, fazer a unha, limpar a sobrancelha, é o que temos como conceito de feminilidades. Me dei conta do meu apego à beleza…  Admirei ainda mais as freiras e monjas, que vivem sem nada disso e são felizes. Conversa vai conversa vem.  Onze da noite e ainda estamos de papo. A gerente não aguentou e passou pela nossa ala no Bangu pra botar ordem. “Bora dormir cambada”, foi provavelmente o que ela gostaria de dizer, mas acabou sendo bem gentil e nos pedindo pra ir descansar.

Amanhã é o último dia. Meditaremos pela manhã, tomaremos café, ajudaremos a limpar o Bangu pela última vez e aí sim seremos soltas para o mundo. “O mundo pode ser um lugar perigoso”, pensei. Juntei minhas mãos e
iniciei uma prece. Boa noite.

Namaste, beijo no coração e até logo.

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7 Respostas to “Dia 10 – quando a boca fala a meditação cala”

  1. pin 5 de outubro de 2011 às 6:23 pm #

    não vejo a hora de saber como foi a volta à “civilização”! beijos ♥

    • Lívia Stábile 11 de outubro de 2011 às 9:41 am #

      Amada! EScrevo semana que vem! SAuuuuuu+beijos

  2. Tábhata 6 de outubro de 2011 às 5:30 pm #

    Lívia, seu texto é apaixonante! Uma pena você não ter ficado por lá um ano! Estou com a maior pena de perder estes relatos fantásticos.
    beijos

    • Lívia Stábile 11 de outubro de 2011 às 9:40 am #

      Obrigada Lindona! Adoro te ter de leitora! BEijos e saudade

  3. Babi 7 de outubro de 2011 às 11:29 am #

    Sabe que depois de todos esses capitulos eu fiquei com vontade de experimentar essa sensaçao tambem? Estou aguardando as cenas do ultimo dia… beijos

    • Lívia Stábile 11 de outubro de 2011 às 9:40 am #

      Lindona, com certeza tem um Vipassana CEnter na ITália! Dá uma pesquisada! Obrigada por seguir lendo! bjos

  4. pedromancha 7 de outubro de 2011 às 10:32 pm #

    Topa Troca de Links?
    Seriesemovie.blogspot.com

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