Adeus, Antônio

24 maio

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Aqui no escuro, ainda posso sentir seu cheiro de loção pós-barba. Se fechar os olhos, sou capaz de sentir a aspereza de sua barba machucando de leve a minha pele sensível e o gosto de chiclete de canela misturado com tabaco.

Sua voz sussurrando meu nome. O calor da sua pele. Meu doce Antônio.  Está tudo guardado na minha memória, não consigo apagar. E mesmo que eu conseguisse esquecer, meu corpo lembraria tudo.

Isso explica o nó no estômago quando recebi a notícia de que havia se casado. Eu mal voltei a respirar, a andar com as próprias pernas e ele já tem outra razão de viver, na saúde e na doença, até que a morte os separe.

Eu quis ficar feliz, transcender a mundanidade do ciúme e da posse. E eu até consegui enganar um monte de gente, mas é meus olhos me delatam. Está tudo neles. Minha alma dilacerada, meu coração destroçado.

Em nosso último encontro, eu sabia que era a última vez. Dançamos a nossa música e tomamos o nosso vinho. Deitamos na varanda para ver as estrelas e o modo como ele acariciou o meu cabelo, quase paternal, não deixou espaço para ilusões românticas. Era um fim anunciado, sem surpresa. A lembrança do último beijo tem gosto de lágrima. Mas naquele momento a tristeza ainda era amiga e terna.

Hoje a tristeza é dor e desespero. Imagino que seja parecida com a dor de se perder alguém para a morte. E, de certa forma, meu Antônio morreu também. Pelo menos para mim.  É como se eu tivesse que preparar meu coração para dizer adeus. Meu corpo todo, aliás. E meu espírito.

Ainda que estivéssemos separados, estávamos juntos, na minha imaginação. Sentia nossas almas interligadas, afinal sempre soubemos que éramos almas gêmeas que ainda não tinham encontrado a hora certa de ficar juntas.  E o que mais me assombra e machuca, não é ele estar vivendo com outra, mas ele estar vivendo sem mim. Como o corpo dele pode suportar a ausência do meu?

Promete que nunca vai me esquecer? Ele pediu, e eu, mulher de palavra, cumpri a promessa. E olha que tenho bons motivos para não querer pensar em mais nada. Só que minha memória é seletiva. Sem muito esforço, ela se esqueceu de toda sensação esquisita e ruim dos últimos encontros, para reter apenas o seu olhar enquanto eu tirava a roupa, pedindo para ver minha nuca. Sua boca beijando de leve o meu peito. Nosso reflexo no espelho, e ele implorando para eu nunca o esquecer.

E quando, diante dessas reminiscências, um sorriso ameaça aparecer nos meus lábios, eu sinto de novo uma bola de espinhos no peito, cortando a pele por dentro, fazendo sangrar, e amargando minha boca. Sinto saudade da tristeza terna e amiga. Por que já não consigo senti-la? Qualquer coisa que não essa chuva de facas no meu peito.

São seis horas da manhã. E eu ainda estou aqui, em posição fetal, com os olhos querendo saltar do rosto, porque não aguentam mais chorar. Já nem sei se há lágrimas. Sinto-me seca, por fim. O corpo dói como depois de uma surra. Nessa luta me encheram de porrada, quebraram meu nariz e algumas costelas. Mas me deixaram viver. Respirar machuca, mas estou viva.

O sol tira meu quarto da penumbra e já não posso me esconder. À luz do dia minha dor parece estar diminuindo. A claridade desperta algo novo em mim. Quase posso ouvir meu coração recuperando ritmo. Que bom que você está aí meu amigo, sabia que podia contar contigo mais uma vez. Preciso levantar, vamos. Sei que você é capaz, é mais forte do que eu. Os hematomas permanecem, mas as feridas já não estão abertas. Meu corpo se prepara para enfrentar o dia. Estou pronta para quebrar minha promessa, Antônio, sinto muito e adeus.

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2 Respostas to “Adeus, Antônio”

  1. Bianca 24 de maio de 2012 às 9:16 pm #

    Uau. Arrepiada. Parabéns

  2. Giu 24 de maio de 2012 às 11:31 pm #

    Puta que pariu

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