Compro, logo existo

24 jul

Vivemos em um mundo onde ter uma bolsa de mais de dois mil reais é “fundamental” para estar na moda. Onde não saber qual é a celebridade do momento, e o que ele ou ela está fazendo nesse momento, e com quem, e usando que tipo de roupa, é estar absolutamente alienado (a) do mundo. Vivemos em um momento onde raramente pessoas sorriem para estranhos, ou mesmo para conhecidos, com real carinho e atenção. Vivemos em uma sociedade que respeita quem tem muito dinheiro, mesmo que seja corrupto, mesmo que seja mentiroso, mesmo que maltrate seus empregados ou sonegue imposto. Vivemos em uma realidade onde o medo impera. Onde nunca pode-se deixar a janela do carro aberta e sentir a brisa no rosto. Onde não se pode sair de casa sem o celular. E se o celular não for smart – você é um completo idiota. Onde não se pode ir a lugar algum sem postar uma foto ou adicionar um status dizendo onde você está, com quem você está e o que você está fazendo. Se você não postou, nunca aconteceu… Somos todos reféns de nós mesmos. Abrimos mãos da nossa liberdade de escolha, liberdade de ir e vir, privacidade, criatividade. Somos patéticos.

Desculpe a franqueza, mas hoje abro espaço para o meu lado crítico e bruto. Quem você pensa que é? Quem nós, brasileiros, americanos, cubanos, europeus, asiáticos, pensamos que somos?? Estamos todos tão perdidos e iludidos nessa roda viva que criamos. Estamos tão afundados na nossa rotina corrida, suada, sofrida, estressada, alienada, inconsciente. Trabalhamos como loucos pra ganhar dinheiro, pra gastar o dinheiro que fizemos pra ter de trabalhar mais pra pagar o que gastamos… e assim a roda gira, e assim os banqueiros e os industriais agradecem nossa santa ignorância e cegueira em manter essa sociedade de consumo vazia e podre. E, para retribuir nossa imbecilidade, eles nos oferecem generosamente as liquidações de fim de estação! Ah que maravilha! Nós, como robôs hipnotizados pelas músicas frenéticas que tocam nas lojas, compramos incessantemente e entregamos o cartão de crédito para o caixa com um sorriso nos lábios. Três segundos depois de pagar não lembramos mais a cara do caixa, ou a cara do vendedor que nos atendeu, ou o que estamos levando pra casa. Mas levamos. A sacola nos oferece um sensação de existir. Nos dá uma certa importância. A sacola nos oferece o sentir, nos tira do estado de dormência por alguns minutos. Compro, logo existo. Esse é o mantra do momento. Bem-vindo à “nova era”.

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2 Respostas to “Compro, logo existo”

  1. Beta 26 de julho de 2012 às 8:49 am #

    oi, Prima. Como você está? sobre as relfexões da “nova era”, poderíamos conversar por dias e noites. Inescapável? Talvez. Provavelmente. Mas o juízo crítico nos ajuda a não afundar. Saudade de você e da sua casa em Ji-Pa.
    Beta

  2. Helga Nunes 27 de julho de 2012 às 8:42 am #

    Pois é, Lívia.. triste porém muito verdadeiro. A busca do “eu” real está aqui disponível para todos, basta esticar a mão e o resto vira banal, sem propósito… As “coisas” perdem seu valor e a vida ganha um sabor completamente diferente.. Basta você olhar ao lado uma vez somente e esta vida de faz de conta em que vivemos se desfaz por completo. Eu também fico indignada de vez em quando, mas algo me diz que todos temos o nosso próprio tempo e inevitavelmente o tempo de cada um chegará, faz parte da inteligência divina, seja ela qual for! Parabéns pela filosofia, por se importar, por cintribuir, como sempre! beijinhos,,, Hel ;lD

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