Ostra feliz não faz pérola

3 maio

Meus melhores textos nascem da dor. Sempre tive a impressão de que a maioria das expressões artísticas surgiu de um momento de dor. A tristeza, a angústia e a alma dilacerada são ótimos combustíveis para a criação. E nem precisa ser assim tão doído, pode ser uma dor-de-cotovelo besta. De uma fagulha de sofrimento dá para tirar muita coisa.

A felicidade é muito plana, com poucas nuances. Não é à toa que os contos de fadas terminam sempre antes do “felizes para sempre”. Não há muito para contar depois disso, a história não rende.

Imaginem se a Amy Winehouse, por exemplo, tivesse se casado com seu namoradinho da escola e tivesse tido três filhos lindos. Qual a probabilidade dela ter produzido o melhor disco da década? Ou se o Hemingway fosse um rapazola bem resolvido e feliz da vida. Teria sido capaz de escrever seus textos?

Parece exagero, mas não sou a única a pensar assim. Ostra feliz não faz pérolas, já diz o titulo de um livro do Rubem Alves.

Desde os 9 anos sou metida a escritora. E raramente tive motivos realmente dignos de sofrimento, então eu inventava. E sofria. E escrevia. Os amigos que me queriam bem não entendiam como eu podia ser tão dramática. Porque eu fazia tanta questão de chafurdar na lama dos meus pequenos dramas fantasiados. Diziam que eu gostava de sofrer, e estavam certos.  Mas é que essa aflição me fazia criar. E não há nada melhor do que se libertar de um sofrimento, escrevendo sobre ele.

Só que eu não sou a Amy Winehouse ou o Hemingway. Meus escritos não me renderam nunca nada e chegou uma hora que cansei de brincar e resolvi ser feliz.  Parei de bater a cabeça, casei, formei uma família com marido e filho de comercial de margarina.

Aí veio a crise. Meu Deus como é que vou escrever com essa vida perfeitinha. Escrever sobre o quê? Preciso sofrer, preciso de dor. Está tudo muito colorido. Quero cinza. Quero negro. Fui lá, cutuquei e a dor veio. Com ela, a criatividade brotando dos meus poros. Passei madrugadas ouvindo música, bebendo e escrevendo. Mas isso só foi possível porque meu marido estava morando parcialmente em outra cidade e meu filho era muito bebê para perceber minha crise existencial.

A crise passou e a fonte secou de novo. Nessa rotina de vida pacata e contente, onde tudo acontece dentro de um horário previamente combinado, sem muitas surpresas, não sobra muito espaço para madrugadas insones e criativas. Até porque no dia seguinte oito da manhã tem um ser me despertando com o sorriso mais delicioso do mundo. E geralmente passei a noite inteira numa cama quente, ao lado do meu amor. Talvez o preço de tanta felicidade seja esse mesmo, se esvaziar um pouco do drama, não ter muito o que contar.

Mas o que faço com esse desejo visceral de escrever? Por ora, tenho usado sofrimentos antigos, passados. Ou até mesmo emprestado sofrimento alheio. Porque depois que a gente descobre o quanto é bom ser feliz, não dá mais para voltar atrás. Pelo menos não voluntariamente. Será que ostra feliz realmente não produz pérola?

 

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4 Respostas to “Ostra feliz não faz pérola”

  1. Abner Moreira 3 de maio de 2012 às 10:25 pm #

    Ostra feliz não faz pérolas porque ela tem mais o que fazer. Looooooooooove ya!

  2. Marcos Paulo 24 de junho de 2012 às 12:18 am #

    Acontece o mesmo comigo: escrevo melhor em momentos de aflição, estudo mais às vésperas das provas mais difíceis, e por vezes pego-me procurando motivos para sofrer e me preocupar, tentando satisfazer as necessidades de produzir algo.

    Mas a conclusão desse texto me surpreendeu: “depois que
    a gente descobre o quanto é bom ser
    feliz, não dá mais para voltar atrás.” Fiquei com medo de encontrar essa felicidade: será que vale a pena?

  3. Fabi Marques 17 de outubro de 2012 às 11:09 am #

    Adoraria saber a resposta!

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