Separação

7 set

Desafiou o vento tentando acender um cigarro. Parecia se divertir com essa luta entre o fogo e o ar, que insistia em apagar a chama e embaraçar seus cabelos. Finalmente a chama venceu e Anna tragou demoradamente, com a satisfação de quem reencontra um antigo amigo após muitos anos de separação.

Caminhava a passadas largas, sem pressa, sem destino. Observou lugares pelos quais passou diariamente durante os últimos 15 anos, mas nunca havia realmente visto. Sentia a fumaça entrando pelos pulmões e se alastrando pelo resto do corpo, saboreava cada etapa daquele ritual.

Quinze anos. Quinze anos anestesiados, atropelados por desejos e prioridades que não eram seus. Quinze anos.

De repente seu corpo foi tomado por uma onda incontrolável de alegria, o riso contido desde sempre explodiu sem pedir licença. Gargalhava, lágrimas escorrendo pelos cantos dos olhos. As pessoas que a cruzavam na rua não podiam deixar de acompanhá-la na risada contagiante.

Sentia como se tivesse voltado à adolescência, quando tinha infinitas possibilidades. Era exatamente isso, a sensação de que poderia fazer tudo o que quisesse, poderia se arrepender, fazer de novo. Estava livre! Livre! Não sabia qual seria o próximo passo, não tinha nenhum plano para o mês que vem, sequer para o dia seguinte. E ao invés de se sentir aterrorizada, sentia-se estimulada.

Abriu a bolsa, tirou a carteira de identidade. Mal pôde se reconhecer na foto. Parecia tão mais velha. Passou os dedos sobre a fotografia, como se quisesse apagar a velhice, os anos de sofrimento e intolerância. Seus olhos lhe pareceram tristes no retrato e teve certeza de que neste momento eles brilhavam como nunca. Deu o último trago no cigarro. Descalçou as sandálias, dobrou cuidadosamente a barra da calça de sarja e sentiu a areia massageando seus pés. Vou pintar as unhas de vermelho. E vou tingir os cabelos de loiro. Ou vermelho também. Pensou alto sem conter o riso de satisfação.

Então sentiu a água gelada tocar seus pés. Abriu os braços, como se abraçasse o mar. Respirou fundo, sentiu a brisa em seu rosto, quase um afago. As lágrimas ainda escorriam, misto de felicidade e tristeza. Quanto tempo perdido. Olhou mais uma vez para o documento, tirou-o cuidadosamente do plástico e rasgou em quatro partes.

Virou-se e levantou os olhos para os prédios à beira-mar. Fixou o olhar em um deles, contou mentalmente os andares até sete. Lembrou-se da música : “Love of my life cant you see, bring it back bring it back, don’t take it away from me, because you don’t know what it means to me…”. Suspirou, sentindo uma ponta de chateação. Um pequeno incômodo, que não conseguia sobrepor-se ao alívio e à alegria daquele instante. Decidiu mergulhar.

Lá de cima, do sétimo andar, um homem a observava da sacada. Ao fundo Freddie Mercury soltava os pulmões. Ele segurava um copo duplo de uísque sem gelo e chorava compulsivamente. Destroçado, só agora ele sentia. E sentia muito. Tarde demais.

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2 Respostas to “Separação”

  1. Tábhata 7 de janeiro de 2014 às 2:45 pm #

    Oi, Fabi, li há um tempo mais esse excelente texto seu e adorei. Hoje, uma amiga decidiu sair de casa e não tive dúvidas, enviei para ela na hora. Resultado: ela e eu vamos tomar uma champa amanhã para comemorar!

    • Fabi Marques 7 de janeiro de 2014 às 2:50 pm #

      Puxa Tbahta, que honra! Espero que sua amiga seja muito feliz e sinta-se to livre quanto a personagem! Beijos

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