Dia 11 – de volta pra casa e o medo da vida mundana

20 out

 Bom dia Winnie!

Bom dia Hummingbird (passarinhobeija-flor em inglês, e meu apelido durante meu retiro de 10 dias em silêncio aprendendo a Meditação Vipassana)!

Foi bom levantar e poder dizer bom dia pra minha roommate! A escuridão ainda tomava conta do céu e a lua cheia nos banhava com sua luz prateada. Me arrumei rapidamente. Pontualmente às 6 da matina eu estava sentadinha no meu colchonete e com um sorriso no rosto me entreguei a última meditação do curso. Apesar da conversa estar liberada, não podíamos falar no Dhamma Hall, onde o silêncio é sempre lei. A hora passou rápido e no final da meditação escutamos, pela última vez, a voz de Goenka nos dando algumas dicas de como manter a prática diária, nos parabenizando pela coragem de nossa iniciativa e nos desejando muitas felicidades e Metta (amor em Pali).

Saí da sala emocionada. O combinado era tomar café, fechar as malas (que todas arrumamos na noite anterior) e ajudar a limpar todo o complexo Bangu, refeitório e o Dhamma Hall, pois um novo grupo chegaria na próxima quarta-feira. O café tinha todo o “restodontê” dos dias anteriores: sopa de quinoa, cookies, brownies, e tudo mais de gostoso. Até pipoca! A mulherada comeu alegremente e falamos do nosso medo de enfrentar a “realidade”. Para os textos Indus antigos, e para vários livros de mestres atuais, a única realidade é aquela que nunca muda. Nunca mesmo.

Então, o que é real? Seu trabalho muda o tempo todo, você (seu corpo e sua mente) muda o tempo todo, a natureza, o dia, as pessoas, mudam o tempo todo… Então, o que é real “Jisuuuis”??? Caros amigos, para os sábios e gurus de ontem e de hoje (como Eckhart Tolle, Deepak Chopra, etc) a única coisa real é sua alma, e todas as outras almas, pois elas são constantes e imortais… Fogo, revólver, acidentes, nada consegue destruir a alma, ou espírito, que é eterno e reencarna pra quem é de reencarnação ou vai para o paraíso (ou céu) pra quem é de céu! Logo, pode relax total com o resto porque tudo isso aqui, essa vida, sua casa, sua bolsa Louis Vuitton que você dividiu em 12 vezes, suas celulites, seu carro que já está ficando velho, seu time que perdeu o campeonato, são todos irreais!!!

Fácil falar né! A questão é (e você deve estar cansado (a) de me ouvir falando isso): apenas com a meditação, apenas com a experiência e ir além dos seus pensamentos e das suas sensações, é que você vai experienciar o que estou relatando e aí sim passar a dar muuuuuito menos valor a tolices como se descabelar por não ter a bota da moda, ou por ter levado um fora federal do(a) ex, por não ter o iPhone 4S-plus-mega-hyper… Você saberá (saberá mesmo, não só intelectualmente) e sentirá que além de tudo isso existe o que é real e isso é uma libertação maravilhosa e profunda!  Você conhecerá profundamente seu ego e reconhecerá quando ele estiver limitando sua vida, tentando te fazer pensar que certas coisas são mais importantes do que realmente são… Plus, bebidas, Maconha, LSD, Ayuasca, tudo isso é bobagem: a grande viagem, a grande onda, a grande visão, a grande paz, o grande relaxamento, vem mesmo com a meditação! A melhor das drogas  (droga no sentido de alterar seu estado mental de agitado – o estado mais comum em que vivemos – para um estado profundo de relaxamento e consciência elevada). Sacou?

Bom, voltando ao último dia: tirei algumas fotos do retiro e resolvi (como boa brasileira que sou) entrar escondidinha no Dhamma Hall pra tirar uma foto da sala mais energizada que já conheci e que acolheu minha meditação e meus pensamentos selvagens! Gente, uma coisa muito bizarra aconteceu: as fotos simplesmente não saíam… Bolas de luz embaçavam a foto, apesar de não ter luz forte, umidade ou nada do tipo que pudesse causar esse efeito. Senti que o recado era “Querida, esse lugar é sagrado e não foi feito pra ser cartão postal”.  A energia era muito alta e por isso as circunferências de luz, olhando melhor, parecem até ter profundidade, como se fossem auras. PS: a foto acima não é a do meu Dhamma Hall, mas é a do Dhamma Hall em algum outro centro Vipassana pelo mundo. Nossa sala era mais aconchegante, mas os colchonetes e a simplicidade da sala são os mesmos da minha. PS2 aqui: um mês antes de ir para o retiro eu estive no Brasil e fui dar uma volta na mata fechada do sítio do meu Pai. Andando no meio da mata eu conversei com os espíritos da mata (tá, sou meio doidinha, mas tudo bem) e pedi pra eles me darem um sinal de que existiam por meio das fotos que eu ia tirar. Saí tirando foto de galhos, folhas, etc. Caros amigos, em duas fotos que tirei próxima à uma árvore gigante, as mesmas bolas de luz do Dhamma Hall apareceram (menores, mas estão lá)!! Só posso creditar que a vida é muito
mais mágica e especial do que podemos imaginar!

Desisti das fotos. Voltei pro refeitório e comecei a limpar. Sou virginiana, então já viu né! Limpei até a alma do lugar!!! Definitivamente mora uma Amélia dentro de mim! Ah, esqueci de contar: o professor me chamou pra lembrar que eu não estava autorizada a ensinar Vipassana. Disse que claro, nem me sinto pronta. Na vida, eu acredito, a gente tem de dominar o melhor possível aquilo que ensinamos, e eu só estava (e estou) começando a explorar essa técnica. Depois da sessão faxina fui pegar meu celular, carteira, chave do carro… – era a vida mundana de volta… Peguei minha mala. Beijei e abracei todas as minhas colegas de encarceramento. Lasque-se a regra do não tocar ninguém! All we need is Love people, vamos abraçar!!!

Entrei no carro. Olhos marejados. Liguei pra minha mãe pra dizer que estava viva e tudo estava bem. No alô dela eu já estava chorando, as lágrimas corriam, mas aguentei firme pra não assustar ela né! Essas experiências intensas enchem o coração de amor e ficamos bem mais sensíveis que o “normal”.  Depois liguei pro meu irmão, mais lágrimas! Ele me perguntou se eu já tinha me iluminado, se tinha batido um papo com Buda, etc. Meu irmão sempre consegue dizer as coisas mais hilárias sobre minha jornada espiritual, principalmente porque não entende muito, mas adora opinar e tirar sarro. Eu acho um barato. Assim rio do que ele e as pessoas que não entendem muito podem estar pensando, ou julgando, dos “yoguinis-hippies-pé-sujos” como eu! PS: eu gosto de tomar banho e não mudo não!

Liguei o carro e saí na estrada de terra rodeada de árvores enormes próximas ao retiro. Quando alcancei o asfalto liguei o rádio. Onze dias sem música foram meu recorde. Curiosamente Bon Jovi tocava na única rádio local não-country. Apesar da música ser meio brega (olha o julgamento aí gente) não poderia ter caído melhor:

“It’s my life
It’s now or never
I ain’t gonna live forever
I just want to live while I’m alive
(It’s my life)
My heart is like an open highway
Like Frankie said
I did it my way
I just wanna live while I’m alive
It’s my life”

Realmente, assim como Bon Jovi (hehe), eu sou uma pessoa que vivo minha vida, cada dia mais, seguindo meus princípios (e não os da sociedade). Cada vez mais, graças a Deus, me esforço para ser autêntica e seguir meu coração, independente do que os outros pensam,
julgam, esperam de mim ou me recomendam. Realmente meu coração está aberto, como nunca antes. Realmente o importante é viver o agora, viver a sua vida (e não a vida dos seus amigos, vizinhos, colegas de trabalho ou celebridades que você passa horas seguindo em Twitter ou sites de fofoca). Realmente o que importa é o agora. É esse momento. É essa vida. Sua vida. Respira fundo, olha ao redor, sinta seu coração batendo. Você é único (a), esse momento é único. E ele é todo seu. Lágrimas seguiam correndo no meu rosto, o carro deslizava pelas estradas centenárias da Georgia. No rádio e na minha mente: “It’s my life”…

Beijo no coração e muuuuito Metta pra vocês. Namastê.

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9 Respostas to “Dia 11 – de volta pra casa e o medo da vida mundana”

  1. Babi 20 de outubro de 2011 às 11:54 am #

    Ainda bem que depois você vem aqui contar pra gente como foi. 🙂 Gosto muuuuito de seguir suas histórias, tão transparentes e interessantes.
    Beijos,
    Babi

    • Lívia Stábile 21 de outubro de 2011 às 9:41 am #

      Lindonaaa super obrigada por ler!! DEpois me escreve pra contar da pessoa que te passei os dados! BEijos

  2. Fabi Marques 20 de outubro de 2011 às 5:44 pm #

    Show amiga. Um dia ainda vou experimentar algo assim, e de preferência com você!

    Beijos e namastê

    • Lívia Stábile 21 de outubro de 2011 às 9:40 am #

      Se Deus quiser Amada esse dia chegará! Beijos e Sat Nam!

  3. Bel Fonseca 20 de outubro de 2011 às 6:25 pm #

    Linda história, Li. Aguardo sua próxima aventura ;D! Beijocas.

    • Lívia Stábile 21 de outubro de 2011 às 9:40 am #

      Obrigada Lindona! Super obrigada por ler! Beijos

  4. maildalyra 4 de novembro de 2011 às 4:01 pm #

    Assim como seu irmão eu também não entendo muito, mas não tenho dúvidas que: “Essas experiências intensas enchem o coração de amor e ficamos bem mais sensíveis que o “normal”.
    Seja lá qual for a forma que nós nos conectamos com nós mesmos sempre nos surpreendemos com nossas descobertas. Nossa capacidade é sempre maior do que conseguimos imaginar!!!
    Namastê (rsrsrs)

    • Lívia Stábile 14 de novembro de 2011 às 10:34 pm #

      Verdade Mailda! Existem diferentes formas de alcançar a mesma verdade e realização! Obrigada por ler! Beijo e Namastê!

  5. fbrito 7 de junho de 2012 às 3:26 pm #

    Obrigado por ter compartilhado conosco as suas experiências 🙂
    Me motivou ainda mais a começar a meditar!

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