Arquivo | Conto RSS feed for this section

E agora?

31 jul

 

O moço ao lado pareceu se incomodar com o tamborilar de seus dedos no balcão do bar, mas ela fingiu não perceber. Sentada sozinha, inventava maneiras de se distrair sem que precisasse conversar com alguém. Deu mais um gole na pint de Guinness, que desceu amarga e quente. Mania que esses pubs têm de servir cerveja quente como se estivéssemos na Europa, pensou em voz alta e suspirou, atraindo novamente o olhar do moço ao seu lado, que dessa vez sorria.  Retribuiu com um sorriso sem dentes. Não estava a fim de fazer novos amigos, manter os antigos já era esforço suficiente.

Revirou a bolsa em busca de seu celular. Nenhuma ligação ou mensagem. Pensou em checar os emails ou tuitar alguma coisa, mas estava tentando se livrar do vício de navegar no celular a todo minuto.  Sentiu uma angústia crescente em seu peito e não conseguiu identificar o porquê. Devia ser porque estava esperando e odiava esperar. Estava absorta nesses pensamentos quando viu o amigo entrando no pub. Haviam sido muito próximos na época da faculdade, de fazer tudo juntos, mas não se viam pessoalmente há mais de dez anos. Finalmente a imagem borrada que tinha guardada em sua memória foi ganhando contornos mais vivos e realistas.

—  Oi! Desculpe o atraso, mas me enrolei lá no trabalho. – se explicou Saulo

—  Já estou na segunda cerveja! – ela respondeu empunhando orgulhosamente o copo

Foram longos segundos de estranhamento e timidez enquanto se olhavam sem poder dizer nada, tentando relembrar cada conversa trocada ao longo dos anos e combinar as frases ditas com os rostos e corpos ali presentes.

Ela sugeriu que ele se sentasse logo e começasse a beber. Optaram por permanecer ali mesmo no balcão. Parecia a opção mais acertada, assim estariam juntos, mas não apenas os dois, já que ainda não estavam à vontade.

Algumas horas e cervejas depois a intimidade que experimentaram no passado, já havia se estabelecido novamente. Riram um riso solto, genuíno. Empolgada durante alguma constatação maluca, ela tocou o braço dele de leve, sem querer.  O contato lhe causou uma reação estranha e inesperada, sensação que preferiu atribuir ao sexto pint de cerveja. Falaram em ritmo frenético, as palavras transbordando da língua, tentando condensar anos de falta de convivência em algumas horas.  Súbito, Saulo se ajeitou na banqueta, como se estivesse se preparando para anunciar algo muito importante.

— Que foi? – perguntou olhando pela primeira vez bem nos olhos dele.

— Eu não ia te contar, mas agora que estamos aqui frente a frente eu sinto que preciso compartilhar isso contigo.

— Fala logo.

— Estou com um pouco de vergonha. Promete que não vai me julgar?

— Eu? Te julgar? – questionou quase gargalhando.  – Logo você que conhece meu lado mais negro!

— Te contei que desde que marquei a data do casamento, estou me sentindo meio esquisito, né? Sempre fui todo correto e parece que agora estou sentindo necessidade de me libertar um pouco.

— Sei…

— Fico fantasiando umas coisas. Crio umas histórias na minha cabeça. Uma espécie de fuga, para me distrair do fato que nunca mais vou poder comer outra mulher na vida, acho.

—  Típico devaneio Sauliano. Tá, e daí? – ela comentou revirando os olhos

— Não é nada que eu realmente pense em concretizar, mas é que tem sido meio freqüente.

— Fala logo Saulo! Que porra de suspensa é essa?

—  Eu tenho fantasiado com você!

Surpresa, sentiu as bochechas queimando e o sangue de todo seu corpo correr em direção às maçãs do rosto. A sensação durou menos de cinco segundos. Logo lembrou que estava diante do seu brother e resolveu não dar muita importância à confissão repentina.

— Que falta de criatividade fantasiar bem comigo ein? – comentou pra quebrar o gelo.

Continuaram conversando por mais algum tempo sobre literatura, relacionamento, sexo e fantasias, da forma despretensiosa de sempre. Ele parecia absolutamente natural, como se nada tivesse acontecido.  Ela não. Aquela revelação tinha confundido sua cabeça. Não sabia se era o álcool, mas o fato é que agora não conseguia mais olhar diretamente nos olhos dele, pois temia que ele pudesse adivinhar o que se passava em sua cabeça. E o que ela pensava naquele momento era inconfessável, até mesmo para o seu melhor amigo.

 

De repente, tudo ficou sensual e com duplo sentido. A forma como ele pegava no copo, o jeito dele ajeitar o cabelo que insistia em cair sobre os olhos e até mesmo o modo como fungava o nariz a cada cinco minutos, por conta de uma rinite. Descobriu em Saulo um apelo sexual que nunca imaginara existir.

Por volta das 11 horas, conforme haviam combinado, foram conhecer o novo apartamento dele, recente aquisição que o deixava muito orgulhoso. Precisava compartilhar isso com você, ela havia dito.

Ao chegar, ele se serviu de uísque puro, sem gelo e ofereceu a ela uma dose misturada com água de coco, seu drink favorito.  Clara avaliou que talvez devesse parar de beber, mas já não tinha forças para tomar essa decisão sozinha. Enquanto ele preparava a bebida, ela percorreu os dedos pela coleção de cds exposta na estante da sala, somente bandas de rock pesado:  Black Crowes, Nine Inch Nails, Metallica. Nada muito romântico, pensou e balançou a cabeça, desaprovando o próprio pensamento. Estava prestes a escrutinar a estante de livros, mas neste exato momento ele voltou à sala com os dois copos na mão e um sorriso malandro. Entre um gole e outro, se olharam em silêncio. Ele tá me olhando diferente ou tô viajando por causa do que ele me contou?

O apartamento ainda não estava completamente mobiliado e era quase possível ouvir a tensão sexual se instalando e estendendo por todos os cômodos. Para sair daquela situação indefinida ela pediu pra ler um de seus textos, o que a princípio ele negou, alegando timidez. Ela continuou pedindo, quase insistente, porque não sabia mais o que fazer com aquele silêncio incômodo e achou que ler um conto dele pudesse dissipar a sensação. Ele acabou cedendo. Abriu um arquivo no computador e imprimiu duas folhas. Essa é uma das minhas fantasias com você, você se incomoda?

Hesitante, ela pegou os papéis e bateu os olhos rapidamente no texto. Algumas palavras fizeram seu sangue mais uma vez correr rapidamente para o rosto. Preferiu se levantar e continuar a leitura longe dele, perto da janela. Conforme a leitura avançava, uma onda de calor lhe tomava o corpo enquanto a razão ia sumindo de modo quase indisfarçável. As palavras começaram a se embaralhar. Ou eu tô muito bêbada ou eu tô seriamente a fim de ficar com ele.

— Qual parte você está lendo?

— A parte em que o cara finalmente beija a garota.

Então ele se colocou a apenas dois dedos de distância, atrás dela, sussurrando coisas ininteligíveis em seu ouvido. Ela sentiu as pernas amolecendo e um arrepio gostoso percorrendo a espinha. Tentou resistir, mas seu corpo não obedeceu. Inevitavelmente beijaram-se. Ele a encostou na parede, forçando seu corpo sobre o dela. Beijou seu pescoço bem devagar, queria reter na memória seu cheiro e seu gosto. Gostava dela. Sempre havia gostado. Aturdida pelo trinômio álcool, prazer e surpresa, Clara decidiu expurgar a culpa que sentia por estar ficando com o melhor amigo, comprometido, e se entregou.  Então lhe lançou um olhar que dispensava palavras e ele entendeu.

Meia-hora depois o suor pingava no chão e ele sentiu que poderia morrer ali, naqueles segundos que sucedem o gozo. Exangues e ofegantes, os dois se espalharam pelo chão, cada um para um lado, respirando devagar.

De um lado ela pensava E agora? Do outro, ele também.

 

 

 

 

Anúncios

Mundo dos Sonhos

16 set

Image

Os tambores tocavam em um ritmo lento e profundo. O calor da fogueira fez com que pequenas gotas de suor nascessem entre seus seios.

Ela entrou na tenda com um suspiro longo.

Seu mestre a esperava .

Um faixo de fogo, suficiente pra iluminar as duas almas e refletir a sombra de seus corpos, chamou sua atenção.

Não tinha volta…

Sua jornada, suas escolhas, o processo…

Ele lhe deu uma faca.

“Corte a ponta do seu dedo indicador esquerdo. Com as gotas faça um círculo onde ambos caibamos”, disse.

Um rápido tremor correu seu corpo, mas ela seguiu as instruções.

“Tire seu vestido, mas deixe o cabelo solto”, ele determinou.

O pudor da nudez já não fazia mais parte daquela relação. Muitas Luas já haviam se passado onde ambos estavam nus, próximos, mas não para o que estava por vir.

“Entre no círculo. Sente-se. Inicie a meditação que fizemos da última vez”.

Ela assim o fez. Não sabia dizer se foi a vibração da música lá fora, se foi a intenção daquela cerimônia, se foi a Lua crescente banhando seus companheiros de jornada que, tocando tambores, sabiam o que aconteceria; mas foi rapidamente levada para uma área de vegetação densa. Avistou um templo de colunas brancas e douradas. Caminhando vagarosamente em sua direção, sentiu a presença de seu mestre. Continuaram andando em silêncio.

No templo centenas de pessoas os esperavam. Mais tambores, a Lua os seguia. Subiram as escadas do templo. Ambos vestidos de branco. No alto, uma espécie de palco coberto de peles de animais. Duas fogueiras, uma à esquerda e outra à direita, iluminavam o local. Tiraram suas roupas. A batida da música era frenética, mas um silêncio profundo ditava o ritual. Deitada, nua, sentiu a meia-lua surgindo como uma queimadura em seu terceiro olho. Voltara à sua essência.  Seu mestre a penetrou vagarosamente. Ela abriu a boca, seus olhos se fecharam por um momento. Era a hora de sentir. Os cântigos começaram e, apesar de pressentir a familiaridade de tudo aquilo, não lembrava mais como cantá-los.

Se deixou levar pelo ritmo. Seu corpo movia-se de acordo com a pressão do corpo dele, de acordo com a sensação de que o Divino estava em cada milímetro de prazer. A certeza de que o sexo continha o segredo da criação do Universo… O sexo continha o segredo da cura. Sentiu-se a Sacerdotisa que por muitas primaveras abeçoou o solo, as águas, o ar, as borboletas daquela região. Seus olhos abertos concentravam-se somente nos olhos de seu mestre. Seu cheiro lhe remetia a algo conhecido, algo que por muito tempo ela permitiu que lhe tomasse por inteira. Suas mãos deslizaram pelas costas dele e tornou-se impossível não soltar gemidos, suspiros, palavras que saiam de forma primitiva de sua boca. Sons que ela não lembrava de onde vinham. Uma prece de êxtase, de gozo. Nada podia roubar sua liberdade. Alí não existia restrição. Alí ela era.

Contida pela vibração do momento, não soube definir quanto tempo havia passado até o final da cerimônia. Gentilmente, seu mestre a vestiu novamente. Entregou-lhe um cesta de flores brancas, colocou algumas das flores em seu cabelo. Beijou seus olhos, beijou seu queixo, testa. Passou seus dedos em seu cabelo. Abraçou-a. Sabiam que o trabalho estava encerrado e que finalmente aquela comunidade voltaria a receber as bençãos da Deusa. De mãos dadas desceram as escadas. Os tambores haviam parado. Escutava-se apenas o barulho da brisa. Um beija-flor dourado e azul cruzou seus corpos duas vezes e desapareceu entre a multidão. Seguiram caminhando em direção à mata.

Ao abrir os olhos já era manhã. Seu mestre estava sentado a sua frente, dentro do círculo.

“Bom trabalho”, ele disse, com um sorriso nos lábios. 

To be continued…

10 jun

Image

Ela abriu a porta.

Não disseram nada. Ele pegou a sua mão. Caminharam de mãos dadas. Era sua primeira vez naquela casa, mas ele instintivamente a guiou até o quarto.

Parou. Olhou nos olhos dela. Sorriu levemente. Ela respirava profundo. Seu rosto mostrava curiosidade, ansiedade  e certeza. Ele beijou-a levemente. Os lábios mornos  se tocaram. A saliva transformou o beijo em uma dança. As línguas aceleraram o ritmo.

Ele parou. Olhou pra ela novamente. Seus olhos continham uma ternura explícita e um tesão tímido que transpirava em seu corpo. Delicadamente, começou a desabotoar sua camisa. Ela olhava imóvel. Ele desvencilhou as alças do seu vestido sem pressa. Deixou à mostra seu colo, seus seios, sua carne. Involuntariamente ela se curvou, ainda contendo seu corpo da entrega final.

Ele pegou as suas mãos, posicionou-as em suas costas e a abraçou. Os corpos quase nus se tocaram pela primeira vez. A eletricidade fez ambos tremerem levemente. Sorriram. Ele beijou seu ombro, beijou seus seios, beijou seu ventre. Ela acariciou seu cabelos, seu pescoço. Seus dedos percorriam suavemente suas costas, sem pressa…

Eram duas almas antigas reencontrando-se mais uma vez. As vidas conjuntas foram tantas que não careciam de muito diálogo. O tempo era necessário apenas para explorar a carne nova, os novos formatos, o cheiro do presente. Passaram o resto da noite entre curvas, ângulos, expressões, texturas, gosto.

As primeiras palavras foram ditas ao amanhacer. “Seu suspiro continua doce”, ele disse.

Vendaval

5 maio

Image

Ironicamente, minha casa nova estava a poucos metros da sua. Você ainda morava só e, provavelmente, ainda atraía presas pra sua teia de ilusões…

Eu tinha visitas. Redecoraram os quartos. Mudaram as camas. Não entendi a falta de sensibilidade… O simbolismo foi claro… a vida muda sem pedir permissão. Olho pela janela, você está no meu território (novamente)… papeando como se o passado não nos unisse com memórias curtas, amargas, cínicas.

Uma mistura de surpresa, raiva, nojo, ressentimento, ansiedade e paralisia no meio da estranheza daquele momento. Meu único desejo era de vomitar… Vomitar em cima do castelo de areia que você ajudou a destruir. Vomitar na sua dissimulação, na sua bruxaria, na sua falsidade.

Chamei meus amigos, expliquei a situação. Detalhei o passado, o drama, a cena Mexicana que vivi graças a você. Pareceram compreender, mas seguiram escutando seu canto de sereia, seu mar de mentiras.

Cansei. Joguei meu batom e meu blush na sua cara já mascarada. Mais maquiagem pra disfarçar suas intenções mórbidas. Não tenho o livro de magia negra que você usou – pra poder lhe enviar sapos e escorpiões. Minhas armas são sempre brancas e não foram o suficiente no passado, nem hoje. Minutos depois você estava de volta.

Uma mistura de asco, de dor profunda, de coração aberto por milhares de pequeninos espinhos estava de volta. Pensei que o tempo tinha curado. Mentirosos. O tempo empoeira a dor que não foi medicada. Meu corpo pulsava na minha garganta.

Meu desejo era de esmagar sua cabeça contra a parede. De gritar no seu ouvido o que você fez, o que você crio, sua irresponsabilidade, sua falta de caráter, de ética… Respirei, engoli a raiva.

Com tom de voz baixo pedi, por favor, com as mãos em posição de reza, pra você ir embora. Falei que minha inabilidade em entender suas atitudes, sua maldade, seu plano milimetricamente arquitetado, ainda necessitavam luz e perdão.

Foi quando acordei. Agradecida por ser um sonho. Sonhos são o caminho nobre para o inconsciente, disse Freud. O meu ainda guarda tua sombra. Pensei que você poderia ter morrido. Pensei que sua alma penada decidira, durante o recreio no inferno, me assustar.

Internet. Descobri que você realmente morreu… morreu pra sua vida dissimulada, morreu pro seu papel de infligir dor, morreu. Não sei qual foi a surpresa maior: descobrir que você ainda mora em uma gaveta  empoeirada do meu inconsciente, ou descobrir que você está vivendo a vida mundana que sempre sonhou.

Separação

7 set

Desafiou o vento tentando acender um cigarro. Parecia se divertir com essa luta entre o fogo e o ar, que insistia em apagar a chama e embaraçar seus cabelos. Finalmente a chama venceu e Anna tragou demoradamente, com a satisfação de quem reencontra um antigo amigo após muitos anos de separação.

Caminhava a passadas largas, sem pressa, sem destino. Observou lugares pelos quais passou diariamente durante os últimos 15 anos, mas nunca havia realmente visto. Sentia a fumaça entrando pelos pulmões e se alastrando pelo resto do corpo, saboreava cada etapa daquele ritual.

Quinze anos. Quinze anos anestesiados, atropelados por desejos e prioridades que não eram seus. Quinze anos.

De repente seu corpo foi tomado por uma onda incontrolável de alegria, o riso contido desde sempre explodiu sem pedir licença. Gargalhava, lágrimas escorrendo pelos cantos dos olhos. As pessoas que a cruzavam na rua não podiam deixar de acompanhá-la na risada contagiante.

Sentia como se tivesse voltado à adolescência, quando tinha infinitas possibilidades. Era exatamente isso, a sensação de que poderia fazer tudo o que quisesse, poderia se arrepender, fazer de novo. Estava livre! Livre! Não sabia qual seria o próximo passo, não tinha nenhum plano para o mês que vem, sequer para o dia seguinte. E ao invés de se sentir aterrorizada, sentia-se estimulada.

Abriu a bolsa, tirou a carteira de identidade. Mal pôde se reconhecer na foto. Parecia tão mais velha. Passou os dedos sobre a fotografia, como se quisesse apagar a velhice, os anos de sofrimento e intolerância. Seus olhos lhe pareceram tristes no retrato e teve certeza de que neste momento eles brilhavam como nunca. Deu o último trago no cigarro. Descalçou as sandálias, dobrou cuidadosamente a barra da calça de sarja e sentiu a areia massageando seus pés. Vou pintar as unhas de vermelho. E vou tingir os cabelos de loiro. Ou vermelho também. Pensou alto sem conter o riso de satisfação.

Então sentiu a água gelada tocar seus pés. Abriu os braços, como se abraçasse o mar. Respirou fundo, sentiu a brisa em seu rosto, quase um afago. As lágrimas ainda escorriam, misto de felicidade e tristeza. Quanto tempo perdido. Olhou mais uma vez para o documento, tirou-o cuidadosamente do plástico e rasgou em quatro partes.

Virou-se e levantou os olhos para os prédios à beira-mar. Fixou o olhar em um deles, contou mentalmente os andares até sete. Lembrou-se da música : “Love of my life cant you see, bring it back bring it back, don’t take it away from me, because you don’t know what it means to me…”. Suspirou, sentindo uma ponta de chateação. Um pequeno incômodo, que não conseguia sobrepor-se ao alívio e à alegria daquele instante. Decidiu mergulhar.

Lá de cima, do sétimo andar, um homem a observava da sacada. Ao fundo Freddie Mercury soltava os pulmões. Ele segurava um copo duplo de uísque sem gelo e chorava compulsivamente. Destroçado, só agora ele sentia. E sentia muito. Tarde demais.

Adeus, Antônio

24 maio

Imagem

Aqui no escuro, ainda posso sentir seu cheiro de loção pós-barba. Se fechar os olhos, sou capaz de sentir a aspereza de sua barba machucando de leve a minha pele sensível e o gosto de chiclete de canela misturado com tabaco.

Sua voz sussurrando meu nome. O calor da sua pele. Meu doce Antônio.  Está tudo guardado na minha memória, não consigo apagar. E mesmo que eu conseguisse esquecer, meu corpo lembraria tudo.

Isso explica o nó no estômago quando recebi a notícia de que havia se casado. Eu mal voltei a respirar, a andar com as próprias pernas e ele já tem outra razão de viver, na saúde e na doença, até que a morte os separe.

Eu quis ficar feliz, transcender a mundanidade do ciúme e da posse. E eu até consegui enganar um monte de gente, mas é meus olhos me delatam. Está tudo neles. Minha alma dilacerada, meu coração destroçado.

Em nosso último encontro, eu sabia que era a última vez. Dançamos a nossa música e tomamos o nosso vinho. Deitamos na varanda para ver as estrelas e o modo como ele acariciou o meu cabelo, quase paternal, não deixou espaço para ilusões românticas. Era um fim anunciado, sem surpresa. A lembrança do último beijo tem gosto de lágrima. Mas naquele momento a tristeza ainda era amiga e terna.

Hoje a tristeza é dor e desespero. Imagino que seja parecida com a dor de se perder alguém para a morte. E, de certa forma, meu Antônio morreu também. Pelo menos para mim.  É como se eu tivesse que preparar meu coração para dizer adeus. Meu corpo todo, aliás. E meu espírito.

Ainda que estivéssemos separados, estávamos juntos, na minha imaginação. Sentia nossas almas interligadas, afinal sempre soubemos que éramos almas gêmeas que ainda não tinham encontrado a hora certa de ficar juntas.  E o que mais me assombra e machuca, não é ele estar vivendo com outra, mas ele estar vivendo sem mim. Como o corpo dele pode suportar a ausência do meu?

Promete que nunca vai me esquecer? Ele pediu, e eu, mulher de palavra, cumpri a promessa. E olha que tenho bons motivos para não querer pensar em mais nada. Só que minha memória é seletiva. Sem muito esforço, ela se esqueceu de toda sensação esquisita e ruim dos últimos encontros, para reter apenas o seu olhar enquanto eu tirava a roupa, pedindo para ver minha nuca. Sua boca beijando de leve o meu peito. Nosso reflexo no espelho, e ele implorando para eu nunca o esquecer.

E quando, diante dessas reminiscências, um sorriso ameaça aparecer nos meus lábios, eu sinto de novo uma bola de espinhos no peito, cortando a pele por dentro, fazendo sangrar, e amargando minha boca. Sinto saudade da tristeza terna e amiga. Por que já não consigo senti-la? Qualquer coisa que não essa chuva de facas no meu peito.

São seis horas da manhã. E eu ainda estou aqui, em posição fetal, com os olhos querendo saltar do rosto, porque não aguentam mais chorar. Já nem sei se há lágrimas. Sinto-me seca, por fim. O corpo dói como depois de uma surra. Nessa luta me encheram de porrada, quebraram meu nariz e algumas costelas. Mas me deixaram viver. Respirar machuca, mas estou viva.

O sol tira meu quarto da penumbra e já não posso me esconder. À luz do dia minha dor parece estar diminuindo. A claridade desperta algo novo em mim. Quase posso ouvir meu coração recuperando ritmo. Que bom que você está aí meu amigo, sabia que podia contar contigo mais uma vez. Preciso levantar, vamos. Sei que você é capaz, é mais forte do que eu. Os hematomas permanecem, mas as feridas já não estão abertas. Meu corpo se prepara para enfrentar o dia. Estou pronta para quebrar minha promessa, Antônio, sinto muito e adeus.

Quinze minutos antes morrer

19 mar
Imagem
O cano gelado pressionava fortemente minha têmpora esquerda. Como se quisesse furar minha cabeça sem precisar apertar o gatilho. Nessa hora há pouco espaço para pensar e sentir qualquer coisa que não seja medo.

Eu derreti. As pernas bambearam e senti o suor brotar instantaneamente de minhas extremidades. Quanto mais ele colava seu corpo ao meu, mais eu suava.

Enquanto isso, eu aguardava que Milena conseguisse descer do carro para que eles pudessem partir. Finalmente minha amiga saiu, permanecendo estática diante de nós. Eu não conseguia enxergar a expressão do seu rosto, eu não via mais nada. Apenas respirava e aguardava que ele me soltasse e me deixasse desabar no chão.

Mas houve uma mudança de planos. Disseram algo que eu não pude ouvir. Fui arrastada para dentro do carro, que partiu numa arrancada, pude ver apenas a imagem de Milena se afastando na noite escura, imóvel. Até que não vi mais nada além de escuridão.

Ele sussurrava no meu ouvido. Dizia barbaridades, me ofendia. Mas eu não ouvia. Aquela história de que minutos antes da morte você um filminho da sua vida? Balela. Nada lhe vem à cabeça além de pânico. Por alguns instantes cheguei a tentar imaginar um modo de escapar. Tomar-lhe a arma da mão e atirar nos dois. Como se adivinhasse meus pensamentos ele imobilizou os meus braços.

– É só você fazer o que a gente pedir e vai ficar tudo bem – tentou me acalmar.

– Não me machuquem, por favor – implorei com o fio de voz que me restava.

O que eles queriam de mim? A primeira possibilidade que tomou meus pensamentos foi a de estupro. Amaldiçoei a saia que escolhi tão caprichosamente naquela noite. Bem que me disseram que com jeans estupro era quase impossível. A Milena está de jeans, eu deveria ter colocado aquela calça bordada.

-Não nos dê ideias. – disse o outro entre gargalhadas, como se tivesse lido meus pensamentos.

Ambos cheiravam a álcool e tinham um aspecto sujo, mal tratado. Cara de bandido. Exatamente o clichê que se espera de alguém  que vai te assaltar.

– Queremos seu dinheiro paty. Vamos parar num banco qualquer pra tirar toda sua grana.

Um arrepio frio percorreu meu corpo da cabeça aos pés. Eu estava sem cartão, não havia nada em minha micro-bolsa além de gloss e minha carta de motorista. Naquela hora eu soube que iria morrer.

– Olha, eu estou sem carteira. A gente estava indo a uma festa, sabe? Open bar. Não precisava de dinheiro – respondi tentando controlar o tremor da voz.

– Sua vaca mentirosa, nós vamos acabar com tua raça- ameaçou o outro.

– Passa tudo ou a gente vai te matar – ele disse apertando meu braço com uma força hercúlea.

– Não tenho, não tenho mesmo – respondi num sopro, mas eles não me ouviram.

A sensação de gelado do cano do revólver havia desaparecido. Como se eu já estivesse acostumada com aquela força na minha cabeça, como se meu corpo se preparasse para o pior. Súbito, percebi que não sentia mais nada. Nem as pernas, nem os braços. Apenas uma queimação estranha um pouco acima da minha orelha esquerda. Um líquido quente escorrendo. Sangue.

Atiraram? Mas nem ouvi o barulho.

Senti que arregalava os olhos e tentava perguntar por que eles haviam feito aquilo. Eu estava morrendo. Eu podia sentir que rapidamente minha vida se esvaía junto com o sangue que escorria. Não pensei no meu namorado, não pensei nos meus pais, não vi Deus e sequer me lembrei dele.  Não pensei em nada além da estupidez da minha morte. Senti apenas a dor e o esvaziamento do meu corpo. Reuni o fio de força que me restava e encarei meu assassino. Olhei-o nos olhos, disse filho-da-puta e morri.

O pior dia da minha vida – e de outras vidas também

2 ago

Naquela noite me vesti inteira de preto, coisa que nunca faço, como se eu  estivesse de luto pelo que estava por vir. Saí meio contrariada e cheguei à festa já querendo ir embora. Passei a noite em um canto, observando. Duas latas de cerveja quente chegaram às minhas mãos e foram deixadas , depois de um gole, no último degrau da escada da boate. Eu ainda não gostava de cerveja naquela época, ainda mais quente.

Eu e o objeto de minha afeição nos cruzamos no corredor e mal nos olhamos. Era nosso primeiro encontro depois daquele dia. Tive  a certeza que faltava para ir embora. Quatro da manhã intimei as amigas que estavam de carona comigo e paramos numa lanchonete antes de ir pra casa.

Lá reencontrei um amigo das antigas e demos uma volta de carro. Ele estava animado e tinha mil coisas para contar. Eu ouvi tudo sem muita atenção, queria ir para casa. Deixei-o novamente na lanchonete e liguei o piloto automático. Já eram mais de cinco da manhã e passei em todos os sinais vermelhos. Desacelerava, buzinava e seguia em frente. No último sinal antes de chegar em casa, passei direto – na mudança do amarelo para o vermelho- , sem desacelerar.

Do outro lado da cidade uma turma de amigos saía da festa do peão. O casal de irmãos lotou o carro de colegas para dar carona. Passava das cinco da manhã e eles já deviam estar cansados e sonolentos. Faltava apenas uma amiga para ser deixada em casa quando passaram pelo sinal verde daquele cruzamento fatídico.

Minha memória então dá um salto. Estou no meio da rua, em estado de choque, observando uma menina ensangüentada no porta molas de um carro. Da minha boca saía : desculpa, desculpa, desculpa. Na minha frente um menino desesperado me respondeu: que desculpa o quê! Minha irmã, minha irmã!

Flashes. Uma amiga segurando minha mão e ligando para os meus pais. A ex-namorada do meu irmão me dizendo que eu precisava ir ao hospital dar pontos na minha cabeça. Polícia, ambulância, multidão. Desculpa, desculpa, desculpa.

Horas depois acordei em um quarto de hospital. Meus pais e irmão me rodeavam com cara de enterro. Eu estava inteira e sem dor. Passei a mão na cabeça e senti os fios espetando. Flashback. Porta malas. Menina ensangüentada. Desculpa, desculpa, desculpa.

Perguntei da menina. Desconversaram. Fechei os olhos e devo ter dormido mais um pouco. Acordei e perguntei novamente. Agora entraram no quarto meu pai, meu irmão e meu tio. Já dava pra imaginar que a resposta seria aquela que eu não queria ouvir.

— A menina não resistiu e morreu.

Choro, soluço, medo, pânico e desespero. Piores minutos da minha vida. Piores dias da minha vida. Pior ano. Desculpa, desculpa, desculpa.

Eu gostaria muito que o texto acima fosse apenas uma crônica, um conto. Mas não é. É a vida real em sua pior manifestação e a minha pior lembrança.

Não costumo esconder essa passagem da minha vida, até porque ela faz parte de quem sou. Mas por motivos óbvios não tenho orgulho algum do que aconteceu e não é um assunto que se puxe á toa. Fui condenada por homicídio culposo, prestei dois anos de serviço comunitário e perdi a carteira de motorista pelo mesmo período. Sei que isso não é nada, estou viva. O pior é conviver com a responsabilidade, ainda que acidental, pela morte de outra pessoa. É saber que um pai e uma mãe diariamente sofrem a ausência de uma filha e devem me odiar por isso.

Na época decidiu-se que seria melhor eu não entrar em contato com eles. Hoje me arrependo. Hoje sou mãe e sei a raiva que eles devem ter de mim. Imagino e compreendo a necessidade que eles devem ter de me odiar.  E imagino a diferença que poderia ter feito  olhá-los nos olhos e pedir perdão. Tempos depois, numa sessão de terapia, pedi um perdão  “virtual”.  Mas não é a mesma coisa. Se eu pudesse, pediria perdão — e de joelhos.

Até hoje não consigo ver um carro de resgate sem sentir arrepios e um pouco de ânsia. Chorei incontáveis noites. Por muito tempo  lembrei da garota falecida  diariamente.  Há algum tempo consegui me desvencilhar um pouco dessa lembrança. Mas sempre que algo muito bom acontece comigo, como  quando casei e quando meu filho nasceu, sinto uma ponta de tristeza ao pensar que ela não teve a chance de ter nada disso. E ela só tinha 21 anos.

Hoje faz 13 anos que aquela garota morreu num acidente de carro, atingida por um carro que eu dirigia. Os pais dela e seu irmão devem estar tristes. E eu estou triste também. Gostaria que eles soubessem disso e, de alguma forma, se sentissem reconfortados.

* Duas amigas me fizeram ver o motivo pelo qual tornei pública essa história. Além do perdão da família, também estava precisando do meu perdão. E escrever sobre isso, é uma forma de me perdoar também.

Incômodo

14 jun

Depois de dez anos, a antiga turma da faculdade decidiu fazer um encontro. O primeiro desde que ela havia se formado.  Ao receber o convite, surpreendeu-se pensando nele, imaginando se ele estaria lá.  Na década que separava a formatura daquele convite, conviveu pouco com os colegas da faculdade. E ele, seu professor e  amante, desapareceu por completo.

O dia da reunião chegou e ela se preparou psicologicamente para não pensar nele. Travou uma luta intensa com seus demônios internos. Ainda assim, enquanto escolhia a roupa que ia vestir, um pequeno pensamento escapou de seu controle e ela se viu sorrindo, ao lembrar dele dizendo  “ Por que você se preocupa com a roupa, se eu gosto  de você de pijama?”.

 

Preparou um copo de vodka com suco de pêssego. Já tinha tomado dois antes mesmo de terminar a maquiagem. Queria que o álcool anestesiasse suas emoções, apagasse suas expectativas. Deu uma última olhada no espelho e acreditou que a vodka estivesse fazendo efeito, estava linda.

Chegou à festa sozinha, como sempre. Sentiu-se um pouco tímida, mas logo encontrou o olhar de uma amiga querida e aproximou-se da roda.  Os colegas falavam alto e derrubavam cerveja. Meia- hora depois, recordou exatamente porque não tinha feito amigos na faculdade.  Cansava rapidamente de ouvi-los vangloriar-se de sua inteligência.  “Pseudo-intelectuais de merda”.

 

Procurou o balcão de bebidas, em busca de salvação.  Avistou uma garrafa de vodka perdida entre as caixas de cerveja.  Teve que misturar com guaraná, sem gelo. “É o que tem pra hoje”. O primeiro gole arranhou a garganta, causando repulsa. Insistiu no segundo gole e no quarto já descia macio.  Filou um cigarro.  Outro grupo de amigos discutia a queda de um ministro com fervor quase religioso. Depois de se ver no meio da discussão, que não fazia o menor sentido,  olhou ao redor, em busca de socorro. A amiga querida veio ao seu encontro.

– Viu quem tá aqui também?

– Quem?

– Nosso professor preferido.

Ninguém soube de seu relacionamento com Reynaldo. Além do tabu em torno de relações professores x alunos, ele era casado. E ela, na época, também namorava. Ana fingiu surpresa, como se a ideia dele estar ali nunca lhe tivesse passado pela cabeça. Ameaçou perguntar “onde”, mas não foi preciso. Ele estava parado em sua frente, de costas. Antes que pudesse se decidir entre cumprimentá-lo naquele minuto ou esperar um pouco mais, ele foi para o fundo da festa, sentou-se numa mesa de pseudo-intelectuais e permaneceu escondido ali pelas duas horas seguintes.

Já havia perdido as contas de quantas doses tinha tomado, quanto cigarros havia filado e estava prestes a entrar involuntariamente, mais uma vez, na discussão sobre a queda do ministro, quando sentiu uma mão lhe tocar as costas. Ao virar-se, ele já tinha se afastado. Ainda não haviam sequer cruzado um olhar. Dez anos de silêncio e agora aquilo. A indiferença doía demais.

Algumas pessoas começaram a ir embora e o clima mais intimista tornou impossível a missão de manter a distância. Então seus olhares se cruzaram, rapidamente, algumas vezes. Frações de segundos, insuficientes para enviar qualquer tipo de mensagem.  Após uma dessas trocas de olhares, Reynaldo se levantou de forma brusca, fez um aceno geral e partiu.  Sem pensar duas vezes, Ana virou o último copo, apagou o cigarro e levantou atrás dele.

– Ei. Espera!

Ele virou-se para trás, contrariado.

– Cara, você não vai nem falar comigo?

– O que você quer que eu diga?

– Pode começar me dizendo oi.

– Oi.

– Por que você não quer falar comigo?

– Porque eu não tenho nada para te falar.

– Mas eu tenho!

– Então diga.

A decisão da separação foi mútua. Ela não queria destruir o casamento dele. Ele não queria fazer ninguém sofrer. Decisão tomada, ensaiaram o adeus por algumas semanas, sempre voltando atrás. Até que ele desapareceu sem aviso prévio. Foi uma mudança brusca. E ela sofreu. Mais pelo costume do que por amor.. A ausência doía. E não havia nada de físico que pudesse fazê-la relembrar. Não existia uma foto, uma carta, um presente. Não tinham amigos em comum que pudessem dar notícias. Ele virou um fantasma em suas memórias. A distância lhe trouxe incertezas. E de tanto repetir a mesma meia dúzia de histórias, passou a duvidar que elas tivessem realmente acontecido.

– O que eu te fiz?

– Olha, não acho que seja a hora de conversar. Você bebeu.

–  E daí? Você também bebeu.

– Mas eu sei beber.

– Me responde.

– Ana, volta pra festa e me deixa ir embora.

– Você não tem o direito de ser tão frio comigo, porra.

– Eu não sei o que você quer de mim, sério.

– Eu preciso saber.

– Eu não vejo como esse papo vai te ajudar em alguma coisa.

– Quero entender como de uma hora para outra nos tornamos completos desconhecidos.

– Não foi de uma hora para outra.

– Foi. Você simplesmente nunca mais me atendeu ou respondeu meus emails. Nunca. – gritou

– Você tá alterada.

– Pare de me tratar como uma menina de 15 anos.

–Pare de se comportar como uma então.

– Só quero confirmar que eu não inventei tudo sozinha.

–Pra quê?

Nesse momento Ana se aproximou de Reynaldo, que permanecia de cabeça baixa.

– Eu preciso saber.

– Porra, Ana. Achei que depois de tanto tempo você tivesse começado a entender como funciona o mundo.

– Não tenho o menor interesse em saber como funciona o mundo, só quero saber como funciona a sua cabeça! Eu sei que você fez o que tinha que ser feito, Rey. Não sou idiota. Mas tanta indiferença… Não entendo. Juro.

Ele respirou fundo, como se buscasse fôlego para uma prova olímpica. Levantou a cabeça e a olhou de frente, pela primeira vez. Permaneceu assim por alguns instantes. Ela não conseguiu definir se aquele olhar era de impaciência, raiva, saudade ou medo. Talvez fosse uma mistura de todas essas coisas. Ou talvez esses fossem os sentimentos dela. Já não sabia mais dizer.

– Depois de se chegar aonde chegamos, tão fundo, não dá para voltar atrás. Não dá pra sermos cordiais, civilizados. É tudo ou nada.

– Não existe um meio termo?

– Não para nós. Porque sempre vai haver um momento em que um de nós dois vai estar carente ou de saco cheio. E nessa hora vai ser difícil não pensar no quanto a gente se encaixava um no outro, como a gente  entendia o que o outro queria dizer antes mesmo de dizê-lo.  Vamos imaginar se ainda seria tão gostoso enroscar minha perna na sua. E aí, fode tudo. De novo.

Ela não soube o que responder. Havia imaginado aquela conversa tantas vezes e em seus delírios ela nunca tinha ido por aquele caminho. Chegou a se imaginar batendo nele, com toda sua fúria. Ele pediria perdão por sua ausência injustificada e ela lhe daria às costas.  Conseguiria expurgar seus fantasmas, arrancar da memória aquelas lembranças incômodas. Mas não. Estavam ali, imóveis, com todos os seus fantasmas  e nada mais a dizer.

– Vou nessa. Vá para sua casa, que você bebeu demais.

Ela permaneceu calada. Ficou ali de pé, observando ele sair com o carro e desaparecer mais uma vez.


 

Monólogo

3 maio

M.

Depois de tanto tempo, decidi responder.  Antes que você mergulhe de vez na loucura que criou. 

Me espanta que você questione a natureza dos meus sentimentos. Depois de tantas outras coisas, é o meu silêncio que você vai escolher como lembrança? É realmente necessário explicar que meu distanciamento é justamente o oposto da frieza e indiferença?  Não está claro que eu simplesmente não tenho opção? Que preciso me afastar pra te esquecer. Porque lembrar dói. E falar contigo significa abrir espaço para que lembranças me assolem. E com elas a memória do seu cheiro, do seu gosto e do seu jeito único de me olhar.

Não, eu não sou frio e insensível como você me pinta. Eu sou fraco e vulnerável. Você sabe disso melhor do que ninguém. Aliás, foi justamente por isso que você se apaixonou por mim. Lembra? Eu era o homem sensível com quem você sempre sonhou. Até você me transformar num monstro cruel e sem sentimentos.

E não venha me dizer que você ainda gosta de mim (te conheço demais para acreditar nisso). Porque é sua vaidade que te faz me procurar.  Sua indignação com minha suposta indiferença. Puro egoísmo de menina mimada.

É só se lembrar que já esgotamos todas as possibilidades de ficarmos juntos sem nos destruir.  Que a melhor coisa para sua vida, foi eu ter saído dela. E que sumir, talvez, tenha sido a única coisa boa que fiz por você. O resto é fantasia.

Então, não (nos) enlouqueça.   Me deixe viver sem seu fantasma me rondando. Vá ser feliz – e me deixe tentar também.

Boa sorte.

Um beijo.

Z.

%d blogueiros gostam disto: