Arquivo | julho, 2012

Direitos iguais?

31 jul

Décadas atrás, umas senhoras que estavam cansadas de ficar em casa bordando, cozinhando, limpando e cuidando dos oito filhos, resolveram fazer uma revolução e queimaram seus sutiãs em praça pública pedindo direitos iguais para homens e mulheres. Tá, não foi exatamente assim, mas vocês entenderam. Foi uma vitória, um avanço, uma revolução. Mas acho que o resultado dessa revolução pode não ser exatamente o que elas tinham em mente.

Sim, hoje podemos votar. Sim, podemos – queremos, gostamos de — trabalhar, não há ~limites~ no mundo para esse gênero multifacetado que é o feminino. Entretanto, não importa o cargo que você ocupa no trabalho, quanto você ganha ou quantas horas você trabalhou no dia, se você chegar em casa e tiver uma pilha de louça suja ou um filho precisando de banho, adivinhem quem é que vai cuidar disso? Você minha querida amiga. Direitos iguais para quem?

Por melhor e mais participativo que seja seu marido ( e nem estou reclamando do meu, que é até acima da média. Love you Ju), na hora que o bicho pega, sobre sempre  para a mulher. Se o filho está de férias, o marido pode dar uma força, mas o encargo é da mãe. Se a empregada faltar, se a babá pedir as contas, o marido vai faltar do trabalho para cuidar da casa e dos filhos? Vai virar a madrugada fazendo serviços domésticos? Em 99% dos casos a resposta é não.

Quem não gostaria, depois de um dia cheio de trabalho, em que você resolve todos os pepinos do mundo, de sentar na sala com os pés para cima e abrir uma cerveja gelada assistindo a novela. E comer aquele prato delicioso que simplesmente brota na sua frente sem que você tenha feito qualquer esforço.  Daí é só dar um beijinho no seu filho amado, que já está banhado e de pijamas na cama, esperando apenas seu boa-noite. Eu gostaria e muito, mas minha realidade ( e acredito que de boa parte da população feminina casada e com filhos) é bem outra.

Reality bites. Mesmo quem tem babá e empregada todos os dias (o que não é meu caso), duvido que chega em casa e não faz mais nada. Nem que seja vestir aquele lingerie caprichado para animar o marido, numa noite em que não se está nada animada. Porque tem mais essa minhas amigas, além de profissional competente e boa mãe, você tem que estar linda e gostosa para seu marido Eu não sei vocês, mas aqui em casa as contas não batem!

É meio que uma maldição essa tal liberdade das mulheres. Na teoria, somos livres para fazermos tudo que quisermos, mas na prática simplesmente não damos conta. Simples assim. Eu me esforço ao máximo para não faltar com meu filho, no trabalho também é complicado baixar o nível. Resultado: ou minha casa fica meio desarrumada ou meu marido fica insatisfeito.

Não há horas suficientes no meu dia (tenho três trabalhos) para dar conta de tudo, ou ao menos, fazer tudo bem feito.  Ando sempre com aquela sensação de dívida, de dever não cumprido. Estou sempre me cobrando por aquilo que não fiz. É mais ou menos a sensação de andar na corda bamba, com as duas mãos ocupadas e um deadline para cumprir. Exaustivo, para dizer o mínimo.

E nesses dias de cão e excesso de tarefas, eu pergunto: valeu a pena queimar a porra dos sutiãs? Porque olha, as ultra feministas vão  me xingar, mas não sei não se eu não preferia estar em casa bordando, cozinhando e cuidando dos meus oito filhos. Tá, oito é demais, podia ser um só mesmo. Ok, ok, estou brincando ( mais ou menos)

Se você ainda não casou e nem tem filhos, não se assuste. Mas também não se iluda achando que com  você vai ser muuuito diferente. O que você pode fazer é educar seus filhos para que eles façam  diferente. É o que tento fazer com o meu!

Ah, e se você é homem e leu isso aqui até o fim, fica a dica: Antes de reclamar que a geladeira está vazia ou que sua mulher não tem tempo para você, coloque-se no lugar dela, nem que seja por cinco minutos.

Compro, logo existo

24 jul

Vivemos em um mundo onde ter uma bolsa de mais de dois mil reais é “fundamental” para estar na moda. Onde não saber qual é a celebridade do momento, e o que ele ou ela está fazendo nesse momento, e com quem, e usando que tipo de roupa, é estar absolutamente alienado (a) do mundo. Vivemos em um momento onde raramente pessoas sorriem para estranhos, ou mesmo para conhecidos, com real carinho e atenção. Vivemos em uma sociedade que respeita quem tem muito dinheiro, mesmo que seja corrupto, mesmo que seja mentiroso, mesmo que maltrate seus empregados ou sonegue imposto. Vivemos em uma realidade onde o medo impera. Onde nunca pode-se deixar a janela do carro aberta e sentir a brisa no rosto. Onde não se pode sair de casa sem o celular. E se o celular não for smart – você é um completo idiota. Onde não se pode ir a lugar algum sem postar uma foto ou adicionar um status dizendo onde você está, com quem você está e o que você está fazendo. Se você não postou, nunca aconteceu… Somos todos reféns de nós mesmos. Abrimos mãos da nossa liberdade de escolha, liberdade de ir e vir, privacidade, criatividade. Somos patéticos.

Desculpe a franqueza, mas hoje abro espaço para o meu lado crítico e bruto. Quem você pensa que é? Quem nós, brasileiros, americanos, cubanos, europeus, asiáticos, pensamos que somos?? Estamos todos tão perdidos e iludidos nessa roda viva que criamos. Estamos tão afundados na nossa rotina corrida, suada, sofrida, estressada, alienada, inconsciente. Trabalhamos como loucos pra ganhar dinheiro, pra gastar o dinheiro que fizemos pra ter de trabalhar mais pra pagar o que gastamos… e assim a roda gira, e assim os banqueiros e os industriais agradecem nossa santa ignorância e cegueira em manter essa sociedade de consumo vazia e podre. E, para retribuir nossa imbecilidade, eles nos oferecem generosamente as liquidações de fim de estação! Ah que maravilha! Nós, como robôs hipnotizados pelas músicas frenéticas que tocam nas lojas, compramos incessantemente e entregamos o cartão de crédito para o caixa com um sorriso nos lábios. Três segundos depois de pagar não lembramos mais a cara do caixa, ou a cara do vendedor que nos atendeu, ou o que estamos levando pra casa. Mas levamos. A sacola nos oferece um sensação de existir. Nos dá uma certa importância. A sacola nos oferece o sentir, nos tira do estado de dormência por alguns minutos. Compro, logo existo. Esse é o mantra do momento. Bem-vindo à “nova era”.

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