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Do inferno ao céu e/ou a culpa é de quem? Dia 3 e a sabedoria de Buda

29 jul

Sigo minha saga, mas já adianto que os primeiros parágrafos desse texto não serão tão divertidos quanto os do texto anterior. Entretanto, eles carregam uma sabedoria milenar que pode ajudá-los (as) a ter uma vida muito mais harmônica, consciente e feliz! “Eu agarantcho!!” Se você quiser, você tem livre arbítrio para pular direto para o dia 3, mas estará perdendo a parte mais importante desse post. Então vamos lá:

Você é responsável por 100% do seu sofrimento. Isso mesmo, você aí. Da mesma forma que eu sou responsável por 100% do meu sofrimento, ou da minha miséria, como Buda gostava de falar. Antes de seguir com meu relato pessoal sobre os 10 dias tenho de introduzir alguns dos conceitos e ensinamentos de Buda, para que vocês entendam porque eu passei pelo o que passei. O que afirmo acima não é teoria minha não, é uma das grandes Verdades ensinadas por Buda (e uma das mais importantes pra mim), cerca de 350 anos antes de Cristo (ou seja, direto do túnel do tempo).

Pequeno histórico: Buda tornou-se Iluminado aos 35 anos, após sentar-se embaixo de uma árvore e falar para si mesmo, com toda a disciplina do mundo “Só saio daqui quando estiver iluminado. E tenho dito” (o “e tenho dito” é meu, mas achei legal incluir!), e fechou os olhos em profunda meditação. Ninguém sabe ao certo quanto tempo demorou. Alguns falam dias, outros meses, mas o que se sabe é que não teve sol, chuva, fome, tentações (dizem que o diabo fez uma visita básica pra ele), medos e alegrias que tirassem ele de lá, até ele alcançar seu objetivo.

Depois disso, os livros relatam que ele emanava amor, paz e compaixão aos quatro ventos e que ao vê-lo era possível comprovar que ele tinha atingido a iluminação. Buda passou 45 anos ensinando as técnicas que o levaram a ter êxito e sempre acreditou que todo ser humano (até mesmo um homem que tinha matado 999 pessoas) tinha a capacidade de se iluminar (e não é que o assassino alcançou a iluminação com os ensinamentos de seu mestre?). Assim como Buda, eu acredito que temos o potencial para ser e transformar o que quisermos, logo, me identifico total com meu Buddy Buda!

Buda ensinou a Arte de Viver, leis básicas da natureza que estão totalmente desapegadas de religião ou crenças, ao contrário, ele sempre dizia para seus discípulos e alunos questionarem o que ele estava ensinando e testarem tudo para chegar a sua própria verdade. Entre essas leis, Buda observou que todo sentimento ou emoção acaba caindo nos quesitos felicidade ou tristeza. E que essa felicidade ou tristeza estava baseada em duas atitudes fundamentais que temos: a de desejar profundamente algo ou alguém, ou a de ter aversão extrema em relação a algo ou alguém. As palavras mágicas são: desejo e aversão.

A situação se complica quando, desde pequenos (ou de outras vidas, pra quem acredita em reencarnação), imprimimos na nossa mente memórias do que nos causa desejo (ou qualquer sensação “boa, positiva”) e do que nos causa aversão (ou qualquer sensação “ruim ou negativa”). E é aí que o gato subiu no telhado minha gente. Aí a vaca deitou. Aí o negócio degringolou de vez, pois essas memórias passam a decidir cada minuto da nossa existência… Mas muita calma nessa hora! O problema dessa construção: {desejo ou aversão – memória – reação baseada no desejo ou aversão}, tem uma saída: a saída é você se auto-conhecer e perceber que todas essas sensações “boas ou ruins”, “positivas ou negativas” são impermanentes, são transitórias, logo, não tem porquê apegar-se à elas.

E como conhecer-se melhor? Ahã! Aí veio a maior contribuição de Buda (na minha opinião) que eu não consigo entender porque a psicologia não usa… (mas, enfim, parece que está começando a usar! Demorou em galera?!!): Buda descobriu que não existe inconsciente minha gente! Isso mesmo! O seu inconsciente (que culpamos o tempo todo, desde Freud), na verdade, está totalmente alojado nas sensações sutis do seu corpo. Nas vibrações sutis. E pense que são sutis mesmo, ou algumas vezes mais intensas, ou bem intensas, mas geralmente sutis.

Como isso funciona? Funciona assim: toda vez que você está desejando muito algo, na verdade você está desejando a sensação de prazer que aquele algo ou alguém te traz. E quando você está querendo fugir de alguém ou de algo, você na verdade quer evitar a sensação de desconforto que aquilo ou aquela pessoa te causa. Então como resolver isso?? Simples! Não se apegando às suas sensações e não julgando elas como positivas (que vão gerar prazer) ou negativas (que vão gerar aversão). Se não tem julgamento da sensação, não tem sofrimento e prazer, não tem memória!!

Tudo muito simples, mas a gente complica DEMAIS!!! Buda descobriu que ao conseguir observar as sensações corporais que surgem, sem nos apegar a memória positiva ou negativa que elas trazem, ou sem gerar uma nova memória (no caso de novas sensações), conseguimos quebrar o círculo vicioso de tentar evitar o que traz sofrimento e de se viciar (ou desejar profundamente) o que traz prazer. Então deixa eu te contar um segredo: você não é viciada em chocolate, mas sim na sensação de “prazer” que ela te traz. E você não odeia seu ex-chefe-louco-varrido, você só não quer ter que reviver a sensação desconfortável que a presença dele te trazia. E por aí vai.

Duas palavras muito usadas no curso eram: Anicca (pronuncia-se Anitcha, que vem do Pali, língua antiga que nem existe mais), que significa impermanência; e Equanimidade, que significa (de acordo com o Dicionário Online em Português) ânimo inalterável, sempre igual, tanto na adversidade quanto nos bons momentos, espírito sereno, equilibrado, imparcialidade. Em suma, significa paz de espírito minha gente!! E o que mais você pode querer nessa vida? De que adianta ser milionário (a) e não ter paz e harmonia na sua mente? De que adianta ser gato (a) com força, mas viver estressado (a), deprimido (a), ansioso (a), reclamando da vida?

Buda descobriu que, sempre que uma impureza (como os meus sintomas físicos do texto passado, ou como os 1000 argumentos que minha mente inventou para eu ir embora do retiro) surge na mente, duas coisas então acontecerão fisicamente: 1) sua respiração sai do normal e 2) a química do seu corpo muda e algum tipo de sensação ocorre, muitas vezes de maneira bem sutil (ou inconsciente, como a gente aprendeu na escola!).

Ou seja, qualquer impureza (qualquer uma mesmo) vai gerar uma sensação no seu corpo. E, se você conseguir observar que essa sensação surge, mas logo (ou não tão logo, mas eventualmente) vai embora (ninguém sente o ombro doendo, ou o nariz coçando para o resto da vida, correto?) você concluí, por meio da experiência própria, que tudo é impermanente, e que não adianta se apegar a nada, pois tudo passará, morrerá ou acabará. Claro que dá medo constatar essa que é outra verdade universal, mas também é muito libertador, pois te oferece a opção de viver uma vida mais saudável, sem os dramas diários, sem a montanha russa de emoções, sem o estresse e as consequências físicas dele.

Então aí vão as realidades importantes nas palavras de Lívia: 1) Tudo nessa vida é impermanente (Anicca). 2) O sofrimento existe. 3) É possível cessar o sofrimento. 4) Existem meios (a meditação que eu aprendi) para diminuir/cessar o sofrimento. 5)Todo pensamento ou impureza que surge na sua mente vem acompanhada (o) de sensações físicas. 6) Observando essas sensações (e/ou respiração) você percebe que elas duram pouco. 7) Você enfrenta suas impurezas, já que você está observando-as claramente, mas sem julgamentos (essa é a meditação Vipassana). 8) Você observa que, ao enfrentar e não julgar, as impurezas se dissolvem e você encontra Equanimidade na sua vida e quebra os seus padrões “negativos”.

Que fique claro que estou explicando tudo muito superficialmente e sem tanto conhecimento de causa… Mas isso é o que você aprende durante as técnicas de meditação e as aulas do Goenka. Com isso, fica claro que são nossos padrões de rejeição e/ou vícios (prazer) que causam nosso sofrimento. Você sofre por querer evitar ou rejeitar algo ou alguém, ou você sofre por querer algo e não conseguir, ou, quando consegue, sofre porque acabou ou terminou (ou porque não quer permitir que acabe)… Somos todos meio maluquinhos, né gente?! Então nada de culpar mais seu chefe, namorado, esposa, advogado, contador… Seja responsável por 100% das suas sensações e veja como elas passarão e como não vale a pena gastar energia com elas! Claro que o Goenka fala muito mais sobre outros ensinamentos de Buda, que vão além do que expliquei, mas falarei deles em outros textos, pra vocês não enjoarem logo desse papo filosófico!

Ah! Importante também: muito mais importante (desculpa por repetir palavras) do que ter esses conceitos intelectuais na sua mente é você experimentar o que estou falando, é você comprar um livro pra aprender a técnica ou IR ao retiro Vipassana mais próximo de você (existe apenas um no Brasil, perto de Vassouras. Dizem ser lindo e com quartos individuais) para vivenciar e entender com precisão tudo o que estou relatando. Eu prometo a você que valerá a pena! Mesmo sendo, como eles dizem aqui, bitter-sweet (amargo-doce)!!

E lá vamos nós para o dia 3:

Dia 3: Do inferno ao paraíso em 8 horas

Pareceu final de filme de Hollywood, quando você acorda e tudo foi um sonho. Ou pareceu que eu simplesmente cheguei ao final do brinquedo “Montanha Russa Sua Mente é um Terror” e desci do carrinho. Não sei bem, mas sei que na manhã do terceiro dia acordei leve e saltitante como uma gazela. A sinusite melhorou 80% (“a fantasia Talibã começou a fazer efeito”, pensei) e eu me senti muito melhor. Desencanei de acordar às 4 da matina. Levantei as 5:30, me arrumei, peguei a meia hora final da meditação. Amei escutar o Goenka cantando mantras por meia hora. Foi como se a voz dele estivesse purificando minha mente e alma.

Saí do Dhamma Hall sorrindo. “Que dia lindo, que vida maravilhosa! Quanta gratidão no meu peito”, pensei. “Será que estou em um processo de loucura total e essa tranquilidade faz parte dele”, questionei? Mas o sol brilhava lá no alto e deixei as questões de lado. Depois do café da manhã iniciei algo que depois nomeei de “Movimento Vem, vamos embora, que esperar não é fazer”. Explico: comecei a caminhar em uma das trilhas destinada às mulheres, e que é aberta, logo todas as minhas companheiras me viam, diariamente, caminhando sempre depois do café da manhã e sempre antes ou depois da hora do chá, às 17h. Chamo de movimento porque muitas das outras mulheres seguiram meu exemplo! Uma das alunas, Prachi, indiana de 18 anos, empolgou tanto que andava por quase uma hora todas as manhãs. Fiquei feliz em dar a idéia e em ver que não estávamos mais tão apáticas.

O dia três, mesmo sem eu planejar, foi muito dedicado à criar a minha própria rotina dentro da rotina do Bangú 1 e à meditar sobre o que tinha acontecido nos dois dias anteriores. Eu estava me sentindo tão consciente, tão de volta à realidade. Me senti grata por ter esses 10 dias para estar lá. Me senti grata pela minha amiga que me incentivou à ir (e que eu xinguei todinha no dia anterior! Mas contei tudo pra ela e ela já me desculpou). Me senti grata pela família que tenho, os amigos maravilhosos que me cercam no Brasil e nos EU (e no mundo, Tks God). Me senti grata pela vida que tenho hoje, e por tudo o que vivi e que me trouxe até esse exato momento… esse momento de silenciar-me para o mundo externo, para que eu possa descobrir quem realmente sou internamente.

A meditação aconteceu facilmente. Nesse dia estávamos nos concentrando em sentir as sensações sutis na área do nariz e, minha gente, nunca senti tanta sensação nessa área. Pensa que eu conseguia identificar uma vibração em um pontinho do tamanho de um grão de ervilha, no lado direito, superior interno da minha narina direita. Ou então sentir um formigamento no limite entre o meu lábio superior e a entrada das narinas. Muito doido. Muito legal! Com isso estamos treinando a mente, ou afiando (como eles falam aqui) a mente, para ela conseguir se concentrar e identificar as sensações sutis. Eu fiquei maravilhada com a nossa capacidade de sentir coisas tão intensas e sutis ao mesmo tempo.

O professor me chamou para conversar novamente, pra saber como eu estava. Eu fui uma das últimas a vê-lo e pude constatar que o meu Dia Desespero More 2011 do dia anterior foi o terceiro dia para muitas das minhas companheiras. Duas saíram aos prantos, outras enxugando lágrimas. “Devem ter corrido pro banquinho”, pensei. Minha vontade era de abraçá-las e dizer que no dias seguinte tudo estaria melhor, mas eu não podia. Parênteses aqui: eu sou mega comunicativa e AMO ajudar, logo, quem me conhece deve entender o quanto foi difícil pra mim a ausência de comunicação. Ela foi uma das responsáveis pela minha revolta mental nos dias 1 e 2, mas só no dia 3 consegui me tocar disso.

Entrei na sala do profe já sorrindo. Ele sorriu de volta como quem pensa “eu sábia, já passou, ao menos, por hoje”. Conversamos e eu disse que estava bem melhor. Ele me explicou novamente que a mente é muito inteligente e usa diferentes artifícios para tentar nos tirar da prática. “Provavelmente a sua mente percebeu que só algo físico teria o poder de realmente te devastar”, ele falou. Foi mesmo! Você pode me achar doido (a), mas eu converso muito com a minha mente e a aviso sempre que ela começa a querer atrapalhar minha meditação com argumentos ou pensamentos muito extremos, logo, ela sabia que pra me tirar dos 10 dias a tática tinha de ser tipo Tropa de Elite: tinha de ser operação caveira, entendeu companheiro?

Na meditação da manhã, perto da hora do almoço, dei uma choradinha básica. Dessa vez porque lembrei da minha mãe, com quem eu falo praticamente todos os dias ao telefone. Fazia já 3 dias que não nos falávamos e chorei pensando que ela poderia estar sentindo falta das nossas conversas. Ao mesmo tempo, eu sabia que ela estava bem e que ela sabia que eu estava bem. Agora olha que mágico: quando voltei dos 10 dias e fui checar meu e-mail, minha mãe tinha me mandando um e-mail 30 minutos após meu chorinho, dizendo que estava com muita saudade de falar comigo ao telefone! Isso, meus caros amigos, chama-se comunicação telepática! Pois, se você acha que comunicação telepática envolve um diálogo tradicional, você está enganado. Ela envolve duas pessoas sendo capaz de sentir e dividir o mesmo sentimento no mesmo momento! Eu adorei!

Outra rotina que eu criei foi a de varrer a minha ala no Bangu 1 e também a entrada do Dhamma Hall. Minha gente, basicamente me tornei a Gari do local! Comecei porque fiquei meio indignada com a sujeira (a propriedade é rural, ou seja, terra e lascas de madeira são nosso chão e a sujeira se espalha rápido) e ninguém se prontificando a fazer nada a respeito. Catei uma vassoura que estava sempre por lá, abandonada, e saí limpando. O processo tornou-se diário e percebi que, na verdade, tornou-se uma devoção: uma forma de agradecer à equipe e ao Universo pela oportunidade de estar ali. Se vocês levarem em consideração que eu caminhava bastante todos os dias e ainda limpava as redondezas vocês já concluíram que eu sou uma pessoa ativa. E sou mesmo. As consequências disso eu falarei mais pra frente. Grande parte das minhas companheiras simplesmente dormia ou ficava no quarto nas horas livres das refeições. Eu não. Pensei comigo mesmo: se estou aqui pra “acordar pra vida, pra me tornar consciente, não é dormindo que vou conseguir”.

No dia 3 ainda pensei muito sobre meus sentimentos de desespero (dia 1) decepção (dia 2). Eles também são impurezas que guardamos dentro da gente. Desespero porque não conseguimos controlar a realidade, o que é fato comprovado pela ciência, mas seguimos tentando e quebrando a cara. Decepção porque sempre fui muuuuuito exigente comigo mesma. Melhorei muito nos últimos anos, mas minha exigência ainda está dentro de mim, logo, é algo que ainda tenho que trabalhar, pois estamos aqui pra aprender, errar, ver o que podemos aperfeiçoar e seguir em frente. Culpa, julgamento, exigência, apenas sugam nossa energia e não nos ajudam em absolutamente nada… Pense nisso sempre que você perceber que está se auto-criticando ou auto-punindo. É energia desperdiçada, é ansiedade criada, é inferno na terra meus amigos (as).

O dia acabou bem. Eu grata e contente por estar praticando as técnicas. Na aula da noite Goenka deixou todo mundo com esperança no coração: nos revelou (muitas não sabiam) que no dia seguinte nossa técnica meditativa mudaria e, enfim, passaríamos a meditar como Buda (aprender a meditação Vipassana). Senti na energia do ambiente um certo alívio geral. E também uma certa ansiedade! Estávamos todas super curiosas pra entrar no mundo de Buda! Pra chegar, ao menos, 5% mais perto da paz interior, da iluminação! É amanhã: Vipassana aí vou eu!

PS: Queridos leitores, dias 4 e 5 virão no próximo capítulo! Obrigada por ter lido até aqui!! Aproveite os novos conhecimentos adquiridos no início do texto! Beijo no coração e Namastê!

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Dez dias sem falar, meditando: o Diário de uma sobrevivente Parte I

25 jul

Olá Caro Leitor. Por onde começar esse texto? Os dez dias mais intensos da minha vida? Os mais fantásticos? Os mais difíceis e reveladores? Os de maior raiva, alegria, perdão, insight e gratidão? Não existem termos exatos para definir o que eu passei e senti nos meus 10 dias em silêncio aprendendo a Meditação Vipassana – a meditação originalmente ensinada por Buda, conhecido como “O Iluminado”. Logo, decidi dividir os dias em diferentes textos, pra tentar descrever minhas impressões da melhor maneira possível, pois um só texto não é suficiente para relatar minha aventura, minha viagem ao lugar mais misterioso de todos os lugares: o meu próprio inconsciente. Aviso aos navegantes: o relato é longo, mas eu garanto que vale a pena e que você vai se divertir em pelo menos um dos parágrafos.

Todo mundo que encontro começa me perguntando se eu realmente fiquei em silêncio por 10 dias. Tipo, “nem um “puta merda” quando topava na parede você soltava??”. Caros amigos, sou sempre a favor da verdade, então, aí vai: não fiquei. Era liberada apenas a comunicação com a sua “gerente”, espécie de supervisora/salva-vidas, em caso de emergências ou dúvidas pertinentes; e com o professor designado para auxiliar no curso. No entanto, as palavras se resumiam a 8 frases, quando muito, por dia. A média era de 3 frases diárias, tipo “Sim”, “Estou sentindo isso e aquilo”, “Tudo bem”. De resto, puro silêncio. E no nono dia passei o dia inteiro sem falar uma palavra, mas conto sobre o nono dia em outro texto.

 Primeiro quero deixar bem claro que o curso todo é de graça em todo o mundo (inclusive no Brasil). Sim, de graça! O aspecto mais bonito de todos, na minha opinião! Mas você pode doar o quanto ($$) quiser ou voltar ao local para trabalhar como voluntário (a) (cozinhando, servindo os alunos), o que eles apreciam mais que doação. Entretanto, sendo gratuito, você segue as regras dele direitinho ou então é convidado a se retirar. Assim que cheguei lá e entreguei meu celular (por razões óbvias), a carteira e chave do meu carro, comecei a entender que estava passando por um ritual de entrega total. São dez dias sem comunicação alguma com o resto do mundo, sem livros pra ler, sem diários pra escrever, sem nenhum equipamento eletrônico. É você com você mesmo. E só.  

 

Amigas, não gritem, não se desesperem, mas passei 10 dias sem maquiagem alguma (nem mesmo meu corretivo básico, pois ninguém é obrigado conviver com minhas olheiras), sem perfume ou creminhos cheirosos e, para piorar, sem nenhuma bijuteria ou jóia. Nada de anéis, correntes ou brincos. No primeiro dia ainda consegui usar meu colar com minha pedra ametista fofa pendurada, mas, no dia seguinte, o professor me pediu pra tirar. Sim, isso mesmo, eu vivi a vida de uma freira por 10 dias e não consigo parar de admirá-las. A ausência de apetrechos é libertadora, eu garanto.  

 A rotina era intensa: às 4:20 da manhã o sino tocava para nos acordar e avisar que em 10 min a primeira meditação do dia começaria. Ela ia até às 6:30, quando o café era servido. Das 8 às 9 acontecia a primeira meditação em grupo, o que significa que você é obrigada a ir, a não ser que seja caso de vida ou morte. Depois das 9 outra meditação segue até às 11horas, quando o almoço é servido. Das 12 às 13h o professor atende os alunos com dúvidas ou chama os alunos para fazer perguntas e saber como eles estão indo. Das 13 às 14:30 tem mais uma sessão de meditação. Das 14:30 às 15:30 acontece a segunda meditação em grupo, seguida por meditação aberta (o que significa que vc não é obrigada a ficar lá dentro) até às 17h, quando um Tea Break (ou seja, nada de cafézinho, bolinho, bolachinhas) é servido, acompanhado somente de frutas (esta era a última refeição do dia).

 Das 18 as 19h acontecia a última meditação em grupo, seguida do discurso (ou aula) do Goenka – principal professor de Vipassana e quem guia (por meio de gravação) todo o processo. As aulas eram gravadas e mostradas em duas televisões de tela plana. Apesar de ser uma gravação, era o momento que eu mais gostava, pois o Goenka é um professor muito especial e considerado um Guru entre muita gente. Ele explicava melhor a técnica e falava sobre os ensinamentos originais de Buda, sem os ismos das religiões que seguem ele. Também cantava mantras que no começo achei engraçado (pela forma como ele cantava) e depois acabei me apaixonando. A aula acabava lá pelas 20:30 e aí voltávamos a meditar até as 21h. Das 21h às 21h30 você podia fazer perguntas para o professor. Às 22h todos deveriam estar na caminha, dormindo. E tudo começava novamente no outro dia, mesma sequência, mesmo roteiro, mesmo tudo.

 Quesito comida aos amigos que também perguntaram: vegetariana e, para o meu gosto, muito gostosa! O café da manhã tinha pães, leites (de vaca, arroz e soja), suco, chás, frutas, cereal, aveia, iogurte. Tudo orgânico, sem glúten. O almoço era sempre muito gostoso e variado, com muitas saladas e verduras, arroz integral, mas nada de carne e a sobremesa foi escassa (depois conto como eu materializei os doces – ahã!!). O chá da tarde consistia apenas em frutas e chá. O chá da tarde se tornou motivo de revolta interna e muda para muitos (eu inclusive, claro), mas contarei em outro texto! Ah! E detalhe: alunos antigos, ou seja, que estavam lá pela segunda ou terceira, ou décima vez, não tinham direito a comer no chá da tarde. Só beber chazinho e água com limão. Depois explico o porquê e os benefícios.

Tudo o que precisávamos saber estava escrito em um Código de Disciplina ou em avisos espalhados por todo o retiro, que fica em uma área rural linda, com um lago pequeno, mas que abrigava peixes, cobras (eu vi, eu vi!!), tartaruga, e muita mata nativa de dar gosto de ver. Não era preciso perguntar nada. Tudo estava bem claro e estampado. Até os horários de banho de cada um estava especificado em uma escala, que escolhíamos no primeiro dia. Não tinha desculpa para falar. O jeito era… calar! Meu quarto era pequeno e bem simples. Tinha um beliche e tive tempo suficiente para descobrir que minha roomate (companheira de quarto) era uma diretora-assistente de uma escola em Nova Iorque. Super gente boa e comunicativa. Nos demos bem logo de cara (eu sempre tenho uma sorte lascada com roomates que não conheço – thanks God).

 Cheguei lá às 15h da quarta-feira. Tomei banho, arrumei minhas coisas. Troquei poucas palavras com a roomate e as vizinhas de quarto. Éramos 24 mulheres e cerca de 15 homems alojados no que chamei carinhosamente de Bangu 1 e 2. Carinhosamente porque éramos todos literalmente prisioneiros de nossas próprias mentes. Os homens ficaram absolutamente separados da gente. Os víamos de longe e o máximo que dava pra fazer era dar uma conferida básica na sala de meditação.

 Jantamos às 18h. Depois disso escutamos todos os “pode e não pode” do curso e fomos para o Dhamma Hall (sala principal de meditação) para receber as primeiras instruções sobre a técnica. Uma gravação (sem imagem) do Goenka explicava de maneira simples: “Ah tá! É só focar na minha inspiração e expiração. Meditação focando na respiração. Vou tirar isso de letra”, pensei comigo mesma. Nessa noite às 20:30 já estávamos todas mudas (como diz minha mãe) – ou impossibilitadas de qualquer tipo de comunicação: verbal, gestual e corporal. Evitávamos até olhar nos olhos umas das outras. Às 21h já estava na cama, dormindo, exausta do dia que começou às 5 da manhã, pois dirigi 7:30 horas até o local do retiro.

 Dia 1 – o começo do fim.

Acordei com uma dor de cabeça horrorosa, entenda-se, sinusite. O ar condicionado funcionou a todo vapor (não poderia ser diferente, estamos nos EUA) e eu levantei me sentindo mais bêbada que peru de Natal temperado com vinho e ao molho de vinho. Apesar disso, às 4:30 lá estava eu, feliz e contente, cheia de certeza da minha vitória como meditadora. Quarenta minutos depois eu só conseguia pensar em dormir, e foi isso que fiz. Voltei para o quarto e só me levantei para comer (isso não tem doença que me atrapalhe) o café da manhã.

Primeira meditação em grupo e eu sigo sofrendo com o sono, a falta de concentração, era ressaca na ausência de bebida. Parecia que eu não estava ali, não estava presente… Eu não conseguia pensar claramente, não conseguia focar em nada. Nem minha visão era clara, estava embaçada. Decidi ignorar parte da meditação livre e ficar ao ar livre pra ver se a sinusite passava. O resto do dia passei totalmente sem consciência de mim, lutando pra tentar me manter acordada, mas meu corpo parecia estar em um estado próprio de ressaca interna voluntária. Impossível focar na respiração, impossível achar aquilo tudo prazeroso. “Buda, meu filho, como você conseguiu?”, me perguntava. Não teve jeito – acabei chorando. Chorei de desespero mesmo, por não conseguir me concentrar, por não ter controle sob minha sinusite e ressaca virtual… Decidi proteger meu rosto e garganta dormindo com a cabeça e o pescoço enrolados em uma pashimina, no maior estilo Talibã Carnaval 2011. Quem sabe acordo mais acordada amanhã?

 Dia 2 – mulher à beira de um ataque de nervos.

Dizem que depois da tempestade sempre vem a bonança, mas, no meu caso, veio o dilúvio mesmo. Acordei ainda pior que no dia seguinte e junto com meu mal-estar físico veio uma raiva profunda. Raiva do professor que parecia tão angelical, imóvel e em paz lá no altarzinho dele, raiva da gerente que também parecia contente, raiva da minha amiga e inspiradora que me disse “você vai amar. É tão maravilhoso”. “Maravilhoso aonde minha filha?”. Socoorrrrroooo! Nas meditações da manhã decidi cobrir o rosto com uma mantinha que tinha levado. Isso não permitia que o vento frio entrasse pelas minhas narinas e me deu um certo alívio, entretanto, eu sabia que isso me traria problemas futuros.

 Dito e feito. “O professor quer te ver às 12h”, disse minha gerente. Eu já tinha meu discurso na ponta da língua. E lá fui eu. Expliquei minha sinusite, dor de cabeça, tudo bem técnico e embasado cientificamente. E foi então que ele jogou no chão minha explicação “ego-based” e me explicou o que veio a ser a lição para o resto dos meus dias lá e para o resto da minha vida: todas essas sensações de desconforto são criações da nossa mente e do nosso inconsciente para que evitemos o desconforto, para que sigamos funcionando como sempre funcionamos – são IMPUREZAS (nas palavras dele e de Buda) do nosso consciente ou/e inconsciente.

 Fez muito sentido, mas não me impediu de no meio da conversa cair em lágrimas… Bem, lágrimas eu estou sendo gentil comigo mesma, eu me descabelei total mesmo! “E-eu sooou um-mma meeeeditadorrra” eu e meu ego conseguimos falar entre as lágrimas. “Maaas está di-fí-cil demmaaaaaa-aaais”, completei soluçando. PS: ele já sabia que eu era professora de yoga e meditação. Falamos sobre isso no primeiro dia, onde ele também me chamou, para me pedir pra praticar apenas Vipassana e não a minha técnica nos próximos 10 dias. Claro que eu concordei…

Voltando ao momento-histeria: foi no meu desespero total, finalizado com “Ee-eu estou proo-nta pra iiirrrr embo-raaaa”, que ele usou todo o seu conhecimento de causa (no sentido real, ou só pra amaciar meu ego mesmo) e me disse “Lívia, é exatamente porque você já medita que suas impurezas estão surgindo de maneira tão extrema. Você já eliminou grande parte delas, então as que sobraram são as mais profundas e intensas. Espere até o quarto dia. Nele aprenderemos outra parte da técnica e eu te garanto que tudo vai melhorar”, disse ele, com uma compaixão que poucas vezes vi na minha vida.

Pronto, ele me ganhou no argumento. Primeiro, porque amaciou meu ego “Ahã! Então como já sou uma meditadora muito competente já aniquilei várias impurezas, logo, só restaram as maiores de todas, tipo as últimas fases de vídeo game onde o monstro é quase imortal”, pensei. Segundo, porque me disse que aprenderíamos algo novo! Sem dar mais detalhes! Sou jornalista minha gente, consequentemente, curiosa por natureza! Ele me fisgou. Ao menos a tempo de me acalmar pra sair da sala e passar pelas outras alunas que estavam esperando para falar com ele sem estar no momento “descabelada e devastada forever”.

Mas a calma durou pouco. Exatos 2 minutos, pra ser mais precisa, suficientes para eu me sentar no banquinho de uma das trilhas na mata, chorando como uma prisioneira em primeiro dia de prisão perpétua. Nada como a natureza para testemunhar a miséria humana. Dessa vez chorei de decepção. Decepção por achar que sabia tanto e estar sendo derrotada pelos meus próprios mecanismos de defesa. Decepção por concluir que eu não tinha alcançado “nada” com meus 2 anos de meditação. Me senti falida, me senti fraca, me senti derrotada. Aos poucos o choro passou e a derrota passou a ser raiva.

 A raiva voltou e o ego veio com tudo. “Você tem uma prática excelente. Sua meditação vai muito bem. Você não precisa desse povo aqui não”, misturado com “O que você quer provar para os outros? Acho que você só está aqui por conta desse blog seu ein… Deixa de bobagem, vamos embora!”, argumentava minha mente. Das 13h até às 21h ela (mente) não fez outra coisa a não ser arrumar motivos para eu querer ir embora e para eu imaginar o prazer que sentiria ao entrar no meu carro e dirigir de volta pra casa. Ah! E, pra piorar, meu estômago estava totalmente nauseado (parte da ressaca virtual). Minha vontade era de vomitar o dia todo, apesar de não saber o motivo, afinal, a comida era fresca e bem preparada.

 Da aula do Goenka naquela noite só me lembro da passagem “Parabéns, Você sobreviveu ao segundo dia. Eu sempre digo que o segundo e o sexto dia são os mais difíceis”, ele afirmou com um sorriso ingênuo nos lábios. “Não me diga?”, pensei ironicamente. Eu estava decidida. No final da aula eu avisaria minha gerente que eu estava indo embora na manhã seguinte. Senti o prazer de estar novamente na “minha casa”, “minha cama”. Me perguntava “De onde eu tirei a idéia maluca de perder meus 10 dias de férias pra vir aqui, ficar em silêncio e comer fruta de janta??”.

 A aula acabou e, resumo da noite: saí do Dhamma Hall e a gerente estava exatamente posicionada na minha frente. “É agora ou nunca”. Foi nunca caro Leitor, pois uma força maior do que minha mente, maior do que eu, me fez seguir reto e não falar nada pra ela. Me fez colocar o meu pijama e me enfiar embaixo das cobertas sem nem mesmo passar meus cremes noturnos (esses eu mantive, claro). Tudo o que consegui fazer foi, robóticamente, me jogar na cama e fechar os olhos. Não tinha mantra, não tinha voz, não tinha nada dentro de mim, só o silêncio do cansaço.

PS: para saber sobre o restante dessa saga e mais sobre a técnica e os efeitos dela espere os posts dos próximos capítulos!

Beijo no coração e Namastê!

 

 

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