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Os pezinhos que mudaram nossas vidas

10 nov
Pezinhos já corrigidos e lindos de viver!

Pezinhos já corrigidos e lindos de viver!

Era um dia de abril e pela primeira vez meu marido não me acompanharia no ultrassom de nosso segundo filho. Seria o exame morfológico, aquele que avalia as medidas de todos os órgãos, eu estava bem tranquila e acabei não fazendo tanta força pra que ele fosse comigo. No segundo filho a gente relaxa.

Quando o exame começou, percebi um pouco de ansiedade. Afinal, o maior medo de toda mãe ( e pai) é que seu filho não seja perfeito. Essa ansiedade desapareceu assim que avistei suas mãozinhas.  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10; contei mentalmente seus dedinhos. Ufa. Depois o médico avaliou cada orgão, tudo ok e passou para as perninhas e pezinhos. Lá vou eu de novo 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10; Ufa! Todos os dedinhos estavam ali. Minucioso, o doutor se prolongou um pouco naquela região, disse que estava com dificuldade para visualizar os pés. Acabei me distraindo e quando voltei ao mundo, quase dez minutos já haviam se passado, e só então me toquei que algo de errado devia estar acontecendo. Senti meu coração quase saindo pela boca e amaldiçoei o momento em que resolvi ser “independente” e liberei meu marido deste ultrassom. Olhei o médico nos olhos. Ele parecia seguro do que ia me dizer, embora um pouco cuidadoso. –  O bebê apresenta uma curvatura anormal dos pés, tudo indica que seu filho tem Pé Torto Congênito.

Meu mundo acabou. Faltou fôlego e forças nas pernas. O médico continuava falando, mas era como nos desenhos do Snoopy quando o Charlie Brown só ouvia a professora dizendo bla bla bla bla bla bla. As lágrimas escorriam pelos meus olhos e eu queria sair dali correndo. Apenas escutei o médico dizer,” tem tratamento, é só fazer uma cirurgia e vai ficar tudo bem”.  Como assim fazer cirurgia? Levantei da cadeira quase cambaleando, os olhos embaçados e saí do laboratório transtornada. Só consegui ligar para o Juliano e chorar muito. Ele assustou coitado, achou que eu tivesse perdido o bebê. Então quando eu disse que nosso filhinho nasceria com um problema nos pés, ele acabou sentindo certo  alívio. No caminho até nossa casa fui dirigindo, quer dizer, acho que meu anjo da guarda assumiu o controle. Eu chorava, urrava, gritava e tentava acessar a internet do celular pra entender o que era esse PTC ( Pé Torto Congênito). As primeiras fotos que apareceram foram tão aterrorizantes que só me fizeram chorar mais. Eu estava devastada. Cheguei em casa, abracei meu marido e choramos juntos o luto de nosso filho idealizado; para logo abraçar a ideia do nosso filho “real” e muito amado.

Passado esse tremendo susto inicial, dediquei meus dias para pesquisar sobre o assunto e o tratamento. Encontrei alguns sites, blogs e grupos de mães de filhos com PTC. E ao ler um dos blogs, acabei encontrando o contato daquele que seria seu médico ( Dr Jose Volpon, professor da USP) e o tipo de tratamento que iríamos seguir: o método Ponseti. Ler aqueles relatos encorajadores e ver as fotos dos pequenos guerreiros sorridentes e com os pezinhos perfeitos foram um bálsamo para minha alma. Eu enfrentaria o que estivesse pela frente! Ou seja, seis trocas de gessos ( do pé até a coxa), uma cirurgia para alongamento de tendão ( tenotomia) e aproximadamente 4 anos de órtese.

Levei algumas semanas para digerir a notícia. Foram dias sombrios, de muito medo e insegurança. Mas o conhecimento mais profundo do assunto e a certeza de que Deus sabe o que faz foram, pouco a pouco, me trazendo paz. Eu só pensava que o bebê precisava da minha calma para se desenvolver bem e que de nada adiantaria eu me desesperar. Em momento algum senti revolta ou questionei o porquê. Aceitei logo o desafio que me foi imposto e realmente enxerguei nele uma oportunidade de fortalecer nossa família. E foi realmente o que aconteceu! O restante da gravidez foi tranquilo e aproveitei esse tempo para estudar sobre o PTC e conversar com o médico.

O dia do nascimento foi mágico ( conforme relatei aqui: https://tresnortes.wordpress.com/2014/09/16/relato-do-meu-parto-fabiana-e-otto/) e todo e qualquer medo se dissipou por completo. Dizem que nem sempre o amor de mãe nasce junto com o filho; mas o meu nasceu. Foi só eu segurar o seu corpinho e olhar aqueles pezinhos tortinhos ( coisinhas mais lindas de Deus) pra meu coração bombar de ocitocina e transbordar amor imediatamente.

Com 8 dias de vida Otto iniciou o tratamento e levamos uma vida absolutamente normal desde então. Costumo dizer que se no dia do ultrassom fatídico eu soubesse como tiraríamos tudo de letra, eu não teria sofrido e temido tanto. Não é fácil, mas também não é tão difícil assim. Difícil é quando não tem tratamento! Neste caso não só há tratamento, como o prognóstico é de sucesso total!

Com pouco mais de 70 dias de vida Otto já usou 7 gessos, fez uma cirurgia e agora usa uma órtese ( que chamamos de botinha) que o irá acompanhar até aproximadamente os quatro anos de idade para manter seus pezinhos ( agora já perfeitos) firmes no lugar. Falando assim parece um bicho de sete cabeças, mas de verdade, não é. O ser humano tem uma capacidade incrível de se adaptar e os bebês então…

Tudo isso tem nos ensinado diariamente. Hoje vejo os pequenos desafios da vida em sua real proporção, sem dramas; tenho o coração cheio de gratidão pela família linda que criamos e pela oportunidade de crescer como ser humano. Aprendi que uma adversidade terá em sua vida a proporção que você der a ela. E aqui escolhemos não dar prioridade a isso! A vida continua e nosso menininho é lindo, amado e perfeito do jeitinho que ele é! Graças a Deus e ao avanço da medicina seus pés estão perfeitos e ele poderá ter vida normal, andar, correr, jogar bola, fazer o que quiser.

SOBRE O PTC (Pé Torto Congênito)

Apesar de ser um susto para os pais, o pé torto congênito é um problema relativamente comum nos recém-nascidos – 1 em cada 1.000 nascem com ele. A causa dessa deformidade é desconhecida, por isso ele é chamado de Pé Torto Congênito Idiopático.

A maioria dos pés tortos podem ser corrigidos ainda quando bebês em seis a oito semanas com manipulações adequadas e aplicação de gesso. O tratamento é baseado no entendimento da anatomia funcional do pé e da resposta biológica de músculos, ligamentos e ossos às alterações de posicionamento obtidas pelas manipulações seriadas e aplicação de gesso. O tratamento que traz melhores resultados é o idealizado pelo médico americano Dr Ponseti, que deu nome a técnica.

O tratamento deve começar na primeira ou segunda semana de vida para aproveitar a elasticidade favorável dos tecidos que formam os ligamentos, cápsulas articulares e tendões. A criança tratada de pé torto logo ao nascer poderá desenvolver um pé normal, seja no aspecto, seja na função.

UMA PALAVRA AOS PAIS

Se você chegou até o blog porque descobriu que seu filho(a) tem PTC: Acalme seu coração! É mais fácil do que parece, não deixe que o diagnóstico perturbe sua gravidez.

Aproveite para já pesquisar sobre o tratamento e escolher seu médico. Ter tudo isso definido antes do nascimento ajuda bastante.

Participe de grupo de mães e pais de filhos PTC . Trocar experiências com quem já passou ou está passando pelo mesmo desafio ajuda a nos fortalecer e até resolver problemas que nos parecem muitos difíceis, mas que já podem ter sido solucionados por outras mães.

Prepare seu enxoval levando em consideração que seu bebê passará boa parte do tempo engessado ou com órtese, ou seja, diga adeus aos macacões com pezinhos e até mesmo às calças.

A questão do banho costuma assustar os pais ( afinal, dar banho num recém nascido já não é fácil, ainda mais com as duas pernas engessadas).  Eu segui essa dica de uma mãe e fomos muito felizes no banho >>https://www.youtube.com/watch?v=75z8DXK9Pwg  ( também mandei confeccionar dois saquinhos de tecido impermeável para cobrir as perninhas e evitar possíveis acidentes aquáticos).

Muito importante: Converse com seu bebê. Explique a ele cada etapa do tratamento, avise-o de tudo que vai ocorrer. Parece bobagem, mas mesmo pequeninos eles já têm um nível de entendimento e isso os deixa  mais seguros e confiantes, o que faz toda a diferença!

Gesso: uma dica preciosa>> Os gessos costumam levar o dia todo para secar e úmidos incomodam bastante, podendo até causar ( mais) cólicas. Usei o secador em todas as vezes e meu pequeno não teve problema algum pra se adaptar com os novos gessos. Muito cuidado para não queimar o pele do bebê, use o secador  a uma distância segura das perninhas e mire sempre apenas na área do gesso.

Se seu filho precisar fazer a cirurgia, o que ocorre em 90% dos casos, não se desespere. O procedimento é simples ( muitos médicos fazem apenas com anestesia local), o pós operatório é tranquilo e o resultado é maravilhoso. Aliás, durante todo o tratamento, quando o “bicho pegar” : FOCO NO RESULTADO!

Indicação de sites

http://www.petorto.com.br

http://www.professorvolponusp.com/artigo/26/cr/P%C3%A9%20torto%20cong%C3%AAnito/

Relato do MEU parto – Fabiana e Otto

16 set

otto

Exatas quatro semanas após o nascimento do Otto, consigo sentar para escrever o relato. Coisa que não consegui fazer com o Gael, nem tantos anos depois. É impossível falar de um parto sem pensar no outro.  Seis anos atrás eu era apenas uma menina que queria muito ter parto normal  em uma cidade onde isso era quase impossível na rede privada. E eu nem sonhava muito com humanização, eu só queria conseguir parir meu filho no dia em que ele quisesse nascer e sem precisar cortar camadas e camadas da minha barriga. Isso eu consegui, e já foi suficiente para que eu me sentisse vitoriosa.  Tanto que apaguei das lembranças todas as intervenções ( e violências) desnecessárias, pra guardar apenas o que me importava na época: eu consegui! Bendita memória seletiva!

Então veio a segunda gravidez e após anos sendo ativista do parto normal, havia chegado a hora de conseguir o parto dos meus sonhos.  Igualzinho a todos aqueles relatos que eu sempre lia com lágrimas nos olhos. Eu estava decidida, não só eu iria parir meu filho quando ele quisesse nascer, mas eu seria a protagonista desse momento! E ai de quem tentasse me impedir!

Em um primeiro momento, eu e meu marido chegamos a cogitar o parto domiciliar. Mas após muita reflexão, percebemos que não teríamos coragem e buscamos uma segunda opção. Ribeirão agora era uma cidade com alguns médicos humanizados e escolhemos o que nos pareceu mais dedicado à causa. Entretanto, o doutor estaria fora da cidade justamente quando eu completasse 39 semanas e algo me dizia que o Otto decidiria nascer justamente nesse período. Então fomos conhecer a maternidade da Casa de Saúde de São Carlos,  e imediatamente nos apaixonamos pela estrutura humanizada do hospital, pelas enfermeiras e pelo médico.

Completei  39 semanas em uma quinta-feira. No final de semana perdi o tampão,  era um sinal de que meu corpo estava se preparando para o dia D, mas eu já sabia que isso ainda podia levar dias ou semanas. No começo da noite de domingo comecei a sentir contrações fortes. Não eram mais “treinamento”, eram reais. Após algumas horas elas ainda não tinham pegado ritmo e começaram a esvanecer. Falei com a Helena, minha doula, que me alertou que deveriam ser os pródomos e me sugeriu  tomar pulsatilla ( homeopatia) porque se fosse TP mesmo, elas engrenariam e se não fosse, elas espaçariam. E elas espaçaram. ..

Fiquei bem frustrada com esse alarme falso e resolvi tirar a segunda-feira de folga. Juliano passou o dia comigo, passeamos de carro,  fomos ao super mercado e abastecemos a casa. Sentia as contrações o dia todo, mas como eram leves e desritmadas, ignorei-as.  À noite elas ficaram mais fortes, mas não contei para ninguém com medo de mais um alarme falso. Depois de uma hora elas continuavam e mais fortes, comecei a contar e os intervalos eram de 7 , 8 minutos. Avisei a doula que me mandou parar de contar e tentar dormir. Frustração tomou conta de mim de novo e tentei dormir. Mas não dava. Elas doíam. Meu marido tinha acabado de dormir e a Helena também. Eu não queria acordá-los para um alarme falso, então entrei no chuveiro para ver se melhorava. Devo ter passado uns 20 minutos debaixo da água quente e eu sentia que elas só aumentavam. Foi aí que “desobedeci “ a doula e voltei a contar: 5 em 5 minutos. Eu comecei a tremer e senti que não havia mais dúvidas: era a hora! Acordei o Juliano  e pedi pra ele ligar pra Helena. Mal consegui falar com ela no telefone e ela apenas disse: estou indo praí, arrume suas coisas que já vamos pra São Carlos. Tive uma descarga de adrenalina e comecei a tremer muito.  Minhas coisas já estavam arrumadas então liguei para minha mãe vir de Rio Preto para Ribeirão, ela ficaria com o Gael meu filho mais velho, e chamamos minha cunhada pra  ficar com ele enquanto ela não chegasse. Era uma da manhã e embora eu tivesse inicialmente a intenção de levá-lo conosco para São Carlos, acabei achando que eu ficaria mais à vontade sem ele por perto. Sábia decisão!

A doula chegou e colocou uma cinta com bolsa de água quente nas minhas costas o que aliviou muito a dor das contrações, montamos no carro e fomos. Pedi para colocarem uns mantras para tocar na viagem e me conectei com o que estava acontecendo.  O trajeto até São Carlos  durou uns 40, 50 minutos e nesse período tive apenas umas 3 ou 4 contrações. Temi que fosse outro alarme falso, mas acho que foi apenas providência divina mesmo.

Chegando ao hospital senti as contrações voltando a se intensificar, demos entrada e a enfermeira obstétrica fez um exame de toque: 4 cm de dilatação. Não era muita coisa, mas era ALGUMA coisa e fiquei feliz. A enfermeira me avisou, “olha vai demorar, então não fique ansiosa”. Mas em algum lugar dentro de mim eu senti que ela estava enganada.

Eram 2h30 da manhã quando entramos no quarto. A Helena fez a iluminação ficar mais fraca, colocou minha playlist pra tocar e enquanto ela e o Juliano descansavam um pouco, eu tentava me concentrar o quanto pudesse. Eu queria vivenciar aquele momento por inteiro, eu respirava fundo a cada contração e sentia prazer ( sim, prazer) em assistir meu corpo trabalhando para trazer meu filho ao mundo. Depois de não sei quanto tempo ( eu abandonei meu celular, relógio e etc) comecei a me mexer, andar de um lado para o outro, quando senti minha bolsa estourar. Saiu tudo de uma vez, cataploft no chão, e muita água. Encharcou meu vestido e eu não tinha levado nenhuma outra roupa!! A doula me avisou que agora as contrações iam realmente começar a pegar força e ritmo. Resolvi ir para o chuveiro e passei um bom tempo por lá, a água quente aliviava a dor, sentei um pouco na bola debaixo do chuveiro, mas não conseguia encontrar uma posição que realmente me relaxasse.  Eu queria entrar na banheira e pedi que a enchessem. A dor começou a ficar mais intensa e eu vocalizava muito em cada contração.  Mas sentia que me faltava o ar ( o quarto estava quente demais também por causa da banheira sendo enchida) e isso começou a tirar meu foco. Coloquei um roupão e pedi pra sair do quarto, eu precisava tomar ar. Eu gritava durante as contrações e comecei a ficar aflita por estar fazendo isso no corredor do hospital.  E resolvi voltar para o quarto. Eu já não sabia quanto tempo tinha passado e resolvi me concentrar  com mais afinco para controlar a dor, já que eu não tomaria anestesia.  Mudei a “tática” e ao invés de gritar nas contrações, eu respirava fundo e repetia mentalmente, “a dor não me controla, eu controlo a dor”, até que a onda de dor se fosse. Eu fechava os olhos e era como se estivesse dentro  de mim mesma.  Funcionou.

Não sei quanto tempo passei assim, mas quando abri os olhos vi que amanhecia e pedi para o meu marido ficar perto de mim. Eu queria e precisava sentir sua companhia e seu amor, afinal, esse momento era dele também! Depois de um pouco de carinho, voltei a ficar introspectiva e a focar em controlar as dores das contrações, cada vez mais próximas e  intensas. Entrei naquilo que chamam de partolândia e tenho apenas fragmentos de memórias do que aconteceu então. Sei que em determinado momento implorei à doula que me deixasse entrar na banheira, ela relutou, pois achava que ainda era cedo e podia atrasar o trabalho de parto, mas eu fui firme e disse que queria mesmo assim. Então, entrei… E por 10 minutos tive um alívio imenso, cheguei a cochilar, até que fui despertada por uma vontade incontrolável de fazer força. Aquilo me assustou. Eu estava preparada psicologicamente para as contrações, mas para o puxo , não. No parto do Gael eu estava anestesiada e não senti absolutamente nada de vontade de empurrar. Aquilo era novo para mim e, francamente, bem assustador… Helena correu para chamar o médico ( sim, ele não estava na sala até então e nem precisava estar…) e as enfermeiras me davam palavras de apoio. O Juliano se sentou por trás de mim, fora da banheira e eu senti novamente aquele desejo de fazer força. E senti dor, muita dor, mais dor do que eu jamais havia sentido antes. E medo.  Gritei muito ( devo ter assustado o hospital todo, passei o dia seguinte pedindo desculpas às enfermeiras pelo escândalo) e tive vontade de desistir ( como?).  Quis mudar de posição, tentei  ficar de quatro, não rolou e então me ofereceram a banqueta. Aceitei, colocamos dentro da água e me senti mais confortável . O médico me garantiu que na próxima contração o Otto nasceria e de repente a cabecinha saiu. Me sugeriram que o tocasse. E  foi engraçado, pois sempre que via esse momento nos vídeos eu pensava: “jamais terei coragem de fazer, muita aflição”, mas eu o fiz. Senti a cabecinha e os cabelinhos, e aquilo me deu uma vontade enorme de pegar meu filho nos braços! Pedi ajuda ao médico, veio mais uma contração e ploft! Às 8h05 ele nasceu! E estava ali, nos meu s braços. Lindo, saudável, natural. Abracei-o, cheirei-o, só faltou lamber! Coloquei-o no meu seio, ele tentou pegar o mamilo, mas eu estava completamente esgotada e queria deitar. Saímos da banheira ainda ligados pelo cordão umbilical, deitei na cama e ele então mamou. Impressionante como a pega foi naturalmente perfeita! Só então eu me dei conta: eu havia conseguido o parto dos meus sonhos! E meu filho estava ali comigo, de onde não saiu nunca mais.  Todos os procedimentos foram feitos com ele no meu colo ou do meu lado. Alguns minutos depois a placenta saiu, e o cordão umbilical foi cortado por um relutante Juliano. Minha família estava completa! E eu também!

Quero agradecer muito a toda equipe da Casa de Saúde, ao cuidado das enfermeiras, à segurança do médico (Dr Rogério), ao suporte físico e emocional proporcionado pela Helena, minha doula, e o apoio incondicional do meu companheiro, marido e amigo, Juliano. E a compreensão da família, que em nenhum momento questionou minhas escolhas ! É com imensa emoção e alegria que escrevo esse relato. Do MEU parto, literalmente. O parto que eu desenhei, sonhei, visualizei e consegui. Que seguiu tudo que pedi no plano de parto sem que eu sequer precisasse entregá-lo a alguém ( não conseguimos imprimir e fomos sem mesmo).  Gratidão imensa!

Obrigada por me mostrar um novo mundo

8 mar

Imagem

Gael,

Quatro ano atrás, uma hora dessas, minha barriga estava quase explodindo (sério, nunca vi uma barriga daquele tamanho, exceto em gestações de múltiplos) e eu seguindo todas as simpatias possíveis e imagináveis para você nascer logo. Mal sabia que aquelas eram as últimas horas da minha vida como uma pessoa “sozinha”. Porque a gente até sabe que a vida vai virar de ponta cabeça quando seu filho nasce, mas não dá para dimensionar o quanto essa mudança é definitiva.

E é engraçado como eu já nem lembro exatamente como era minha vida pré Gael. O que eu fazia nas minhas horas extras? Como era dormir a noite inteirinha e acordar somente com o toque do despertador? Como era preocupar-se tão somente com o próprio umbigo?

Eu nunca fui de romantizar a maternidade. Ela é transformadora, mas também cheia de percalços e sacrifícios difíceis de encarar. No entanto,o resultado dessa equação é tão positivo, que quanto mais o tempo passa, mas eu sou grata por ter a chance de vivenciar essa experiência. 

Eu, que já dei aulas por alguns anos, tenho uma prazer genuíno em ensinar. Gosto da tarefa de  mostrar o mundo para você. Mas é você, Gael, que me mostra, diariamente, um mundo novo. Com sua honestidade sem malícia,  me relembrando como é simples dizer somente a verdade, sempre. Me ensina o desapego, afinal dou a vida por ti diariamente sem esperar nada em troca.

Contigo, tenho a oportunidade de ser duas vezes mais feliz. Já que suas alegrias, são as minhas também. E às vezes, suas conquistas me fazem até mais feliz que as minhas próprias. 

E como é fácil ser feliz com você. Basta uma piada boba, contada com uma voz engraçada ou um cheiro no cagote. 

E por você, filho, tenho vontade de ser uma pessoa melhor. E sou. Sabe aquele desejo que geralmente as crianças têm de despertar orgulho nos pais? Pois eu quero que você tenha orgulho de mim. Mesmo diante de todas minhas imperfeições.  E que você saiba que sou humana, e que erro, mas que faço tudo, sempre, tentando acertar.

Às vezes, tenho a sensação que nosso amor vem de outras vidas. Mas acho que todas as mães se sentem assim. Eu gosto da minha individualidade e a preservo, mas  sou capaz de sentir saudade de você à noite, tendo te visto pela manhã.  Sou extremamente grata pela missão ser mãe desse menino tão especial, que transformou não só a minha vida e do papai, como a de todos da nossa família. Você nos enche de luz e alegria!

Isso não significa que você não me deixe louca de vez em quando. Aliás, quanto mais eu te amo, mais você me enlouquece. Vai entender o coração de mãe…

Meu príncipe, amanhã é o seu dia. Feliz aniversário. I love you very much.

Beijos,

Mamãe

 

Precisamos falar sobre esse livro!

16 jan

kevin

Os recorrentes school shootings ( tiroteios em escolas) , apesar de chocantes, nunca haviam me tocado tanto quando este último em Sandy Hook. Acredito que pelo fato de ser mãe e as vítimas terem sido  na sua maioria crianças bem pequenas, com idade próxima a do meu filho, fiquei realmente incomodada e triste. Passei  três dias acompanhando as notícias, lendo tudo e tentando entender quais são os motivos que levam alguém a cometer um crime hediondo desses  ( não achei a resposta, claro).

Ao ver o pai de uma das vítimas em um programa de TV, demonstrar preocupação com o que a família do assassino pudesse estar sentindo, eu pela primeira vez pensei nisso. Como seria estar do outro lado? Como agir sendo mãe de um monstro?  O que sentir?

Coincidência ou não, alguns dias depois uma amiga citou o livro “ Precisamos Falar Sobre Kevin” , do qual eu nunca tinha ouvido falar ( e agora sei que  já tem até filme), fiquei  interessada e baixei  no mesmo dia( tecnologia, te amo).

Para minha surpresa o livro era justamente sobre isso. A mãe de uma “mass murderer” expiando sua culpa.  Da autora, Lionel Shriver ( a mesma de O mundo pós aniversário que já citei aqui ), o livro me agarrou de um jeito que preciso compartilhar com vocês.

O enredo e a reflexão são muito bons. A personagem principal é de uma honestidade dolorosa e sua visão seca e crítica da maternidade já vale o livro. Seu esforço em reconstruir mentalmente toda  a existência de seu filho e o relacionamento entre eles , numa tentativa desesperada de compreender exatamente o que deu errado e para onde ir depois disso.

O livro não é fácil de ler e nem de digerir, já aviso. Demorei mais tempo do que o normal para terminar ( tem 400 e poucas páginas),  mas me marcou para sempre.  É uma história que  incomoda, machuca e desconcerta. Fez com que eu refletisse sobre a natureza, boa e ruim, que existe em todas as pessoas, além de trazer um novo olhar para meu relacionamento com meu filho.  Virei fã da autora  de vez e lerei todos os livros dela a partir de agora. Sugiro que vocês façam o mesmo!

Recomendadíssimo!

Direitos iguais?

31 jul

Décadas atrás, umas senhoras que estavam cansadas de ficar em casa bordando, cozinhando, limpando e cuidando dos oito filhos, resolveram fazer uma revolução e queimaram seus sutiãs em praça pública pedindo direitos iguais para homens e mulheres. Tá, não foi exatamente assim, mas vocês entenderam. Foi uma vitória, um avanço, uma revolução. Mas acho que o resultado dessa revolução pode não ser exatamente o que elas tinham em mente.

Sim, hoje podemos votar. Sim, podemos – queremos, gostamos de — trabalhar, não há ~limites~ no mundo para esse gênero multifacetado que é o feminino. Entretanto, não importa o cargo que você ocupa no trabalho, quanto você ganha ou quantas horas você trabalhou no dia, se você chegar em casa e tiver uma pilha de louça suja ou um filho precisando de banho, adivinhem quem é que vai cuidar disso? Você minha querida amiga. Direitos iguais para quem?

Por melhor e mais participativo que seja seu marido ( e nem estou reclamando do meu, que é até acima da média. Love you Ju), na hora que o bicho pega, sobre sempre  para a mulher. Se o filho está de férias, o marido pode dar uma força, mas o encargo é da mãe. Se a empregada faltar, se a babá pedir as contas, o marido vai faltar do trabalho para cuidar da casa e dos filhos? Vai virar a madrugada fazendo serviços domésticos? Em 99% dos casos a resposta é não.

Quem não gostaria, depois de um dia cheio de trabalho, em que você resolve todos os pepinos do mundo, de sentar na sala com os pés para cima e abrir uma cerveja gelada assistindo a novela. E comer aquele prato delicioso que simplesmente brota na sua frente sem que você tenha feito qualquer esforço.  Daí é só dar um beijinho no seu filho amado, que já está banhado e de pijamas na cama, esperando apenas seu boa-noite. Eu gostaria e muito, mas minha realidade ( e acredito que de boa parte da população feminina casada e com filhos) é bem outra.

Reality bites. Mesmo quem tem babá e empregada todos os dias (o que não é meu caso), duvido que chega em casa e não faz mais nada. Nem que seja vestir aquele lingerie caprichado para animar o marido, numa noite em que não se está nada animada. Porque tem mais essa minhas amigas, além de profissional competente e boa mãe, você tem que estar linda e gostosa para seu marido Eu não sei vocês, mas aqui em casa as contas não batem!

É meio que uma maldição essa tal liberdade das mulheres. Na teoria, somos livres para fazermos tudo que quisermos, mas na prática simplesmente não damos conta. Simples assim. Eu me esforço ao máximo para não faltar com meu filho, no trabalho também é complicado baixar o nível. Resultado: ou minha casa fica meio desarrumada ou meu marido fica insatisfeito.

Não há horas suficientes no meu dia (tenho três trabalhos) para dar conta de tudo, ou ao menos, fazer tudo bem feito.  Ando sempre com aquela sensação de dívida, de dever não cumprido. Estou sempre me cobrando por aquilo que não fiz. É mais ou menos a sensação de andar na corda bamba, com as duas mãos ocupadas e um deadline para cumprir. Exaustivo, para dizer o mínimo.

E nesses dias de cão e excesso de tarefas, eu pergunto: valeu a pena queimar a porra dos sutiãs? Porque olha, as ultra feministas vão  me xingar, mas não sei não se eu não preferia estar em casa bordando, cozinhando e cuidando dos meus oito filhos. Tá, oito é demais, podia ser um só mesmo. Ok, ok, estou brincando ( mais ou menos)

Se você ainda não casou e nem tem filhos, não se assuste. Mas também não se iluda achando que com  você vai ser muuuito diferente. O que você pode fazer é educar seus filhos para que eles façam  diferente. É o que tento fazer com o meu!

Ah, e se você é homem e leu isso aqui até o fim, fica a dica: Antes de reclamar que a geladeira está vazia ou que sua mulher não tem tempo para você, coloque-se no lugar dela, nem que seja por cinco minutos.

Vai um segundo filho aí?

23 abr

Acho engraçado como a sociedade sempre tem uma nova atividade a nos impor. Quando estamos solteiros, temos que casar. Quando casamos, temos que ter filhos. E quando temos o primeiro filho, logo vêm as perguntas: e o segundo, quando vem?

Eu nunca fui de me importar muito com os padrões impostos pela sociedade, mas que  enche o saco, enche.

Sou casada há mais de cinco anos e meu filho completou três. E eu ainda não estou pronta para ter um segundo. E para o desespero geral da nação: nem sei se vou estar um dia!

Acho que ideia de ter dois (ou 3, 4) filhos bárbara. Em um mundo ideal, onde eu morasse na mesma cidade que minha mãe ( ou tivesse uma babá), pudesse trabalhar apenas meio período ( ao invés de acumular dois trabalhos) e a mensalidade de uma escola de educação infantil não custasse mil reais, eu já teria, inclusive, tido esse segundo filho!

Mas não é só isso. O comprometimento emocional com um filho é algo sério. Eu não acho que um casal deva decidir ter outro filho só para o primogênito ter um amigo. Ou para ter com quem contar na velhice. Ou porque filho único é igual bicho papão.

Sério, já ouvi cada argumento para me incentivar a ter esse bendito segundo filho…

Nada disso me convence. Em minha opinião, o único motivo plausível para se ter filhos ( qualquer número que seja) é querer muito. Muito mesmo. Porque botar filho no mundo não é igual comprar boneca. Muda tudo, vira do avesso, transforma, bagunça, chacoalha.  É um mini tsunami. Que ao invés de morte e tristeza, te enche de amor. Mas  arrasta sua casa e deixa um rastro de bagunça que não se consegue colocar em ordem novamente tão fácil.

Acho também que vai do temperamento de cada um. Tem pais que são mais relax, levam a vida com mais tranquilidade, sem se preocupar tanto. Eu e meu marido não somos assim. Sou totalmente control-freak e tenho imensa dificuldade em delegar as funções de mãe para quem quer que seja. Eu quero supervisionar tudo, fazer sempre o melhor. Faço com prazer, mas sou intensa demais e isso exaure. Meu gênio também não é fácil. Tenho explosões de raiva e a paciência não é uma das minhas virtudes. Tenho medo do grau de estresse que posso chegar com duas pessoinhas dependendo de mim para tudo. Acho egoísmo de minha parte não pensar nisso também.

Quando Gael nasceu eu estava num ritmo de trabalho completamente oposto ao que estou agora. E meu marido também. Passei 6 meses por conta dele, trabalhando somente 4 horas por semana. Podia contar com meu marido o dia inteiro, para o que precisasse. E ainda assim quase morri de tanta pressão e cansaço. Como eu encaixo mais um serzinho na minha atual  rotina caótica? Eu não consigo ser meia boca. Quero ser mãe por inteiro, quero ser a melhor do mundo e com essa vida não sei se consigo.

Não acredito nesse estereótipo de filho único mimado e egoísta. Tenho uma porção de amigos que não têm irmãos e eles são iguaizinhos a mim. Com defeitos e qualidades como qualquer ser humano. Não acho que eu precise ter um outro rebento para ensinar o meu a dividir as coisas.  Claro que ter irmão é legal. Mas isso não é garantia de absolutamente nada. Pais dedicados e amorosos podem criar um adulto seguro, saudável e bem resolvido. Isso que importa.

Posso dizer que me sinto completa com o Gael na minha vida. Não sinto falta alguma de nada.  O amor que dou e recebo me satisfaz de forma inexplicável. Entretanto, é lógico que a possibilidade de  multiplicar esse amor materno me seduz bastante. Sinto vontade. E também imagino que observar o amor de irmãos seja uma das coisas mais gratificantes dessa vida. Mas por enquanto, a ideia mais me assusta do que encanta.

A decisão ainda não está tomada, e não depende só de mim. O jogo só acaba quando o juiz apita. Ainda iremos decidir como será nossa família. Eu só não quero mais me sentir julgada  ou cobrada por essa decisão.

Três anos em mil

9 mar

Meu pequeno grande amorMal posso acreditar, mas o meu bebê está fazendo três anos. E sejamos realistas, ele não é mais um bebê. Passou rápido demais. Foram 1096 dias tão intensos que já nem lembro como era minha vida antes de Gael. Hoje um molequinho esperto e metido a independente que tem voz e vontade próprias.

E isso muda absolutamente tudo! Como é gostoso ouvi-lo falar palavras difíceis (errado, claro, mas nem corrijo porque é fofo demais) ,  formular raciocínos e fazer perguntas, muitas perguntas. Nossa vida ficou tão mais fácil desde que aposentei minha bola de cristal e não preciso mais adivinhar o que se passa em sua cabecinha. Nos últimos meses finalmente passei a enxergá-lo como um serzinho e não como um prolongamento de mim.

Até porque somos muito diferentes. Ele está sempre bem-humorado e disposto a fazer amizades. Não passa por ninguém sem desejar bom dia ou dizer “ oi, tudo bem?”.  ( Digamos que eu não sou conhecida pelo meu bom humor). É muito atento aos detalhes,  do tipo que nota se você está de sapato novo, ( enquanto eu demoro meses para notar qualquer tipo de mudança na minha própria casa) e preocupado com a felicidade dos que o cercam.

Incansável, é capaz de passar duas horas ininterruptas correndo pelo clube e chegar em casa ainda querendo brincar  de esconde-esconde. Difícil é convencê-lo de que está na hora de dormir. Isso não acontece sem que eu conte ao menos uma história e cante duas músicas. Mas o Universo é tão maravilhoso que, apesar de me mandar um moleque dos mais agitados e sapecas, o fez carinhoso como jamais  sonhei. Do tipo que segura minha mão sem motivo aparente e me acorda com beijinhos ( tá, tem dias que me acorda com tapões também). E me faz sentir a pessoa mais amada e completa do mundo. Meu amigo, meu companheiro.

E eu, que sempre acreditei que realizaria coisas grandiosas e  deixaria um legado para o mundo, tenho hoje a certeza de que já fiz a coisa mais importante da minha vida, que é ter colocado o Gael no mundo. Ele é o meu maior e melhor legado.

Tenho como missão educá-lo para fazer a diferença nesse mundo doido em que vivemos. E é libertador levantar os olhos e parar de mirar no meu próprio umbigo. Que responsabilidade gratificante é olhar para frente e ajudar o meu molequinho a construir um futuro feliz. E eu, sinceramente, não desejo mais nada além disso.

Feliz aniversário, meu príncipe. Meu mundo é um lugar melhor por causa de você!

Ser mãe é…

10 out

Ser mãe é…

Nunca mais dormir uma noite inteira

Saber fazer a dança do Mickey

Sentir culpa por trabalhar

Sentir muita culpa por ter que viajar a trabalho

Sentir mais culpa ainda por gostar de trabalhar

Lembrar de todos os detalhes da vida de seu filho ( e consequentemente esquecer dos seus)

Ter dor nas costas

Perder a coragem de fazer loucuras

Ter a coragem de fazer qualquer coisa por ele

Deixar o mau humor e a timidez de lado sempre que o assunto for seu filho

Nunca mais ver uma criança sem pensar na sua

Ver um menino adolescente e ao invés de pensar – que gatinho- imaginar como seu filho será quando for um ( tá isso é ser mãe e estar ficando velha)

Não fazer planos sozinha

Nunca mais ficar sozinha ( tá, eu sei que isso vai durar até uns 13 anos, mas deixa eu me enganar gente)

Ter o seu coração batendo fora do seu corpo, no corpo de alguém

Ver um pedaço seu virando gente

Ser mais responsável por medo de faltar para o seu filho ( até para atravessar a rua estou mais atenta)

Deixar o umbigo de lado e colocar alguém à frente de suas prioridades para o resto da vida

Babar muito a cada conquista ( hoje ele aprendeu a lavar os pés no banho. é um gênio.)

Amar sem esperar nada em troca

Aprender a fazer duas ou três coisas ao mesmo tempo

Adquirir uma visão raio-x imaginária, que te faz enxergar todos os possíveis perigos de um lugar

Saber o nome de todos os personagens do Backyardigans

Preparar alguém para vida

Ceder a televisão no horário nobre ( e nunca mais ver novela das oito)

Jamais , em hipóteese alguma, ficar incomunicável ( posso estar cobrindo a erupção de um vulcão, mas dou um jeito de achar um número para entrarem em contato caso necessário)

É voltar a ver e ouvir  Xuxa depois de quase 25 anos ( e perceber o quanto a voz dela é insuportável, mas suportar mesmo assim)

Tomar leite puro porque o Nescau está acabando e só dá para um

Deixar de comer o último pedaço da sua torta favorita só porque talvez ele possa querer mais tarde

É escolher um restaurante/bar pelo playground

É chegar atrasada na aula de pilates porque não teve coragem de acordar seu anjinho

Nunca mais chegar na hora certa em lugar algum ( por mais pontual que tenha sido a vida toda)

Ler todos as teorias sobre educação infantil que caírem em  suas mãos e na prática acabar seguindo seu instinto

É ter as paredes de casa rabiscadas, o sofá quebrado e não estar nem aí

É precisar ser dura mesmo quando sua vontade é morder

Descobrir que você sabia fazer tudo isso sem nunca ter aprendido

Carta aberta ao meu grande amor

10 mar

Quem aguenta esse olhar sapeca?

Gael

Filho, hoje você faz dois anos. Não é tanto tempo, mas é o suficiente para eu já nem lembrar como era minha vida antes de você.  Tenho tantas coisas para te dizer e espero ter todo o tempo do mundo para te dizê-las diariamente. Mas há algumas coisas que você precisa aprender sobre sua mãe. Eu adoro escrever cartas e essa certamente será apenas uma delas para você.

Vou ser muito sincera. Aliás, essa é outra coisa que você vai aprender sobre a mamãe. Sou muito sincera, e isso pode até ser uma virtude, mas às vezes magoa. Então já te peço desculpas antecipadas por quando minha sinceridade machucar você. Porque por mais que eu tente ( e tentarei com todas as forças), um dia vou acabar magoando você. E pode ter certeza, que eu vou errar tentando acertar, sempre.

Voltando ao assunto. Pra ser sincera eu nunca imaginei que seria uma boa mãe. Aliás, nunca me imaginei muito como mãe. Embora você tenha sido planejado e muito desejado,  eu me sentia insegura de como exerceria a maternidade. Mas isso mudou no exato instante em que te olhei pela primeira vez. Depois de 15 horas de trabalho de parto ( ou 18, já não lembro mais), vi você ainda com a cabeça meio amassada, sujinho daquela cera branca, senti seu peso no meu peito, e soube que eu seria a melhor mãe que poderia ser.

Você é minha maior aventura.  E apesar de eu reclamar um pouquinho do que deixei de fazer depois que você nasceu ( outra coisa filho, sou reclamona pra caramba, sorry about that), faço tudo sem esforço. Por você, meu príncipe, vale tudo. Cada risada solta, cada cheirinho no cangote, cada beijo espontâneo, ultrapassam mil vezes os perrengues de ser mãe. E não vou mentir, ser mãe não é fácil. Cansa, esgota, exaure. Mas ser SUA mãe, faz toda a diferença.

Eu achei que fosse te ensinar a ver o mundo. Mas a verdade é que sou eu que aprendo contigo o tempo todo. Só com você consegui verdadeiramente apreciar o instante, ser feliz naquele minuto presente, no agora,  ter vontade de congelar o planeta só pra ficar te vendo correr atrás de passarinhos ou dormir esparramado no berço. Você me ensina a ter menos pressa e só isso já é motivo pra eu te agradecer a vida toda.

Eu quero um mundo de oportunidades para você. Tudo que faço hoje é por você. Sou capaz de tudo, matar e morrer, e não estou exagerando.  E sabe o que quero em troca? Absolutamente  nada. Ou quase. Quero mesmo, apenas, que você seja muito feliz.

Por isso meu filho, tente entender se eu ficar chateada no dia em que você me pedir pra não pegar mais na sua mão, ou quando você revirar os olhos por eu dizer algo que você ache antiquado.  E entenda também se eu ficar muito irritada quando partirem seu coração pela primeira vez.  É muito amor, Gael. É amor além do entendimento.  É amor pra toda vida.

Pra encerrar, vou repetir o que te digo sempre, mas acho bom deixar registrado por escrito. Você pode contar comigo para tudo. Estarei sempre ao seu lado, sempre.  Porque não há nada que possa fazer eu deixar de te amar. Entendeu? Que Deus te proteja meu amor.

Feliz Aniversário,

Beijos

Mamãe

Meu eu secreto

28 jan

Da para dizer que ela não é uma menina?

Eu gosto de pensar que não tenho preconceitos, pelo menos conscientemente. Porque se tem uma coisa que me incomoda nessa vida é gente preconceituosa. Obvio que não sou perfeita e muitas vezes me pego fazendo julgamentos apressados de pessoas que mal conheço ( e das que conheço também), entretanto tenho lutado contra isso imensamente. É meu objetivo pessoal parar de julgar os outros. Mas estou aqui falando do preconceito de cor, raça, religião e orientação sexual. Esse eu posso afirmar que não tenho.

Como a maioria das pessoas deve saber, o BBB deste ano teve em seu casting uma transexual, a Ariadna. *(Sim, eu assisto BBB. Adoro. Não vejo diferença alguma entre acompanhar um reality show e acompanhar o Brasileirão. Também não há cultura alguma em ver 22 marmanjos suados correndo atrás duma bola. Então me deixe com o meu lazer e não falamos mais nisso ok?)

E como já era de se esperar ela foi eliminada na primeira semana. Isso me incomodou para caramba, mas confesso que eu nunca entendi muito bem esse lance de transexualidade. Então resolvi me informar melhor sobre o assunto. E acabei descobrindo uma matéria maravilhosa da Barbara Walters sobre crianças transgêneras, chamada Meu Eu Secreto.

Como mãe, eu entendi perfeitamente o dilema das mães da reportagem e tiro o meu chapéu para a sensibilidade com que algumas delas lidaram com a situação. Depois de assistir, ninguém em sã consciência pode continuar chamando os transexuais de pervertidos e nojentos, como já vi muitos fazerem por aí. Fica evidente que os transgêneros nasceram com um transtorno (não há consenso se pode ser considerados “doentes”) e não escolhem simplesmente que querem ser de outro sexo por capricho ou perversão.  O transtorno? “ Nascer em um corpo de homem com cérebro e alma de mulher” , foi assim que Jazz , de seis anos, descreveu sua situação.   Jazz nasceu menino, mas desde os dois anos de idade pedia aos pais que a deixassem ser quem verdadeiramente é, uma menina. A luta da pequena pelo direito de se vestir como menina foi uma das coisas mais emocionantes que assisti!

Coloco aqui os vídeos com a matéria e os convido a assistir tambem. A reportagem toda tem uns 35 minutos, mas se você não tiver tempo, assista pelo menos a primeira parte, o recado já tera sido dado! Para mim foi uma grande lição, daquelas que te fazem pensar para sempre. Assistam e depois me contem!

Primeira parte:  

Segunda parte:

Terceira parte:

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