Arquivo | maio, 2012

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27 maio

Faz três semanas que comecei a estagiar em uma clínica para pessoas que são diagnosticadas com dois problemas mentais (sofrem de dois problemas ao mesmo tempo): vício (drogas, bebida, remédios, etc) e outro problema mental, como depressão profunda, bipolaridade ou esquizofrenia. O texto abaixo é o que eu gostaria de ler para cada uma delas. E gostaria que o coração delas realmente entendesse o que ele significa. Ao mesmo tempo, penso que ele serve para todos nós, pois todos temos pequenos ou grandes vícios (dos quais dependemos ou perseguimos para alcançar a tal felicidade) e pequenos ou grandes desafios mentais. A cada dia que passa, no meu estágio, sou mais grata pela vida que tenho, e sou tocada pelas histórias de cada um dos clientes que lá dividem suas histórias comigo. No fundo, somos todos peregrinos em busca do nosso verdadeiro eu. Que a verdade seja nosso guia nessa procura…

As long as you identify yourself as an addict, you will keep relapsing, for your mind will keep telling you that, since you are an addict, you must keep using your drug of choice to survive.

The development of a new identification or concept about yourself is paramount, in order to be able to create a new reality where your self-identification will not need to consume any drug or own anything outside yourself to be!

You have many options of new self-definition:

I am a soul in recovery

I am a soul in reconstruction

I am a pilgrim in search of my real self

I am walking towards my true personality

I am a heart listener

Those or any other self-concept has to be created by you so that you don’t rely on your previous tendencies to know that you exist… In order to feel part of this reality, in order to release the pressure in your chest and to silent the many voices in your mind.

Once the old identification is destroyed, space is created to born a new existence, a new perception of yourself, one that you can mold and color anyway you want to and that gives you freedom to be your true self.

There is no space for freedom in the realm of society-identification, pre-concepts or the past.

Truth comes from the soul, from the full expression of one that is a newborn every morning… One that rises from the shadows of the night to the brightness of the Sun.

One that opens his wings and has no fear to fly unknown territories, to meet unknown individuals, to build an innovative life.

Such flight is the one each of you must take. Believe in your power. Trust the sky. Open your wings and free yourself.

Beijo no coração e Namastê

Adeus, Antônio

24 maio

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Aqui no escuro, ainda posso sentir seu cheiro de loção pós-barba. Se fechar os olhos, sou capaz de sentir a aspereza de sua barba machucando de leve a minha pele sensível e o gosto de chiclete de canela misturado com tabaco.

Sua voz sussurrando meu nome. O calor da sua pele. Meu doce Antônio.  Está tudo guardado na minha memória, não consigo apagar. E mesmo que eu conseguisse esquecer, meu corpo lembraria tudo.

Isso explica o nó no estômago quando recebi a notícia de que havia se casado. Eu mal voltei a respirar, a andar com as próprias pernas e ele já tem outra razão de viver, na saúde e na doença, até que a morte os separe.

Eu quis ficar feliz, transcender a mundanidade do ciúme e da posse. E eu até consegui enganar um monte de gente, mas é meus olhos me delatam. Está tudo neles. Minha alma dilacerada, meu coração destroçado.

Em nosso último encontro, eu sabia que era a última vez. Dançamos a nossa música e tomamos o nosso vinho. Deitamos na varanda para ver as estrelas e o modo como ele acariciou o meu cabelo, quase paternal, não deixou espaço para ilusões românticas. Era um fim anunciado, sem surpresa. A lembrança do último beijo tem gosto de lágrima. Mas naquele momento a tristeza ainda era amiga e terna.

Hoje a tristeza é dor e desespero. Imagino que seja parecida com a dor de se perder alguém para a morte. E, de certa forma, meu Antônio morreu também. Pelo menos para mim.  É como se eu tivesse que preparar meu coração para dizer adeus. Meu corpo todo, aliás. E meu espírito.

Ainda que estivéssemos separados, estávamos juntos, na minha imaginação. Sentia nossas almas interligadas, afinal sempre soubemos que éramos almas gêmeas que ainda não tinham encontrado a hora certa de ficar juntas.  E o que mais me assombra e machuca, não é ele estar vivendo com outra, mas ele estar vivendo sem mim. Como o corpo dele pode suportar a ausência do meu?

Promete que nunca vai me esquecer? Ele pediu, e eu, mulher de palavra, cumpri a promessa. E olha que tenho bons motivos para não querer pensar em mais nada. Só que minha memória é seletiva. Sem muito esforço, ela se esqueceu de toda sensação esquisita e ruim dos últimos encontros, para reter apenas o seu olhar enquanto eu tirava a roupa, pedindo para ver minha nuca. Sua boca beijando de leve o meu peito. Nosso reflexo no espelho, e ele implorando para eu nunca o esquecer.

E quando, diante dessas reminiscências, um sorriso ameaça aparecer nos meus lábios, eu sinto de novo uma bola de espinhos no peito, cortando a pele por dentro, fazendo sangrar, e amargando minha boca. Sinto saudade da tristeza terna e amiga. Por que já não consigo senti-la? Qualquer coisa que não essa chuva de facas no meu peito.

São seis horas da manhã. E eu ainda estou aqui, em posição fetal, com os olhos querendo saltar do rosto, porque não aguentam mais chorar. Já nem sei se há lágrimas. Sinto-me seca, por fim. O corpo dói como depois de uma surra. Nessa luta me encheram de porrada, quebraram meu nariz e algumas costelas. Mas me deixaram viver. Respirar machuca, mas estou viva.

O sol tira meu quarto da penumbra e já não posso me esconder. À luz do dia minha dor parece estar diminuindo. A claridade desperta algo novo em mim. Quase posso ouvir meu coração recuperando ritmo. Que bom que você está aí meu amigo, sabia que podia contar contigo mais uma vez. Preciso levantar, vamos. Sei que você é capaz, é mais forte do que eu. Os hematomas permanecem, mas as feridas já não estão abertas. Meu corpo se prepara para enfrentar o dia. Estou pronta para quebrar minha promessa, Antônio, sinto muito e adeus.

O que que a baiana tem…

20 maio

Já pensei em escrever esse post muitas vezes, mas sempre acabo esquecendo. Voltei a pouco de uma viagem rápida pelo Brasil, então minha cabeça está fresca pra falar: eu AMO ser brasileira. Você só entende o quanto é fantástico ter nascido no Brasil quando você vai morar fora do Brasil!! Explico com uma listinha básica – que não está, necessariamente, em ordem de importância!

1)      Todo mundo adora brasileiro. Quando eu digo todo mundo estou dizendo TODO O MUNDO! Nunca sofri preconceito por ser brasileira (aqui nos EU muitos latinos sofrem preconceito dos brabos), pelo contrário, sempre que conto que sou do Brasil um sorriso amplo aparece na minha frente e muitos comentários positivos do tipo “Eu sou louco (a) pra conhecer o Brasil” vem na sequência.

2)      Explico porque as pessoas nos amam tanto (de acordo com relatos que recebi de pessoas. Que pessoas? Os gringos (as) e latinos (as) que conheço, oras!): porque nós somos LEGAIS!!! Parece explicação boba, então explico melhor: somos leves, alegres, divertidos, festeiros, amigos, flexíveis, otimistas, criativos, boa gente, animados, abertos a todo tipo de expressão e opção religiosa, artística, etc.

3)      Somos de bem com a vida. Minha gente, levando em consideração toda a miséria que ainda temos, todos os dramas que já passamos e ainda passamos, crises, escândalos, ditadura, roubalheira, etc, nunca deixamos a peteca cair! Nosso modo de lidar com desafios é bem mais leve e fácil do que em outros países. A explicação está no próximo parágrafo.

4)      Vivemos em  uma sociedade coletivista. Países como os EU tem uma sociedade individualista, o que significa que eles acreditam que o indivíduo deve ter sucesso e viver de maneira independente. Assim sendo, as pessoas são bem mais isoladas e menos emocionalmente ligadas umas as outras. Nós, ao contrário, damos muito valor à família e amigos e contamos com eles em momentos difíceis (e felizes). Esse “support-system” é fundamental para manter nosso bem-estar físico, psicológico e até espiritual! Pois, como já disse aqui muitas vezes, somos todos um. Somos todos irmãos e companheiros de jornada. Sendo humanos, precisamos dar e receber carinho, atenção, amor e contato. Esses quatro são fundamentais para viver bem!

5)      Somos flexíveis. Tenho relatos atuais de amigas que moram no Brasil de que estamos cada vez mais nos americanizando e sendo menos flexíveis. Fiquei com medo! Flexibilidade não é, pra mim, o famoso “jeitinho brasileiro”, mas sim nossa maneira de ver os problemas como desafios que podem ser solucionados se usarmos criatividade! Por favor, não vamos perder isso. Não vamos nos transformar em robôs que, quando algo fora do manual acontece, não sabe o que fazer, ou que simplesmente não pode mudar algo porque está fora do script.

6)      Fazemos piada de tudo. Certa noite, nessa minha viagem recente, passei mais de uma hora escutando o amigo do meu primo contando piadas (inclusive tirando sarro dele mesmo). Fazia tempo que não ria tanto. Mas fora o episódio das piadas, temos esse inerente jeito de rir de nós mesmos, dos nossos erros e vitórias! Isso é fundamental, pois mostra que não nos levamos tão a sério, ou melhor, não levamos nosso ego tão a sério! A vida fica mais divertida!

7)      Somos extremamente artísticos! Tudo é arte no Brasil! Desde as músicas mega-populares que deixam bem a desejar (fiquei bem decepcionada com a falta de nível do tal “sertanejo universitário” – com letras machistas, inclusive cantadas por mulheres) até artesanato com material inovador, dança, arte e televisão (apesar de ter muita coisa ruim também, ainda penso que a tv brasileira é bem melhor do que a americana, mas dessa vez não assisti pra confirmar minha teoria!). Temos essa capacidade artística elevada que mais uma vez comprova nossa sensibilidade de viver!

8)      Temos o coração e a mente abertos. Talvez isso seja o mais importante! Adoramos conhecer gente nova, comidas novas, lugares novos. Adoramos receber visita. Temos vários tipos de expressões religiosas, artísticas, políticas e seguimos vivendo em harmonia, Claro, críticas podem existir, mas não nos matamos ou guerreamos por isso! No máximo fazemos piada, fofoca e seguimos em frente!

9)      Somos da paz! Sim meus caros, somos da paz! Somos da turma do “deixa disso”. Somente em um país que arruma (inventa, melhor dizendo) guerra por tudo você entende a tranquilidade de ser da turma do deixa pra lá… Aqui o índice de suicídios e ex-soldados com sérios problemas mentais e viciados em drogas e álcool é altíssimo e uma realidade muito triste. Tirando as vidas que já foram tiradas, famílias sem pais, feridos, dinheiro gasto por nada… Agradeço todos os dias por ser de um país pacífico.

10)   Adoramos contato físico. Beijamos e abraçamos Deus e o mundo. Não tememos nem evitamos contato físico e isso também é essencial para o bem-estar. Várias pesquisas provam que o fator mais importante entre um bebê saudável – e sua sobrevivência com saúde – e um com problemas (de saúde ou desenvolvimento) é o contato físico com a mãe… Acho que isso já comprova meu argumento! Aqui nos Estates professor é proibido de encostar em aluno (tudo aqui pode virar um processo na justiça), coleguinhas de classe são proibidos de abraçar e ter contato… Eu pareço um ET aqui, pois abraço e beijo todo mundo que conheço! Mas não ligo não, divido meu amor e meu calor humano com todos! Talvez seja por isso que somos tão adorados! Não temos medo de tocar o outro, de rir, de aceitar as diferenças! Somos um povo Valente! Somos brasileiros!!

Beijo no coração meu povo Valente e Namastê!

Porque mudar de opinião vale a pena

16 maio

Quando ouvi falar da escritora ( letrista, vocalista, blogueira) Clara Averbuck pela primeira vez, acho que dando uma entrevista para o Jô, não gostei dela. Na época,  Clara era uma blogueira célebre que lançava seu primeiro livro. Assisti à entrevista toda, achei aquela gaúcha um tanto arrogante e decidi, por puro despeito: não li e não gostei.

Em 2010, Clara Averbuck ressurgiu na minha vida por meio do twitter, um RT interessante fez com que eu passasse a segui-la. Após alguns meses ela pagou o maior mico em rede nacional, ao participar do reality show Troca de Família e a forma como ela tirou sarro de si mesma, ganhou todo meu respeito e admiração. Fui, então, finalmente, ler seus livros.

À essa altura, Clara já tem quatro livros publicados (Máquina de Pinball”, “Das Coisas Esquecidas Atrás da Estante”, “Vida de Gato” e “Nossa Senhora da Pequena Morte”) e um filme baseado em sua obra. Mas, por incrível que pareça, nenhum deles pode ser encontrado nas livrarias. Com as edições esgotadas, tive que recorrer à internet para baixar  “Máquina de Pinball” e comprei diretamente da própria Clara um dos últimos exemplares de “Vida de Gato”.

A verdade é que cometi um erro: misturei a artista com a obra. O que as pessoas fazem com certa frequência sem nem perceber. E que é a coisa mais idiota do mundo. Pouco me importa se ela cantou mal na Bahia, se mistura remédio tarja preta com álcool ou se apaixona com velocidade avassaladora. Ela não é minha amiga, não preciso gostar dela para achar sua obra genial.  Só me importa que ela escreva bem. E isso ela faz.

O primeiro eu li sentada na sala de jantar dos meus pais, numa tela de computador, em duas horas e meia, sem parar nem para respirar. Era como se eu estivesse lendo os meus pensamentos, expressados de modo genial.

Clara escreve aos borbotões, seguindo o ritmo alucinado dos pensamentos de sua personagem, desassossegada, perdida, corajosa, frágil, irônica. Seu texto é visceral, possui uma força e uma verdade raras de se ver na literatura atual.

De modo geral, pelo menos nos dois livros que li, seus livros não se preocupam muito com a construção de um enredo. E isso não faz falta. Sua escrita é muito mais formada por fluxos de consciência, monólogos e reflexões do que por uma história propriamente dita. A história se passa basicamente dentro da cabeça da personagem, uma anti-heroína moderna. A influência de Jonh Fante e Bukowiski, seus ídolos declarados, é nítida.

Me apaixonei pelos seus textos. Recorri aos arquivos antigos de seus blogs brazileira!preta e adióslounge para matar a sede de leitura. E posso dizer, sem medo de errar, que mudar de opinião vale a pena. Clara Averbuck foi a minha maior descoberta literária dos últimos tempos. Recomendo super. Isso, se você conseguir achar os livros. Corra atrás dos sebos, você não vai se arrepender!

 

* Clara me mandou seguinte recado no twitter:

 ‏@claraaverbuck @fabimarques (meus livros serão todos republicados pela@editora7letras)
Ou seja, não precisaremos mais caçá-las nos sebos.

Ostra feliz não faz pérola

3 maio

Meus melhores textos nascem da dor. Sempre tive a impressão de que a maioria das expressões artísticas surgiu de um momento de dor. A tristeza, a angústia e a alma dilacerada são ótimos combustíveis para a criação. E nem precisa ser assim tão doído, pode ser uma dor-de-cotovelo besta. De uma fagulha de sofrimento dá para tirar muita coisa.

A felicidade é muito plana, com poucas nuances. Não é à toa que os contos de fadas terminam sempre antes do “felizes para sempre”. Não há muito para contar depois disso, a história não rende.

Imaginem se a Amy Winehouse, por exemplo, tivesse se casado com seu namoradinho da escola e tivesse tido três filhos lindos. Qual a probabilidade dela ter produzido o melhor disco da década? Ou se o Hemingway fosse um rapazola bem resolvido e feliz da vida. Teria sido capaz de escrever seus textos?

Parece exagero, mas não sou a única a pensar assim. Ostra feliz não faz pérolas, já diz o titulo de um livro do Rubem Alves.

Desde os 9 anos sou metida a escritora. E raramente tive motivos realmente dignos de sofrimento, então eu inventava. E sofria. E escrevia. Os amigos que me queriam bem não entendiam como eu podia ser tão dramática. Porque eu fazia tanta questão de chafurdar na lama dos meus pequenos dramas fantasiados. Diziam que eu gostava de sofrer, e estavam certos.  Mas é que essa aflição me fazia criar. E não há nada melhor do que se libertar de um sofrimento, escrevendo sobre ele.

Só que eu não sou a Amy Winehouse ou o Hemingway. Meus escritos não me renderam nunca nada e chegou uma hora que cansei de brincar e resolvi ser feliz.  Parei de bater a cabeça, casei, formei uma família com marido e filho de comercial de margarina.

Aí veio a crise. Meu Deus como é que vou escrever com essa vida perfeitinha. Escrever sobre o quê? Preciso sofrer, preciso de dor. Está tudo muito colorido. Quero cinza. Quero negro. Fui lá, cutuquei e a dor veio. Com ela, a criatividade brotando dos meus poros. Passei madrugadas ouvindo música, bebendo e escrevendo. Mas isso só foi possível porque meu marido estava morando parcialmente em outra cidade e meu filho era muito bebê para perceber minha crise existencial.

A crise passou e a fonte secou de novo. Nessa rotina de vida pacata e contente, onde tudo acontece dentro de um horário previamente combinado, sem muitas surpresas, não sobra muito espaço para madrugadas insones e criativas. Até porque no dia seguinte oito da manhã tem um ser me despertando com o sorriso mais delicioso do mundo. E geralmente passei a noite inteira numa cama quente, ao lado do meu amor. Talvez o preço de tanta felicidade seja esse mesmo, se esvaziar um pouco do drama, não ter muito o que contar.

Mas o que faço com esse desejo visceral de escrever? Por ora, tenho usado sofrimentos antigos, passados. Ou até mesmo emprestado sofrimento alheio. Porque depois que a gente descobre o quanto é bom ser feliz, não dá mais para voltar atrás. Pelo menos não voluntariamente. Será que ostra feliz realmente não produz pérola?

 

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