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Encontro em um dia frio

16 jan

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O frio inesperado gelava seus ossos enquanto  desviava dos carros no trajeto. Os dentes começaram a bater e ela desejou um cachecol como nunca. Considerou a hipótese de desviar do caminho e  ir atrás de uma loja comprar um casaco, mas antes que terminasse seu raciocínio, já estava dentro do pub.

Com sempre, sentou-se sozinha numa mesa alta, no canto do bar e  pediu uma pint de Guiness. Pode sentir seu corpo recuperando a temperatura normal enquanto tentava decifrar qual música a banda tocava. Fechou os olhos para se concentrar melhor na melodia da canção e ao abri-los enxergou uma garrafa de Stella colocada à sua frente, já ia reclamar quando notou que não era a garçonete que estava em sua frente. Não conseguiu dizer nada,  apenas fez um esforço sobrenatural para não desabar ali mesmo.

–  Você ainda toma Stella?- ele perguntou

Pensou em levantar e lhe dar um abraço, mas não conseguiu.  Apenas sorriu com metade da boca.  Eram tantas as coisas não ditas e guardadas durante esses anos, que as palavras se embolaram todas, uma disputando importância com a outra, e resultaram presas na garganta,  sufocadas.  Foi salva pela garçonete que chegou  trazendo a cerveja. Finalmente as palavras se acertaram e ela conseguiu formular uma frase, com o fiapo de voz que lhe restava.

– Agora eu tomo Guiness.

Respondeu, para em seguida beber meia pint em um gole só, arrancando dele um suspiro e um sorriso.

– Eu não imaginei que fosse me sentir assim ao te reencontrar.

– Já eu, tinha certeza. Por isso sempre evitei, mas hoje o universo conspirou a favor…

Ela virou o restante do copo e imediatamente pediu mais uma cerveja:

-Vou te acompanhar na Stella em homenagem aos velhos tempos.

Ele abriu um sorriso largo, meio aliviado, como se soubesse que ela finalmente estava voltando a si. Mais solta, ela emendou um assunto no outro, sem pausa, temendo que o silêncio os fizesse lembrar  daquilo que realmente queriam dizer. Assim, passaram  os primeiros 30 minutos  conversando sobre amenidades, resumindo o que lhes havia acontecido nos últimos anos em que ficaram sem se falar. Deram algumas risadas, sentiram-se tão à vontade que quase acreditaram  ser bons amigos.

Em um momento de descuido, o silêncio os tomou de assalto e, sem alternativa, renderam-se.  Seus olhares preencheram o vazio deixado pela falta das palavras. Ela tentou se distrair, olhando para a coleção de bebidas por trás do balcão, mas podia sentir os olhos dele, fulminantes, enxergando sua alma.  Alguém abriu uma janela e uma golfada de ar frio lhe gelou a espinha. Em uma fração de segundos começou a tremer, sentia tanto frio que mal conseguia raciocinar.  Seu corpo todo chacoalhava e ela já não sabia se aquilo era apenas frio ou resultado daquele encontro. Ele se aproximou e cobriu-a com o seu casaco. Durante o movimento, seus joelhos se tocaram , lembrando-a de tudo que ela se esforçava tanto para esquecer.  Pediu mais uma cerveja, a saideira.

– Preciso ir embora.

Ele consentiu com a cabeça. Pede para eu ficar vai. Silêncio. Ela novamente tentou desviar a atenção,  lendo  os rótulos das garrafas detrás do balcão. Ainda podia sentir os olhos dele acompanhando cada movimento seu. Olhou para o teto, mas não havia nada que pudesse distraí-la ali.

– Por que fica olhando para essas garrafas toda hora?

– É uma tática.

– Tática?

– Pra não manter contato visual.

– E funciona?

– Não… Para de me olhar desse jeito vai.

–  Por quê?

– Porque parece que você está lendo meus pensamentos.

– É que eu estou pensando a mesma coisa que você.

Como me esconder desse homem que me conhece do avesso? O que eu posso dizer que ele já não saiba?

Sorrateiramente  seus corpos  escorregaram  de seus bancos e se aproximaram, atraídos como ímãs. Se respirassem  um pouco mais profundamente, suas pernas se tocariam de novo. Ela sorriu com o pensamento, mas suas palavras não concordaram com suas ideias:

– Eu não acho que isso aqui seja uma boa.

–  E não é. Mas desde quando  a gente se importa com isso?

Desde quando? Não saberia responder. O fato é que agora ela se importava com isso. E precisava partir, ou perderia o ônibus e a razão. Levantou-se na direção dele e perguntou se podiam dar um abraço.

– Devemos.

Sentiu  a força dos seus braços em sua  cintura e decidiu prolongar o momento. Aproveitou o calor e o cheiro daquele corpo tão familiar. Recebeu um beijo demorado, no canto da boca, e saiu. Sentiu uma bola de espinhos se formando em seu peito, subindo até a garganta e enchendo seus olhos d’água. Com a visão meio embaçada, saiu  para a rua. O vento não parecia mais tão gelado. Percebeu que estava de casaco e sorriu.

 

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