Quinze minutos antes morrer

19 mar
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O cano gelado pressionava fortemente minha têmpora esquerda. Como se quisesse furar minha cabeça sem precisar apertar o gatilho. Nessa hora há pouco espaço para pensar e sentir qualquer coisa que não seja medo.

Eu derreti. As pernas bambearam e senti o suor brotar instantaneamente de minhas extremidades. Quanto mais ele colava seu corpo ao meu, mais eu suava.

Enquanto isso, eu aguardava que Milena conseguisse descer do carro para que eles pudessem partir. Finalmente minha amiga saiu, permanecendo estática diante de nós. Eu não conseguia enxergar a expressão do seu rosto, eu não via mais nada. Apenas respirava e aguardava que ele me soltasse e me deixasse desabar no chão.

Mas houve uma mudança de planos. Disseram algo que eu não pude ouvir. Fui arrastada para dentro do carro, que partiu numa arrancada, pude ver apenas a imagem de Milena se afastando na noite escura, imóvel. Até que não vi mais nada além de escuridão.

Ele sussurrava no meu ouvido. Dizia barbaridades, me ofendia. Mas eu não ouvia. Aquela história de que minutos antes da morte você um filminho da sua vida? Balela. Nada lhe vem à cabeça além de pânico. Por alguns instantes cheguei a tentar imaginar um modo de escapar. Tomar-lhe a arma da mão e atirar nos dois. Como se adivinhasse meus pensamentos ele imobilizou os meus braços.

– É só você fazer o que a gente pedir e vai ficar tudo bem – tentou me acalmar.

– Não me machuquem, por favor – implorei com o fio de voz que me restava.

O que eles queriam de mim? A primeira possibilidade que tomou meus pensamentos foi a de estupro. Amaldiçoei a saia que escolhi tão caprichosamente naquela noite. Bem que me disseram que com jeans estupro era quase impossível. A Milena está de jeans, eu deveria ter colocado aquela calça bordada.

-Não nos dê ideias. – disse o outro entre gargalhadas, como se tivesse lido meus pensamentos.

Ambos cheiravam a álcool e tinham um aspecto sujo, mal tratado. Cara de bandido. Exatamente o clichê que se espera de alguém  que vai te assaltar.

– Queremos seu dinheiro paty. Vamos parar num banco qualquer pra tirar toda sua grana.

Um arrepio frio percorreu meu corpo da cabeça aos pés. Eu estava sem cartão, não havia nada em minha micro-bolsa além de gloss e minha carta de motorista. Naquela hora eu soube que iria morrer.

– Olha, eu estou sem carteira. A gente estava indo a uma festa, sabe? Open bar. Não precisava de dinheiro – respondi tentando controlar o tremor da voz.

– Sua vaca mentirosa, nós vamos acabar com tua raça- ameaçou o outro.

– Passa tudo ou a gente vai te matar – ele disse apertando meu braço com uma força hercúlea.

– Não tenho, não tenho mesmo – respondi num sopro, mas eles não me ouviram.

A sensação de gelado do cano do revólver havia desaparecido. Como se eu já estivesse acostumada com aquela força na minha cabeça, como se meu corpo se preparasse para o pior. Súbito, percebi que não sentia mais nada. Nem as pernas, nem os braços. Apenas uma queimação estranha um pouco acima da minha orelha esquerda. Um líquido quente escorrendo. Sangue.

Atiraram? Mas nem ouvi o barulho.

Senti que arregalava os olhos e tentava perguntar por que eles haviam feito aquilo. Eu estava morrendo. Eu podia sentir que rapidamente minha vida se esvaía junto com o sangue que escorria. Não pensei no meu namorado, não pensei nos meus pais, não vi Deus e sequer me lembrei dele.  Não pensei em nada além da estupidez da minha morte. Senti apenas a dor e o esvaziamento do meu corpo. Reuni o fio de força que me restava e encarei meu assassino. Olhei-o nos olhos, disse filho-da-puta e morri.

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3 Respostas to “Quinze minutos antes morrer”

  1. Lívia Stábile 20 de março de 2012 às 2:18 pm #

    Nossa amiga… Adorei, mas bem forte e real né!!! Ufa!!! Adoro seus contos! BEijos

  2. Tábhata 5 de abril de 2012 às 5:44 pm #

    Oi, Fabi, sou amiga da Lívia e sempre que entro para ler os posts dela dou uma olhadinha nos seus também, espero que não se importe. Bem, o fato é que AMEI o seu conto! Sou uma leitora contumás, com especial predileção por textos de suspense, policiais e afins. Você tem um super talento! Espero vê-la em breve nas livrarias!
    Se tiver mais contos, e não se importar de compartilhar, eu adoraria lê-los.
    beijos

    • Fabi Marques 12 de abril de 2012 às 4:24 pm #

      Puxa Tábatha, muito obrigada. Eu tenho alguns contos, mas de suspense só esse mesmo… Volte sempre, vira e mexe publico um conto por aqui!

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