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E agora?

31 jul

 

O moço ao lado pareceu se incomodar com o tamborilar de seus dedos no balcão do bar, mas ela fingiu não perceber. Sentada sozinha, inventava maneiras de se distrair sem que precisasse conversar com alguém. Deu mais um gole na pint de Guinness, que desceu amarga e quente. Mania que esses pubs têm de servir cerveja quente como se estivéssemos na Europa, pensou em voz alta e suspirou, atraindo novamente o olhar do moço ao seu lado, que dessa vez sorria.  Retribuiu com um sorriso sem dentes. Não estava a fim de fazer novos amigos, manter os antigos já era esforço suficiente.

Revirou a bolsa em busca de seu celular. Nenhuma ligação ou mensagem. Pensou em checar os emails ou tuitar alguma coisa, mas estava tentando se livrar do vício de navegar no celular a todo minuto.  Sentiu uma angústia crescente em seu peito e não conseguiu identificar o porquê. Devia ser porque estava esperando e odiava esperar. Estava absorta nesses pensamentos quando viu o amigo entrando no pub. Haviam sido muito próximos na época da faculdade, de fazer tudo juntos, mas não se viam pessoalmente há mais de dez anos. Finalmente a imagem borrada que tinha guardada em sua memória foi ganhando contornos mais vivos e realistas.

—  Oi! Desculpe o atraso, mas me enrolei lá no trabalho. – se explicou Saulo

—  Já estou na segunda cerveja! – ela respondeu empunhando orgulhosamente o copo

Foram longos segundos de estranhamento e timidez enquanto se olhavam sem poder dizer nada, tentando relembrar cada conversa trocada ao longo dos anos e combinar as frases ditas com os rostos e corpos ali presentes.

Ela sugeriu que ele se sentasse logo e começasse a beber. Optaram por permanecer ali mesmo no balcão. Parecia a opção mais acertada, assim estariam juntos, mas não apenas os dois, já que ainda não estavam à vontade.

Algumas horas e cervejas depois a intimidade que experimentaram no passado, já havia se estabelecido novamente. Riram um riso solto, genuíno. Empolgada durante alguma constatação maluca, ela tocou o braço dele de leve, sem querer.  O contato lhe causou uma reação estranha e inesperada, sensação que preferiu atribuir ao sexto pint de cerveja. Falaram em ritmo frenético, as palavras transbordando da língua, tentando condensar anos de falta de convivência em algumas horas.  Súbito, Saulo se ajeitou na banqueta, como se estivesse se preparando para anunciar algo muito importante.

— Que foi? – perguntou olhando pela primeira vez bem nos olhos dele.

— Eu não ia te contar, mas agora que estamos aqui frente a frente eu sinto que preciso compartilhar isso contigo.

— Fala logo.

— Estou com um pouco de vergonha. Promete que não vai me julgar?

— Eu? Te julgar? – questionou quase gargalhando.  – Logo você que conhece meu lado mais negro!

— Te contei que desde que marquei a data do casamento, estou me sentindo meio esquisito, né? Sempre fui todo correto e parece que agora estou sentindo necessidade de me libertar um pouco.

— Sei…

— Fico fantasiando umas coisas. Crio umas histórias na minha cabeça. Uma espécie de fuga, para me distrair do fato que nunca mais vou poder comer outra mulher na vida, acho.

—  Típico devaneio Sauliano. Tá, e daí? – ela comentou revirando os olhos

— Não é nada que eu realmente pense em concretizar, mas é que tem sido meio freqüente.

— Fala logo Saulo! Que porra de suspensa é essa?

—  Eu tenho fantasiado com você!

Surpresa, sentiu as bochechas queimando e o sangue de todo seu corpo correr em direção às maçãs do rosto. A sensação durou menos de cinco segundos. Logo lembrou que estava diante do seu brother e resolveu não dar muita importância à confissão repentina.

— Que falta de criatividade fantasiar bem comigo ein? – comentou pra quebrar o gelo.

Continuaram conversando por mais algum tempo sobre literatura, relacionamento, sexo e fantasias, da forma despretensiosa de sempre. Ele parecia absolutamente natural, como se nada tivesse acontecido.  Ela não. Aquela revelação tinha confundido sua cabeça. Não sabia se era o álcool, mas o fato é que agora não conseguia mais olhar diretamente nos olhos dele, pois temia que ele pudesse adivinhar o que se passava em sua cabeça. E o que ela pensava naquele momento era inconfessável, até mesmo para o seu melhor amigo.

 

De repente, tudo ficou sensual e com duplo sentido. A forma como ele pegava no copo, o jeito dele ajeitar o cabelo que insistia em cair sobre os olhos e até mesmo o modo como fungava o nariz a cada cinco minutos, por conta de uma rinite. Descobriu em Saulo um apelo sexual que nunca imaginara existir.

Por volta das 11 horas, conforme haviam combinado, foram conhecer o novo apartamento dele, recente aquisição que o deixava muito orgulhoso. Precisava compartilhar isso com você, ela havia dito.

Ao chegar, ele se serviu de uísque puro, sem gelo e ofereceu a ela uma dose misturada com água de coco, seu drink favorito.  Clara avaliou que talvez devesse parar de beber, mas já não tinha forças para tomar essa decisão sozinha. Enquanto ele preparava a bebida, ela percorreu os dedos pela coleção de cds exposta na estante da sala, somente bandas de rock pesado:  Black Crowes, Nine Inch Nails, Metallica. Nada muito romântico, pensou e balançou a cabeça, desaprovando o próprio pensamento. Estava prestes a escrutinar a estante de livros, mas neste exato momento ele voltou à sala com os dois copos na mão e um sorriso malandro. Entre um gole e outro, se olharam em silêncio. Ele tá me olhando diferente ou tô viajando por causa do que ele me contou?

O apartamento ainda não estava completamente mobiliado e era quase possível ouvir a tensão sexual se instalando e estendendo por todos os cômodos. Para sair daquela situação indefinida ela pediu pra ler um de seus textos, o que a princípio ele negou, alegando timidez. Ela continuou pedindo, quase insistente, porque não sabia mais o que fazer com aquele silêncio incômodo e achou que ler um conto dele pudesse dissipar a sensação. Ele acabou cedendo. Abriu um arquivo no computador e imprimiu duas folhas. Essa é uma das minhas fantasias com você, você se incomoda?

Hesitante, ela pegou os papéis e bateu os olhos rapidamente no texto. Algumas palavras fizeram seu sangue mais uma vez correr rapidamente para o rosto. Preferiu se levantar e continuar a leitura longe dele, perto da janela. Conforme a leitura avançava, uma onda de calor lhe tomava o corpo enquanto a razão ia sumindo de modo quase indisfarçável. As palavras começaram a se embaralhar. Ou eu tô muito bêbada ou eu tô seriamente a fim de ficar com ele.

— Qual parte você está lendo?

— A parte em que o cara finalmente beija a garota.

Então ele se colocou a apenas dois dedos de distância, atrás dela, sussurrando coisas ininteligíveis em seu ouvido. Ela sentiu as pernas amolecendo e um arrepio gostoso percorrendo a espinha. Tentou resistir, mas seu corpo não obedeceu. Inevitavelmente beijaram-se. Ele a encostou na parede, forçando seu corpo sobre o dela. Beijou seu pescoço bem devagar, queria reter na memória seu cheiro e seu gosto. Gostava dela. Sempre havia gostado. Aturdida pelo trinômio álcool, prazer e surpresa, Clara decidiu expurgar a culpa que sentia por estar ficando com o melhor amigo, comprometido, e se entregou.  Então lhe lançou um olhar que dispensava palavras e ele entendeu.

Meia-hora depois o suor pingava no chão e ele sentiu que poderia morrer ali, naqueles segundos que sucedem o gozo. Exangues e ofegantes, os dois se espalharam pelo chão, cada um para um lado, respirando devagar.

De um lado ela pensava E agora? Do outro, ele também.

 

 

 

 

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Revisitando o passado blogger

16 out

Eu não sei se vocês sabem, mas eu criei o meu primeiro blog há mais de 10 anos. Para ser mais exata foi em maio de 2002. Naquela época pouca gente sabia criar um blog. Eram outros tempos. Postar links ou fotos era tarefa  apenas para os superentendidos de HTML, e só aprendi a mudar o tamanho da fonte porque tinha um amigo que trabalhava em um site e me ensinou uns truques.

Sinceramente nem sei o que eu tinha em mente quando comecei a postar. Não era um diário, pois ele era visto por algumas pessoas que eu nem conhecia, mas também não tinha pretensão alguma além de comunicar.

Tinha lá pouco mais de meia dúzia de fiéis leitores, que comentavam e achavam graça das minhas aventuras de caipira na capital. Então fui acreditando que escrevia algo que prestasse. Alguns anos depois, o título do blog  (Louco Cotidiano)  não fazia mais sentido para a jornalista que abandonou  a vida na metrópole por amor e se estabeleceu pacatamente em Ribeirão Preto. Mudei de blog, de endereço e de vida.

Tanto tempo depois,   bateu uma nostalgiazinha e resolvi limpar as teias de aranha desse meu primeiro contato com a vida blogger. Queria relembrar  o que eu fazia e pensava há mais de uma década. E o resultado foi decepção total. Que blog tosco! Que vergonha das coisas que eu escrevia/ fazia / pensava.  É dessa vida que tenho saudade?

Ai ai ai. Será que todo mundo sente essa vergonha alheia de si mesmo ao ler seus textos antigos?

Reler esses textos crus sobre o início da minha vida adulta ( que só falavam sobre baladas, homens, crise existencial) me deixou corada. Era isso mesmo que eu pensava, ou estava fazendo tipo para alguém que eventualmente me leria?  Não eram essas ideias que eu recordava possuir.

Isso tudo me fez refletir: quanto da nossa memória é real? E quanto a gente romanceia? Porque na minha cabeça eu era superculta, hype, tinha uma vida animadíssima, ia às melhores baladas do mundo. E a analisando friamente, meus posts mostram que não foi bem assim. Meu textos era dolorosamente banais e eu reclamava pra caramba de tédio.

Será que daqui alguns anos, quando eu ler os textos deste blog, alguns elaborados com tanto afinco ( cof cof cof), vou também me achar uma tosca,  etc? Será que parte da evolução do ser humano é revisitar o passado e constatar que está tudo muito melhor no presente? Ou isso é coisa de gente com autocrítica excessiva e cruel?

Será?

Separação

7 set

Desafiou o vento tentando acender um cigarro. Parecia se divertir com essa luta entre o fogo e o ar, que insistia em apagar a chama e embaraçar seus cabelos. Finalmente a chama venceu e Anna tragou demoradamente, com a satisfação de quem reencontra um antigo amigo após muitos anos de separação.

Caminhava a passadas largas, sem pressa, sem destino. Observou lugares pelos quais passou diariamente durante os últimos 15 anos, mas nunca havia realmente visto. Sentia a fumaça entrando pelos pulmões e se alastrando pelo resto do corpo, saboreava cada etapa daquele ritual.

Quinze anos. Quinze anos anestesiados, atropelados por desejos e prioridades que não eram seus. Quinze anos.

De repente seu corpo foi tomado por uma onda incontrolável de alegria, o riso contido desde sempre explodiu sem pedir licença. Gargalhava, lágrimas escorrendo pelos cantos dos olhos. As pessoas que a cruzavam na rua não podiam deixar de acompanhá-la na risada contagiante.

Sentia como se tivesse voltado à adolescência, quando tinha infinitas possibilidades. Era exatamente isso, a sensação de que poderia fazer tudo o que quisesse, poderia se arrepender, fazer de novo. Estava livre! Livre! Não sabia qual seria o próximo passo, não tinha nenhum plano para o mês que vem, sequer para o dia seguinte. E ao invés de se sentir aterrorizada, sentia-se estimulada.

Abriu a bolsa, tirou a carteira de identidade. Mal pôde se reconhecer na foto. Parecia tão mais velha. Passou os dedos sobre a fotografia, como se quisesse apagar a velhice, os anos de sofrimento e intolerância. Seus olhos lhe pareceram tristes no retrato e teve certeza de que neste momento eles brilhavam como nunca. Deu o último trago no cigarro. Descalçou as sandálias, dobrou cuidadosamente a barra da calça de sarja e sentiu a areia massageando seus pés. Vou pintar as unhas de vermelho. E vou tingir os cabelos de loiro. Ou vermelho também. Pensou alto sem conter o riso de satisfação.

Então sentiu a água gelada tocar seus pés. Abriu os braços, como se abraçasse o mar. Respirou fundo, sentiu a brisa em seu rosto, quase um afago. As lágrimas ainda escorriam, misto de felicidade e tristeza. Quanto tempo perdido. Olhou mais uma vez para o documento, tirou-o cuidadosamente do plástico e rasgou em quatro partes.

Virou-se e levantou os olhos para os prédios à beira-mar. Fixou o olhar em um deles, contou mentalmente os andares até sete. Lembrou-se da música : “Love of my life cant you see, bring it back bring it back, don’t take it away from me, because you don’t know what it means to me…”. Suspirou, sentindo uma ponta de chateação. Um pequeno incômodo, que não conseguia sobrepor-se ao alívio e à alegria daquele instante. Decidiu mergulhar.

Lá de cima, do sétimo andar, um homem a observava da sacada. Ao fundo Freddie Mercury soltava os pulmões. Ele segurava um copo duplo de uísque sem gelo e chorava compulsivamente. Destroçado, só agora ele sentia. E sentia muito. Tarde demais.

Direitos iguais?

31 jul

Décadas atrás, umas senhoras que estavam cansadas de ficar em casa bordando, cozinhando, limpando e cuidando dos oito filhos, resolveram fazer uma revolução e queimaram seus sutiãs em praça pública pedindo direitos iguais para homens e mulheres. Tá, não foi exatamente assim, mas vocês entenderam. Foi uma vitória, um avanço, uma revolução. Mas acho que o resultado dessa revolução pode não ser exatamente o que elas tinham em mente.

Sim, hoje podemos votar. Sim, podemos – queremos, gostamos de — trabalhar, não há ~limites~ no mundo para esse gênero multifacetado que é o feminino. Entretanto, não importa o cargo que você ocupa no trabalho, quanto você ganha ou quantas horas você trabalhou no dia, se você chegar em casa e tiver uma pilha de louça suja ou um filho precisando de banho, adivinhem quem é que vai cuidar disso? Você minha querida amiga. Direitos iguais para quem?

Por melhor e mais participativo que seja seu marido ( e nem estou reclamando do meu, que é até acima da média. Love you Ju), na hora que o bicho pega, sobre sempre  para a mulher. Se o filho está de férias, o marido pode dar uma força, mas o encargo é da mãe. Se a empregada faltar, se a babá pedir as contas, o marido vai faltar do trabalho para cuidar da casa e dos filhos? Vai virar a madrugada fazendo serviços domésticos? Em 99% dos casos a resposta é não.

Quem não gostaria, depois de um dia cheio de trabalho, em que você resolve todos os pepinos do mundo, de sentar na sala com os pés para cima e abrir uma cerveja gelada assistindo a novela. E comer aquele prato delicioso que simplesmente brota na sua frente sem que você tenha feito qualquer esforço.  Daí é só dar um beijinho no seu filho amado, que já está banhado e de pijamas na cama, esperando apenas seu boa-noite. Eu gostaria e muito, mas minha realidade ( e acredito que de boa parte da população feminina casada e com filhos) é bem outra.

Reality bites. Mesmo quem tem babá e empregada todos os dias (o que não é meu caso), duvido que chega em casa e não faz mais nada. Nem que seja vestir aquele lingerie caprichado para animar o marido, numa noite em que não se está nada animada. Porque tem mais essa minhas amigas, além de profissional competente e boa mãe, você tem que estar linda e gostosa para seu marido Eu não sei vocês, mas aqui em casa as contas não batem!

É meio que uma maldição essa tal liberdade das mulheres. Na teoria, somos livres para fazermos tudo que quisermos, mas na prática simplesmente não damos conta. Simples assim. Eu me esforço ao máximo para não faltar com meu filho, no trabalho também é complicado baixar o nível. Resultado: ou minha casa fica meio desarrumada ou meu marido fica insatisfeito.

Não há horas suficientes no meu dia (tenho três trabalhos) para dar conta de tudo, ou ao menos, fazer tudo bem feito.  Ando sempre com aquela sensação de dívida, de dever não cumprido. Estou sempre me cobrando por aquilo que não fiz. É mais ou menos a sensação de andar na corda bamba, com as duas mãos ocupadas e um deadline para cumprir. Exaustivo, para dizer o mínimo.

E nesses dias de cão e excesso de tarefas, eu pergunto: valeu a pena queimar a porra dos sutiãs? Porque olha, as ultra feministas vão  me xingar, mas não sei não se eu não preferia estar em casa bordando, cozinhando e cuidando dos meus oito filhos. Tá, oito é demais, podia ser um só mesmo. Ok, ok, estou brincando ( mais ou menos)

Se você ainda não casou e nem tem filhos, não se assuste. Mas também não se iluda achando que com  você vai ser muuuito diferente. O que você pode fazer é educar seus filhos para que eles façam  diferente. É o que tento fazer com o meu!

Ah, e se você é homem e leu isso aqui até o fim, fica a dica: Antes de reclamar que a geladeira está vazia ou que sua mulher não tem tempo para você, coloque-se no lugar dela, nem que seja por cinco minutos.

Um post sobre o nada

12 abr

Sumi, eu sei. Sumi até de mim mesma se vocês querem saber.

Resolvi aceitar um novo desafio profissional no final do ano passado, mas ainda mantive o antigo, e como resultado estou trabalhando dobrado e sem tempo algum para ócio criativo, aliás nem para ócio não-criativo. Não tenho tempo para mais absolutamente nada, além dos trabalhos, filho e marido.

E não estou escrevendo isso porque acho bonito ( Bonito seria dizer que estava viajando pelas ilhas gregas no meu iate) . Aliás, nem eu sei direito porque esse post começou assim. Acho que é para justificar minha ausência. E também porque estou sem assunto. Ando tão cansada de guerra que estou com preguiça de ser profunda, de fazer análises complexas, de consumir cultura útil. Tô rasa, gente.

Estou craque na nova novela das oito, viciei em alguns blogs de humor com posts rápidos, vejo minhas séries; mas malemá tô conseguindo acompanhar o curso de Literatura que faço todas as segundas-feiras. I’ve been better, but I’m good. Esse post está parecendo os post do meu primeiro blog, o Louco Cotidiano. Na época em que ter blog era cool e a gente escrevia qualquer coisa, porque ninguém lia mesmo. Liberdade total. Não que aqui eu tenha um milhão de leitores ( embora já tenhamos atingido a marca de 43 mil visitas nesses quase dois anos), mas rola uma certa obrigação tácita de escrever alguma coisa que preste e que faça sentido. Pois é, acho que falhei dessa vez.

Esse ritmo anestesiante  alucinante de trabalho não será eterno, logo eu ganho na MegaSena, daí vou poder me dedicar aos meus escritos sem precisar me preocupar com ganhar dinheiro. Porque escrever e ganhar dinheiro são verbos que não andam juntos, vocês sabem né?

Falando nisso, estou escrevendo um livo. Bom, isso não é  muito uma novidade porque eu estou escrevendo um livro mais ou menos desde  quando eu tinha uns 12 anos e  nunca consegui acabar livro algum. Mas dessa vez é diferente porque eu sei a história inteira e eu tenho método. M-É-T-O-D-O gente. Então essa também é parte da razão pela qual quase nunca venho aqui, porque quando há espaço para o tal ócio criativo, eu uso ele para o livro. Em breve posto um capítulo aqui para vocês lerem. Mentira, não vou postar. Nem sei se vou terminar esse também, sejamos realistas, mas me faz bem pensar que sim. Acreditar nesse livro é o meu oásis nesse deserto .

Então é isso, venho aqui humildemente pedir-lhes que não desistam desse espaço. Ele anda meio abandonado ( a Lívia mudou de casa e ainda está desprovida de internet), mas é muito importante para nós. Voltem sempre e obrigada pela paciência.

Rio: um amor de verão

4 nov

E o tanto que foi difícil escolher UMA foto? Ô cidade maravilhosa.

Quem me conhece pessoalmente ou acompanha meus blogs desde os primórdios tá careca de saber que eu sou uma apaixonada pelo Rio de Janeiro.  E não é uma paixão casual do tipo ai-que-cidade-linda-quero-voltar-sempre, mas sim estou-arrumando-as-malas-e-mudando-pra-cá-já.

Sério.

A primeira vez que fui para lá, aos 10 ou 11 anos, para ir ao Xou da Xuxa (mea maxima culpa), lembro de ter os olhinhos brilhando ao ver a paisagem lá de cima do Pão de Açúcar. E de achar o máximo abrir a janela do meu hotel e dar de cara com a Favela da Rocinha. Favela como ponto turístico, só mesmo no Rio de Janeiro.

Mais de uma década depois é que fui realmente me apaixonar pela cidade. De arrumar as malas, colocar o sonho e a coragem dentro, e mudar para lá. E mais uma vez vou usar uma analogia com relacionamentos amorosos para explicar minha paixão por essa cidade. Meu marido não gosta muito desse meu recurso estilístico, mas juro que não consigo fugir dele.  ( Ju, I love you)

O Rio para mim é a típica paixão de verão.  Aquele amor louco que bate fácil quando você está de férias e dando o melhor de si para o mundo. Você tem certeza que vocês vão ficar juntos para sempre. É tudo tão lindo e maravilhoso, que  você nem vê os defeitos.  Só pensa em prolongar ao máximo aquela sensação de bem-estar e felicidade. Aí acabam as férias. Você vai embora chorando e combinando um novo encontro o mais breve possível.  Na verdade você já está pensando em casamento.

Você volta para sua rotina, depois de um tempo ela acaba te engolindo e os planos de reencontrar sua paixão vão sendo postergados. Até que um dia, depois de meses se perguntando “E se?”,  bate uma saudade avassaladora e você decide voltar. E o reencontro é melhor do que o esperado. Está tudo ainda mais lindo e colorido. Vocês exploram o que têm de melhor e botam toda a sujeira e as fraquezas para baixo do tapete. Certeza que foram feitos um para o outro. Você só pensa em casamento, mala e cuia. Mas as férias acabam de novo.Você tem que ir embora e o ciclo se repete mais uma, duas, vinte vezes.

Até o dia em que você fica madura o suficiente para perceber que na verdade vocês não foram feitos um para o outro porcaria nenhuma. Que os defeitos que você insistia em não enxergar, estão ali e são grandes demais para continuarem sendo ignorados. E então você se coloca no seu devido lugar. E passa a ver tudo com clareza. Não, vocês não vão casar.  Ele ( o Rio de Janeiro, no caso. Isso aqui é só metáfora, lembram?) é apenas um amor de verão. Amor com data de validade. E aprende, finalmente,  a desfrutá-lo  no tempo certo.  Aproveitar o que ele tem de bom para te oferecer. E depois ir embora.

São Paulo: a cidade onde posso tudo

28 set

Fala aí se essa foto não é perfeita?

Estou aqui sentada no mesmo lugar que escrevi o primeiro post do meu primeiro blog, quase 10 anos atrás. No mesmo apartamento.

Engraçado, toda vez que venho a São Paulo faço uma questão quase doentia de passar por aqui. Nesse pedacinho da região da Paulista, da alameda Campinas até o Shopping. É como se eu olhasse para os lados e pudesse me encontrar logo ali, andando. São Paulo me desperta uma puta saudade de mim mesma. Quero re-experimentar as sensações que eu tinha. Os cheiros, gostos, sabores.

São Paulo me inspira de um jeito.  Quero ver tudo e todos, mas também quero ficar sozinha. Porque aqui eu não fico sozinha, eu fico comigo. E dá vontade de me trancar num quarto com vista para o prédio vizinho,bem cinza,  e ficar quatro dias escrevendo, sem dormir. E depois dá vontade de viver a vida intensamente.

E nem posso dizer que quando morava aqui era a pessoa mais feliz do mundo. Não era. Eu era bem instável, bem perdida. Mas eu não me desesperava,  porque eu podia tudo. Em São Paulo a gente tem essa sensação, de poder tudo. Então eu nem tinha muita pressa em arrumar o emprego dos meus sonhos,  escrever meu livro,  ir àquela peça de teatro. Porque cada amanhecer trazia um dia novo e cheio de oportunidades. Todas as oportunidades do mundo. Então, ter pressa para quê? Eu não vou sair daqui mesmo.

Só que eu saí. Fui embora. E foi assim, de repente. Quer dizer, eu decidi mudar, e dali duas semanas recebi uma ligação dizendo: você tem que mudar segunda-feira. Então eu já não podia mais tudo. E foi bem difícil acostumar.

Aí você se pergunta: por que diabos você não volta para São Paulo ?

E eu me fiz a mesma pergunta recentemente. E levei a questão ao meu marido. Consideramos a possibilidade. E me bateu pânico. Pois é, pânico. Deixa eu tentar explicar. É como se o amor da sua vida reaparecesse depois de anos, querendo casar com você. Justamente quando você tivesse desencanado, e estivesse bem feliz , e com outro. É uma analogia meio tosca, mas para mim é perfeita.

Então ficamos assim, São Paulo e eu: vivendo nosso caso de amor mal resolvido à distância.

Não vamos mudar para cá. Afinal, estou feliz. E com outro.

O pior dia da minha vida – e de outras vidas também

2 ago

Naquela noite me vesti inteira de preto, coisa que nunca faço, como se eu  estivesse de luto pelo que estava por vir. Saí meio contrariada e cheguei à festa já querendo ir embora. Passei a noite em um canto, observando. Duas latas de cerveja quente chegaram às minhas mãos e foram deixadas , depois de um gole, no último degrau da escada da boate. Eu ainda não gostava de cerveja naquela época, ainda mais quente.

Eu e o objeto de minha afeição nos cruzamos no corredor e mal nos olhamos. Era nosso primeiro encontro depois daquele dia. Tive  a certeza que faltava para ir embora. Quatro da manhã intimei as amigas que estavam de carona comigo e paramos numa lanchonete antes de ir pra casa.

Lá reencontrei um amigo das antigas e demos uma volta de carro. Ele estava animado e tinha mil coisas para contar. Eu ouvi tudo sem muita atenção, queria ir para casa. Deixei-o novamente na lanchonete e liguei o piloto automático. Já eram mais de cinco da manhã e passei em todos os sinais vermelhos. Desacelerava, buzinava e seguia em frente. No último sinal antes de chegar em casa, passei direto – na mudança do amarelo para o vermelho- , sem desacelerar.

Do outro lado da cidade uma turma de amigos saía da festa do peão. O casal de irmãos lotou o carro de colegas para dar carona. Passava das cinco da manhã e eles já deviam estar cansados e sonolentos. Faltava apenas uma amiga para ser deixada em casa quando passaram pelo sinal verde daquele cruzamento fatídico.

Minha memória então dá um salto. Estou no meio da rua, em estado de choque, observando uma menina ensangüentada no porta molas de um carro. Da minha boca saía : desculpa, desculpa, desculpa. Na minha frente um menino desesperado me respondeu: que desculpa o quê! Minha irmã, minha irmã!

Flashes. Uma amiga segurando minha mão e ligando para os meus pais. A ex-namorada do meu irmão me dizendo que eu precisava ir ao hospital dar pontos na minha cabeça. Polícia, ambulância, multidão. Desculpa, desculpa, desculpa.

Horas depois acordei em um quarto de hospital. Meus pais e irmão me rodeavam com cara de enterro. Eu estava inteira e sem dor. Passei a mão na cabeça e senti os fios espetando. Flashback. Porta malas. Menina ensangüentada. Desculpa, desculpa, desculpa.

Perguntei da menina. Desconversaram. Fechei os olhos e devo ter dormido mais um pouco. Acordei e perguntei novamente. Agora entraram no quarto meu pai, meu irmão e meu tio. Já dava pra imaginar que a resposta seria aquela que eu não queria ouvir.

— A menina não resistiu e morreu.

Choro, soluço, medo, pânico e desespero. Piores minutos da minha vida. Piores dias da minha vida. Pior ano. Desculpa, desculpa, desculpa.

Eu gostaria muito que o texto acima fosse apenas uma crônica, um conto. Mas não é. É a vida real em sua pior manifestação e a minha pior lembrança.

Não costumo esconder essa passagem da minha vida, até porque ela faz parte de quem sou. Mas por motivos óbvios não tenho orgulho algum do que aconteceu e não é um assunto que se puxe á toa. Fui condenada por homicídio culposo, prestei dois anos de serviço comunitário e perdi a carteira de motorista pelo mesmo período. Sei que isso não é nada, estou viva. O pior é conviver com a responsabilidade, ainda que acidental, pela morte de outra pessoa. É saber que um pai e uma mãe diariamente sofrem a ausência de uma filha e devem me odiar por isso.

Na época decidiu-se que seria melhor eu não entrar em contato com eles. Hoje me arrependo. Hoje sou mãe e sei a raiva que eles devem ter de mim. Imagino e compreendo a necessidade que eles devem ter de me odiar.  E imagino a diferença que poderia ter feito  olhá-los nos olhos e pedir perdão. Tempos depois, numa sessão de terapia, pedi um perdão  “virtual”.  Mas não é a mesma coisa. Se eu pudesse, pediria perdão — e de joelhos.

Até hoje não consigo ver um carro de resgate sem sentir arrepios e um pouco de ânsia. Chorei incontáveis noites. Por muito tempo  lembrei da garota falecida  diariamente.  Há algum tempo consegui me desvencilhar um pouco dessa lembrança. Mas sempre que algo muito bom acontece comigo, como  quando casei e quando meu filho nasceu, sinto uma ponta de tristeza ao pensar que ela não teve a chance de ter nada disso. E ela só tinha 21 anos.

Hoje faz 13 anos que aquela garota morreu num acidente de carro, atingida por um carro que eu dirigia. Os pais dela e seu irmão devem estar tristes. E eu estou triste também. Gostaria que eles soubessem disso e, de alguma forma, se sentissem reconfortados.

* Duas amigas me fizeram ver o motivo pelo qual tornei pública essa história. Além do perdão da família, também estava precisando do meu perdão. E escrever sobre isso, é uma forma de me perdoar também.

Monólogo

3 maio

M.

Depois de tanto tempo, decidi responder.  Antes que você mergulhe de vez na loucura que criou. 

Me espanta que você questione a natureza dos meus sentimentos. Depois de tantas outras coisas, é o meu silêncio que você vai escolher como lembrança? É realmente necessário explicar que meu distanciamento é justamente o oposto da frieza e indiferença?  Não está claro que eu simplesmente não tenho opção? Que preciso me afastar pra te esquecer. Porque lembrar dói. E falar contigo significa abrir espaço para que lembranças me assolem. E com elas a memória do seu cheiro, do seu gosto e do seu jeito único de me olhar.

Não, eu não sou frio e insensível como você me pinta. Eu sou fraco e vulnerável. Você sabe disso melhor do que ninguém. Aliás, foi justamente por isso que você se apaixonou por mim. Lembra? Eu era o homem sensível com quem você sempre sonhou. Até você me transformar num monstro cruel e sem sentimentos.

E não venha me dizer que você ainda gosta de mim (te conheço demais para acreditar nisso). Porque é sua vaidade que te faz me procurar.  Sua indignação com minha suposta indiferença. Puro egoísmo de menina mimada.

É só se lembrar que já esgotamos todas as possibilidades de ficarmos juntos sem nos destruir.  Que a melhor coisa para sua vida, foi eu ter saído dela. E que sumir, talvez, tenha sido a única coisa boa que fiz por você. O resto é fantasia.

Então, não (nos) enlouqueça.   Me deixe viver sem seu fantasma me rondando. Vá ser feliz – e me deixe tentar também.

Boa sorte.

Um beijo.

Z.

Nota Oito

23 jan

Sentada há algumas horas sob o sol escandalosamente quente da praia nordestina, Ana se remexeu na cadeira, tentando encontrar uma posição em que sua barriga ficasse adequadamente esticada e sem dobras. Engordara dois quilos nas festas de fim de ano ( ela deduzia, pois não tinha coragem de subir na balança) e eles pareciam ter se alojado inteiramente nessa região adiposa de seu corpo. Deu um gole na cerveja gelada e disparou ao marido:

— Ei, me responda com 100% de sinceridade. Que nota você daria hoje para o meu corpo? É para falar a verdade, numa boa.

O marido a olhou com certo espanto, mas respondeu em menos de cinco segundos:

— Nota oito.

— Oito??!!!

Como assim oito? O que aconteceu com “a mulher mais gostosa que já conheceu?” Pô, oito é tão, tão, mediano. Sempre odiei tirar oito. Porcaria de nota sem graça, tão perto do sete.

 Percebendo a cara de decepção da esposa, tentou melhorar:

— Amor, você é uma mulher de 32 anos, com um filho, que nunca fez exercício na vida. Seu corpo está ótimo!

Quê? Esse complemento era uma tentativa de melhorar a situação?

Ela sabia que estava um pouco fora de forma. Realmente não praticava nenhuma atividade física com regularidade, com exceção da yoga, havia anos. E com o nascimento do filho se exercitar tinha se tornado um sonho ainda mais distante. Tentou disfarçar a frustração:

— E o que eu preciso melhorar? Perder a barriga e…

— Endurecer o resto.

 Filho-duma-puta. Como ele me fala isso, assim? Quem ele acha que é? Essa barriga de cerveja… Bom a barriga dele continua a mesma desde quando nos conhecemos, não posso reclamar. Mas ele não gerou um filho. Que ódio.

— E como é que você quer que eu faça exercício com um filho desse tamanho? Que horas, ein?

— Bom, se você quisesse mesmo podia substituir as aulas de yoga pela academia ué.

Respondeu com um beijinho, como quem encerra o assunto. Ana engoliu seco e alcançou a latinha de cerveja. Ao dar mais um gole, o  líquido desceu amargando a garganta.

 Putz, é isso. Cerveja. Eu nunca tomei tanta cerveja na vida. Vou parar de beber cerveja.  Devolveu a latinha com cara de nojo.

Que foi? Não quer mais?

— Er.. Não está descendo tão bem…

Tentou pensar em outra coisa, mas não conseguiu. Nota oito. Era terrível. Vou dar um jeito de entrar na academia. Talvez se eu fizer de manhã, tipo umas 7h. Vou ficar a mulher mais gostosa do mundo.

A verdade é que Ana odiava academia. Sempre desprezou secretamente as mulheres que passavam horas do dia levantando peso. Achava que isso as diminuía. Na realidade ela nunca precisara fazer exercício. Agora, invejava a disciplina das ratas de academia.

 Poxa, tem muita gente que elogia minha boa forma. Será que estão mentindo? Uma nota oito não geraria tantos elogios. Bom, mas essas pessoas não estão aqui agora me vendo de biquíni. Argh!

Enquanto brigava consigo mesma, uma mulher saiu do mar. Com aquele corpo perfeito, de fazer qualquer mulher querer cortar os pulsos. Seios firmes, talvez silicone. A barriga chapada e as pernas torneadas no limite perfeito da feminilidade. E a bunda? Virou a cabeça descaradamente para observar. Era redonda, firme e aparentemente desprovida de qualquer celulite. Era óbvio que o marido estava constatando a mesma coisa. Perguntou, entre dentes:

— Essa aí é nota dez ?

— Ah é né?

Ele respondeu, como se a pergunta tivesse sido tão óbvia quanto: “dois mais dois dá quatro?”

Ana não conteve o risinho sarcástico.  Essa aí passa o dia inteiro malhando. Não deve nem trabalhar. Queria ver ela casada e com filho. Preparava-se para fazer o comentário em voz alta, disfarçando o despeito, quando surgiu um bebê começando a andar, correndo em direção da mulher e dizendo:

— Mamãe. Mamãe.

Aquilo era demais! O que ela tinha feito para merecer tamanho castigo? Imediatamente vestiu sua camisa, juntou suas coisas, retomou a latinha de cerveja e se despediu do marido:

— Para mim, essa praia já deu hoje.

*Essa é uma obra de ficção. Entretanto, qualquer semelhança com a vida real pode ser mais do que uma mera coincidência.

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