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Os pezinhos que mudaram nossas vidas

10 nov
Pezinhos já corrigidos e lindos de viver!

Pezinhos já corrigidos e lindos de viver!

Era um dia de abril e pela primeira vez meu marido não me acompanharia no ultrassom de nosso segundo filho. Seria o exame morfológico, aquele que avalia as medidas de todos os órgãos, eu estava bem tranquila e acabei não fazendo tanta força pra que ele fosse comigo. No segundo filho a gente relaxa.

Quando o exame começou, percebi um pouco de ansiedade. Afinal, o maior medo de toda mãe ( e pai) é que seu filho não seja perfeito. Essa ansiedade desapareceu assim que avistei suas mãozinhas.  1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10; contei mentalmente seus dedinhos. Ufa. Depois o médico avaliou cada orgão, tudo ok e passou para as perninhas e pezinhos. Lá vou eu de novo 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10; Ufa! Todos os dedinhos estavam ali. Minucioso, o doutor se prolongou um pouco naquela região, disse que estava com dificuldade para visualizar os pés. Acabei me distraindo e quando voltei ao mundo, quase dez minutos já haviam se passado, e só então me toquei que algo de errado devia estar acontecendo. Senti meu coração quase saindo pela boca e amaldiçoei o momento em que resolvi ser “independente” e liberei meu marido deste ultrassom. Olhei o médico nos olhos. Ele parecia seguro do que ia me dizer, embora um pouco cuidadoso. –  O bebê apresenta uma curvatura anormal dos pés, tudo indica que seu filho tem Pé Torto Congênito.

Meu mundo acabou. Faltou fôlego e forças nas pernas. O médico continuava falando, mas era como nos desenhos do Snoopy quando o Charlie Brown só ouvia a professora dizendo bla bla bla bla bla bla. As lágrimas escorriam pelos meus olhos e eu queria sair dali correndo. Apenas escutei o médico dizer,” tem tratamento, é só fazer uma cirurgia e vai ficar tudo bem”.  Como assim fazer cirurgia? Levantei da cadeira quase cambaleando, os olhos embaçados e saí do laboratório transtornada. Só consegui ligar para o Juliano e chorar muito. Ele assustou coitado, achou que eu tivesse perdido o bebê. Então quando eu disse que nosso filhinho nasceria com um problema nos pés, ele acabou sentindo certo  alívio. No caminho até nossa casa fui dirigindo, quer dizer, acho que meu anjo da guarda assumiu o controle. Eu chorava, urrava, gritava e tentava acessar a internet do celular pra entender o que era esse PTC ( Pé Torto Congênito). As primeiras fotos que apareceram foram tão aterrorizantes que só me fizeram chorar mais. Eu estava devastada. Cheguei em casa, abracei meu marido e choramos juntos o luto de nosso filho idealizado; para logo abraçar a ideia do nosso filho “real” e muito amado.

Passado esse tremendo susto inicial, dediquei meus dias para pesquisar sobre o assunto e o tratamento. Encontrei alguns sites, blogs e grupos de mães de filhos com PTC. E ao ler um dos blogs, acabei encontrando o contato daquele que seria seu médico ( Dr Jose Volpon, professor da USP) e o tipo de tratamento que iríamos seguir: o método Ponseti. Ler aqueles relatos encorajadores e ver as fotos dos pequenos guerreiros sorridentes e com os pezinhos perfeitos foram um bálsamo para minha alma. Eu enfrentaria o que estivesse pela frente! Ou seja, seis trocas de gessos ( do pé até a coxa), uma cirurgia para alongamento de tendão ( tenotomia) e aproximadamente 4 anos de órtese.

Levei algumas semanas para digerir a notícia. Foram dias sombrios, de muito medo e insegurança. Mas o conhecimento mais profundo do assunto e a certeza de que Deus sabe o que faz foram, pouco a pouco, me trazendo paz. Eu só pensava que o bebê precisava da minha calma para se desenvolver bem e que de nada adiantaria eu me desesperar. Em momento algum senti revolta ou questionei o porquê. Aceitei logo o desafio que me foi imposto e realmente enxerguei nele uma oportunidade de fortalecer nossa família. E foi realmente o que aconteceu! O restante da gravidez foi tranquilo e aproveitei esse tempo para estudar sobre o PTC e conversar com o médico.

O dia do nascimento foi mágico ( conforme relatei aqui: https://tresnortes.wordpress.com/2014/09/16/relato-do-meu-parto-fabiana-e-otto/) e todo e qualquer medo se dissipou por completo. Dizem que nem sempre o amor de mãe nasce junto com o filho; mas o meu nasceu. Foi só eu segurar o seu corpinho e olhar aqueles pezinhos tortinhos ( coisinhas mais lindas de Deus) pra meu coração bombar de ocitocina e transbordar amor imediatamente.

Com 8 dias de vida Otto iniciou o tratamento e levamos uma vida absolutamente normal desde então. Costumo dizer que se no dia do ultrassom fatídico eu soubesse como tiraríamos tudo de letra, eu não teria sofrido e temido tanto. Não é fácil, mas também não é tão difícil assim. Difícil é quando não tem tratamento! Neste caso não só há tratamento, como o prognóstico é de sucesso total!

Com pouco mais de 70 dias de vida Otto já usou 7 gessos, fez uma cirurgia e agora usa uma órtese ( que chamamos de botinha) que o irá acompanhar até aproximadamente os quatro anos de idade para manter seus pezinhos ( agora já perfeitos) firmes no lugar. Falando assim parece um bicho de sete cabeças, mas de verdade, não é. O ser humano tem uma capacidade incrível de se adaptar e os bebês então…

Tudo isso tem nos ensinado diariamente. Hoje vejo os pequenos desafios da vida em sua real proporção, sem dramas; tenho o coração cheio de gratidão pela família linda que criamos e pela oportunidade de crescer como ser humano. Aprendi que uma adversidade terá em sua vida a proporção que você der a ela. E aqui escolhemos não dar prioridade a isso! A vida continua e nosso menininho é lindo, amado e perfeito do jeitinho que ele é! Graças a Deus e ao avanço da medicina seus pés estão perfeitos e ele poderá ter vida normal, andar, correr, jogar bola, fazer o que quiser.

SOBRE O PTC (Pé Torto Congênito)

Apesar de ser um susto para os pais, o pé torto congênito é um problema relativamente comum nos recém-nascidos – 1 em cada 1.000 nascem com ele. A causa dessa deformidade é desconhecida, por isso ele é chamado de Pé Torto Congênito Idiopático.

A maioria dos pés tortos podem ser corrigidos ainda quando bebês em seis a oito semanas com manipulações adequadas e aplicação de gesso. O tratamento é baseado no entendimento da anatomia funcional do pé e da resposta biológica de músculos, ligamentos e ossos às alterações de posicionamento obtidas pelas manipulações seriadas e aplicação de gesso. O tratamento que traz melhores resultados é o idealizado pelo médico americano Dr Ponseti, que deu nome a técnica.

O tratamento deve começar na primeira ou segunda semana de vida para aproveitar a elasticidade favorável dos tecidos que formam os ligamentos, cápsulas articulares e tendões. A criança tratada de pé torto logo ao nascer poderá desenvolver um pé normal, seja no aspecto, seja na função.

UMA PALAVRA AOS PAIS

Se você chegou até o blog porque descobriu que seu filho(a) tem PTC: Acalme seu coração! É mais fácil do que parece, não deixe que o diagnóstico perturbe sua gravidez.

Aproveite para já pesquisar sobre o tratamento e escolher seu médico. Ter tudo isso definido antes do nascimento ajuda bastante.

Participe de grupo de mães e pais de filhos PTC . Trocar experiências com quem já passou ou está passando pelo mesmo desafio ajuda a nos fortalecer e até resolver problemas que nos parecem muitos difíceis, mas que já podem ter sido solucionados por outras mães.

Prepare seu enxoval levando em consideração que seu bebê passará boa parte do tempo engessado ou com órtese, ou seja, diga adeus aos macacões com pezinhos e até mesmo às calças.

A questão do banho costuma assustar os pais ( afinal, dar banho num recém nascido já não é fácil, ainda mais com as duas pernas engessadas).  Eu segui essa dica de uma mãe e fomos muito felizes no banho >>https://www.youtube.com/watch?v=75z8DXK9Pwg  ( também mandei confeccionar dois saquinhos de tecido impermeável para cobrir as perninhas e evitar possíveis acidentes aquáticos).

Muito importante: Converse com seu bebê. Explique a ele cada etapa do tratamento, avise-o de tudo que vai ocorrer. Parece bobagem, mas mesmo pequeninos eles já têm um nível de entendimento e isso os deixa  mais seguros e confiantes, o que faz toda a diferença!

Gesso: uma dica preciosa>> Os gessos costumam levar o dia todo para secar e úmidos incomodam bastante, podendo até causar ( mais) cólicas. Usei o secador em todas as vezes e meu pequeno não teve problema algum pra se adaptar com os novos gessos. Muito cuidado para não queimar o pele do bebê, use o secador  a uma distância segura das perninhas e mire sempre apenas na área do gesso.

Se seu filho precisar fazer a cirurgia, o que ocorre em 90% dos casos, não se desespere. O procedimento é simples ( muitos médicos fazem apenas com anestesia local), o pós operatório é tranquilo e o resultado é maravilhoso. Aliás, durante todo o tratamento, quando o “bicho pegar” : FOCO NO RESULTADO!

Indicação de sites

http://www.petorto.com.br

http://www.professorvolponusp.com/artigo/26/cr/P%C3%A9%20torto%20cong%C3%AAnito/

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Relato do MEU parto – Fabiana e Otto

16 set

otto

Exatas quatro semanas após o nascimento do Otto, consigo sentar para escrever o relato. Coisa que não consegui fazer com o Gael, nem tantos anos depois. É impossível falar de um parto sem pensar no outro.  Seis anos atrás eu era apenas uma menina que queria muito ter parto normal  em uma cidade onde isso era quase impossível na rede privada. E eu nem sonhava muito com humanização, eu só queria conseguir parir meu filho no dia em que ele quisesse nascer e sem precisar cortar camadas e camadas da minha barriga. Isso eu consegui, e já foi suficiente para que eu me sentisse vitoriosa.  Tanto que apaguei das lembranças todas as intervenções ( e violências) desnecessárias, pra guardar apenas o que me importava na época: eu consegui! Bendita memória seletiva!

Então veio a segunda gravidez e após anos sendo ativista do parto normal, havia chegado a hora de conseguir o parto dos meus sonhos.  Igualzinho a todos aqueles relatos que eu sempre lia com lágrimas nos olhos. Eu estava decidida, não só eu iria parir meu filho quando ele quisesse nascer, mas eu seria a protagonista desse momento! E ai de quem tentasse me impedir!

Em um primeiro momento, eu e meu marido chegamos a cogitar o parto domiciliar. Mas após muita reflexão, percebemos que não teríamos coragem e buscamos uma segunda opção. Ribeirão agora era uma cidade com alguns médicos humanizados e escolhemos o que nos pareceu mais dedicado à causa. Entretanto, o doutor estaria fora da cidade justamente quando eu completasse 39 semanas e algo me dizia que o Otto decidiria nascer justamente nesse período. Então fomos conhecer a maternidade da Casa de Saúde de São Carlos,  e imediatamente nos apaixonamos pela estrutura humanizada do hospital, pelas enfermeiras e pelo médico.

Completei  39 semanas em uma quinta-feira. No final de semana perdi o tampão,  era um sinal de que meu corpo estava se preparando para o dia D, mas eu já sabia que isso ainda podia levar dias ou semanas. No começo da noite de domingo comecei a sentir contrações fortes. Não eram mais “treinamento”, eram reais. Após algumas horas elas ainda não tinham pegado ritmo e começaram a esvanecer. Falei com a Helena, minha doula, que me alertou que deveriam ser os pródomos e me sugeriu  tomar pulsatilla ( homeopatia) porque se fosse TP mesmo, elas engrenariam e se não fosse, elas espaçariam. E elas espaçaram. ..

Fiquei bem frustrada com esse alarme falso e resolvi tirar a segunda-feira de folga. Juliano passou o dia comigo, passeamos de carro,  fomos ao super mercado e abastecemos a casa. Sentia as contrações o dia todo, mas como eram leves e desritmadas, ignorei-as.  À noite elas ficaram mais fortes, mas não contei para ninguém com medo de mais um alarme falso. Depois de uma hora elas continuavam e mais fortes, comecei a contar e os intervalos eram de 7 , 8 minutos. Avisei a doula que me mandou parar de contar e tentar dormir. Frustração tomou conta de mim de novo e tentei dormir. Mas não dava. Elas doíam. Meu marido tinha acabado de dormir e a Helena também. Eu não queria acordá-los para um alarme falso, então entrei no chuveiro para ver se melhorava. Devo ter passado uns 20 minutos debaixo da água quente e eu sentia que elas só aumentavam. Foi aí que “desobedeci “ a doula e voltei a contar: 5 em 5 minutos. Eu comecei a tremer e senti que não havia mais dúvidas: era a hora! Acordei o Juliano  e pedi pra ele ligar pra Helena. Mal consegui falar com ela no telefone e ela apenas disse: estou indo praí, arrume suas coisas que já vamos pra São Carlos. Tive uma descarga de adrenalina e comecei a tremer muito.  Minhas coisas já estavam arrumadas então liguei para minha mãe vir de Rio Preto para Ribeirão, ela ficaria com o Gael meu filho mais velho, e chamamos minha cunhada pra  ficar com ele enquanto ela não chegasse. Era uma da manhã e embora eu tivesse inicialmente a intenção de levá-lo conosco para São Carlos, acabei achando que eu ficaria mais à vontade sem ele por perto. Sábia decisão!

A doula chegou e colocou uma cinta com bolsa de água quente nas minhas costas o que aliviou muito a dor das contrações, montamos no carro e fomos. Pedi para colocarem uns mantras para tocar na viagem e me conectei com o que estava acontecendo.  O trajeto até São Carlos  durou uns 40, 50 minutos e nesse período tive apenas umas 3 ou 4 contrações. Temi que fosse outro alarme falso, mas acho que foi apenas providência divina mesmo.

Chegando ao hospital senti as contrações voltando a se intensificar, demos entrada e a enfermeira obstétrica fez um exame de toque: 4 cm de dilatação. Não era muita coisa, mas era ALGUMA coisa e fiquei feliz. A enfermeira me avisou, “olha vai demorar, então não fique ansiosa”. Mas em algum lugar dentro de mim eu senti que ela estava enganada.

Eram 2h30 da manhã quando entramos no quarto. A Helena fez a iluminação ficar mais fraca, colocou minha playlist pra tocar e enquanto ela e o Juliano descansavam um pouco, eu tentava me concentrar o quanto pudesse. Eu queria vivenciar aquele momento por inteiro, eu respirava fundo a cada contração e sentia prazer ( sim, prazer) em assistir meu corpo trabalhando para trazer meu filho ao mundo. Depois de não sei quanto tempo ( eu abandonei meu celular, relógio e etc) comecei a me mexer, andar de um lado para o outro, quando senti minha bolsa estourar. Saiu tudo de uma vez, cataploft no chão, e muita água. Encharcou meu vestido e eu não tinha levado nenhuma outra roupa!! A doula me avisou que agora as contrações iam realmente começar a pegar força e ritmo. Resolvi ir para o chuveiro e passei um bom tempo por lá, a água quente aliviava a dor, sentei um pouco na bola debaixo do chuveiro, mas não conseguia encontrar uma posição que realmente me relaxasse.  Eu queria entrar na banheira e pedi que a enchessem. A dor começou a ficar mais intensa e eu vocalizava muito em cada contração.  Mas sentia que me faltava o ar ( o quarto estava quente demais também por causa da banheira sendo enchida) e isso começou a tirar meu foco. Coloquei um roupão e pedi pra sair do quarto, eu precisava tomar ar. Eu gritava durante as contrações e comecei a ficar aflita por estar fazendo isso no corredor do hospital.  E resolvi voltar para o quarto. Eu já não sabia quanto tempo tinha passado e resolvi me concentrar  com mais afinco para controlar a dor, já que eu não tomaria anestesia.  Mudei a “tática” e ao invés de gritar nas contrações, eu respirava fundo e repetia mentalmente, “a dor não me controla, eu controlo a dor”, até que a onda de dor se fosse. Eu fechava os olhos e era como se estivesse dentro  de mim mesma.  Funcionou.

Não sei quanto tempo passei assim, mas quando abri os olhos vi que amanhecia e pedi para o meu marido ficar perto de mim. Eu queria e precisava sentir sua companhia e seu amor, afinal, esse momento era dele também! Depois de um pouco de carinho, voltei a ficar introspectiva e a focar em controlar as dores das contrações, cada vez mais próximas e  intensas. Entrei naquilo que chamam de partolândia e tenho apenas fragmentos de memórias do que aconteceu então. Sei que em determinado momento implorei à doula que me deixasse entrar na banheira, ela relutou, pois achava que ainda era cedo e podia atrasar o trabalho de parto, mas eu fui firme e disse que queria mesmo assim. Então, entrei… E por 10 minutos tive um alívio imenso, cheguei a cochilar, até que fui despertada por uma vontade incontrolável de fazer força. Aquilo me assustou. Eu estava preparada psicologicamente para as contrações, mas para o puxo , não. No parto do Gael eu estava anestesiada e não senti absolutamente nada de vontade de empurrar. Aquilo era novo para mim e, francamente, bem assustador… Helena correu para chamar o médico ( sim, ele não estava na sala até então e nem precisava estar…) e as enfermeiras me davam palavras de apoio. O Juliano se sentou por trás de mim, fora da banheira e eu senti novamente aquele desejo de fazer força. E senti dor, muita dor, mais dor do que eu jamais havia sentido antes. E medo.  Gritei muito ( devo ter assustado o hospital todo, passei o dia seguinte pedindo desculpas às enfermeiras pelo escândalo) e tive vontade de desistir ( como?).  Quis mudar de posição, tentei  ficar de quatro, não rolou e então me ofereceram a banqueta. Aceitei, colocamos dentro da água e me senti mais confortável . O médico me garantiu que na próxima contração o Otto nasceria e de repente a cabecinha saiu. Me sugeriram que o tocasse. E  foi engraçado, pois sempre que via esse momento nos vídeos eu pensava: “jamais terei coragem de fazer, muita aflição”, mas eu o fiz. Senti a cabecinha e os cabelinhos, e aquilo me deu uma vontade enorme de pegar meu filho nos braços! Pedi ajuda ao médico, veio mais uma contração e ploft! Às 8h05 ele nasceu! E estava ali, nos meu s braços. Lindo, saudável, natural. Abracei-o, cheirei-o, só faltou lamber! Coloquei-o no meu seio, ele tentou pegar o mamilo, mas eu estava completamente esgotada e queria deitar. Saímos da banheira ainda ligados pelo cordão umbilical, deitei na cama e ele então mamou. Impressionante como a pega foi naturalmente perfeita! Só então eu me dei conta: eu havia conseguido o parto dos meus sonhos! E meu filho estava ali comigo, de onde não saiu nunca mais.  Todos os procedimentos foram feitos com ele no meu colo ou do meu lado. Alguns minutos depois a placenta saiu, e o cordão umbilical foi cortado por um relutante Juliano. Minha família estava completa! E eu também!

Quero agradecer muito a toda equipe da Casa de Saúde, ao cuidado das enfermeiras, à segurança do médico (Dr Rogério), ao suporte físico e emocional proporcionado pela Helena, minha doula, e o apoio incondicional do meu companheiro, marido e amigo, Juliano. E a compreensão da família, que em nenhum momento questionou minhas escolhas ! É com imensa emoção e alegria que escrevo esse relato. Do MEU parto, literalmente. O parto que eu desenhei, sonhei, visualizei e consegui. Que seguiu tudo que pedi no plano de parto sem que eu sequer precisasse entregá-lo a alguém ( não conseguimos imprimir e fomos sem mesmo).  Gratidão imensa!

Vai um segundo filho aí?

23 abr

Acho engraçado como a sociedade sempre tem uma nova atividade a nos impor. Quando estamos solteiros, temos que casar. Quando casamos, temos que ter filhos. E quando temos o primeiro filho, logo vêm as perguntas: e o segundo, quando vem?

Eu nunca fui de me importar muito com os padrões impostos pela sociedade, mas que  enche o saco, enche.

Sou casada há mais de cinco anos e meu filho completou três. E eu ainda não estou pronta para ter um segundo. E para o desespero geral da nação: nem sei se vou estar um dia!

Acho que ideia de ter dois (ou 3, 4) filhos bárbara. Em um mundo ideal, onde eu morasse na mesma cidade que minha mãe ( ou tivesse uma babá), pudesse trabalhar apenas meio período ( ao invés de acumular dois trabalhos) e a mensalidade de uma escola de educação infantil não custasse mil reais, eu já teria, inclusive, tido esse segundo filho!

Mas não é só isso. O comprometimento emocional com um filho é algo sério. Eu não acho que um casal deva decidir ter outro filho só para o primogênito ter um amigo. Ou para ter com quem contar na velhice. Ou porque filho único é igual bicho papão.

Sério, já ouvi cada argumento para me incentivar a ter esse bendito segundo filho…

Nada disso me convence. Em minha opinião, o único motivo plausível para se ter filhos ( qualquer número que seja) é querer muito. Muito mesmo. Porque botar filho no mundo não é igual comprar boneca. Muda tudo, vira do avesso, transforma, bagunça, chacoalha.  É um mini tsunami. Que ao invés de morte e tristeza, te enche de amor. Mas  arrasta sua casa e deixa um rastro de bagunça que não se consegue colocar em ordem novamente tão fácil.

Acho também que vai do temperamento de cada um. Tem pais que são mais relax, levam a vida com mais tranquilidade, sem se preocupar tanto. Eu e meu marido não somos assim. Sou totalmente control-freak e tenho imensa dificuldade em delegar as funções de mãe para quem quer que seja. Eu quero supervisionar tudo, fazer sempre o melhor. Faço com prazer, mas sou intensa demais e isso exaure. Meu gênio também não é fácil. Tenho explosões de raiva e a paciência não é uma das minhas virtudes. Tenho medo do grau de estresse que posso chegar com duas pessoinhas dependendo de mim para tudo. Acho egoísmo de minha parte não pensar nisso também.

Quando Gael nasceu eu estava num ritmo de trabalho completamente oposto ao que estou agora. E meu marido também. Passei 6 meses por conta dele, trabalhando somente 4 horas por semana. Podia contar com meu marido o dia inteiro, para o que precisasse. E ainda assim quase morri de tanta pressão e cansaço. Como eu encaixo mais um serzinho na minha atual  rotina caótica? Eu não consigo ser meia boca. Quero ser mãe por inteiro, quero ser a melhor do mundo e com essa vida não sei se consigo.

Não acredito nesse estereótipo de filho único mimado e egoísta. Tenho uma porção de amigos que não têm irmãos e eles são iguaizinhos a mim. Com defeitos e qualidades como qualquer ser humano. Não acho que eu precise ter um outro rebento para ensinar o meu a dividir as coisas.  Claro que ter irmão é legal. Mas isso não é garantia de absolutamente nada. Pais dedicados e amorosos podem criar um adulto seguro, saudável e bem resolvido. Isso que importa.

Posso dizer que me sinto completa com o Gael na minha vida. Não sinto falta alguma de nada.  O amor que dou e recebo me satisfaz de forma inexplicável. Entretanto, é lógico que a possibilidade de  multiplicar esse amor materno me seduz bastante. Sinto vontade. E também imagino que observar o amor de irmãos seja uma das coisas mais gratificantes dessa vida. Mas por enquanto, a ideia mais me assusta do que encanta.

A decisão ainda não está tomada, e não depende só de mim. O jogo só acaba quando o juiz apita. Ainda iremos decidir como será nossa família. Eu só não quero mais me sentir julgada  ou cobrada por essa decisão.

Ser mãe é…

10 out

Ser mãe é…

Nunca mais dormir uma noite inteira

Saber fazer a dança do Mickey

Sentir culpa por trabalhar

Sentir muita culpa por ter que viajar a trabalho

Sentir mais culpa ainda por gostar de trabalhar

Lembrar de todos os detalhes da vida de seu filho ( e consequentemente esquecer dos seus)

Ter dor nas costas

Perder a coragem de fazer loucuras

Ter a coragem de fazer qualquer coisa por ele

Deixar o mau humor e a timidez de lado sempre que o assunto for seu filho

Nunca mais ver uma criança sem pensar na sua

Ver um menino adolescente e ao invés de pensar – que gatinho- imaginar como seu filho será quando for um ( tá isso é ser mãe e estar ficando velha)

Não fazer planos sozinha

Nunca mais ficar sozinha ( tá, eu sei que isso vai durar até uns 13 anos, mas deixa eu me enganar gente)

Ter o seu coração batendo fora do seu corpo, no corpo de alguém

Ver um pedaço seu virando gente

Ser mais responsável por medo de faltar para o seu filho ( até para atravessar a rua estou mais atenta)

Deixar o umbigo de lado e colocar alguém à frente de suas prioridades para o resto da vida

Babar muito a cada conquista ( hoje ele aprendeu a lavar os pés no banho. é um gênio.)

Amar sem esperar nada em troca

Aprender a fazer duas ou três coisas ao mesmo tempo

Adquirir uma visão raio-x imaginária, que te faz enxergar todos os possíveis perigos de um lugar

Saber o nome de todos os personagens do Backyardigans

Preparar alguém para vida

Ceder a televisão no horário nobre ( e nunca mais ver novela das oito)

Jamais , em hipóteese alguma, ficar incomunicável ( posso estar cobrindo a erupção de um vulcão, mas dou um jeito de achar um número para entrarem em contato caso necessário)

É voltar a ver e ouvir  Xuxa depois de quase 25 anos ( e perceber o quanto a voz dela é insuportável, mas suportar mesmo assim)

Tomar leite puro porque o Nescau está acabando e só dá para um

Deixar de comer o último pedaço da sua torta favorita só porque talvez ele possa querer mais tarde

É escolher um restaurante/bar pelo playground

É chegar atrasada na aula de pilates porque não teve coragem de acordar seu anjinho

Nunca mais chegar na hora certa em lugar algum ( por mais pontual que tenha sido a vida toda)

Ler todos as teorias sobre educação infantil que caírem em  suas mãos e na prática acabar seguindo seu instinto

É ter as paredes de casa rabiscadas, o sofá quebrado e não estar nem aí

É precisar ser dura mesmo quando sua vontade é morder

Descobrir que você sabia fazer tudo isso sem nunca ter aprendido

Moms just wanna have fun?

2 dez

Eu já fui da balada no sentido mais positivo que essa constatação possa ter. Curtia sair, dançar até os pés doerem, me arrumar, ficar bêbada alegre ( ou não beber e ficar alegre também), esticar a noite até o dia seguinte. Muitas vezes fui uma das últimas a ir embora, eu era realmente muito animada. Mas tudo muda o tempo todo, como já cansamos de dizer aqui.

E quem tem filhos pequenos sabe o quanto é difícil pegar uma balada. Pra não dizer impossível. Então, quando surge uma oportunidade, a gente se joga mesmo com toda empolgação do mundo. Sábado foi aniversário de 30 anos da minha comadre e ela resolveu comemorar com uma festa anos 80. A última vez que fui a um evento temático eu tinha 20 anos, portanto adorei a ideia. Estávamos precisando de um tempo para nós, sem pensar em filho, apenas nos divertindo e bebendo. Era hora de eu deixar meu lado mãe guardado na gaveta e voltar a ser a party girl, só por algumas horas.

Quem lê esse blog com freqüência já sabe que quando eu era criança adorava me fantasiar de Madonna no filme Procura-se Susan desesperadamente. Adivinha com qual roupa eu fui à festinha? Até meu marido, que odeia essas coisas, entrou no clima. Então me dediquei à escolha da roupa da festa como se fosse noiva para um casamento. Me maquiei como há tempos não fazia e cometi a ousadia de colocar uma botinha de salto alto (depois que virei mãe aposentei os saltos, já que correr atrás de filho espoleta requer agilidade e conforto, daí é rápido pra desacostumar a se equilibrar neles). Consegui a melhor baby sitter do mundo, minha mãe! Deixe-a colocar o Gael para dormir e parti, com um apertinho no coração, pois ele estava um pouco doente. Mas minha mãe cuidou bem de mim, vai saber cuidar dele também – afirmei mentalmente pra me livrar da culpa.

Já a caminho da festa senti meu estômago embrulhar. Exatamente na hora em que eu me decidia a tomar litros e litros de vodka. Eu estava psicologicamente preparada para um porre. Mas senti que aquilo havia sido um aviso pra eu pegar leve e ficar na cerveja. Obedeci, não discuto muito com meu sexto sentido. Quando cheguei à festa, percebi que eu talvez tivesse sido a única que conseguira uma baby sitter de última hora. Estavam todos meus amigos com os filhotes no colo ou correndo pelas mesas. Segurei dois nenês por um bom tempo, corri atrás da minha afilhada algumas vezes e quando cansei, decidi que estava na hora de entrar no clima party e beber. Depois de umas quatro cervejas, meu pé começou a doer de modo insuportável (maldito salto) e resolvi sentar. Até porque, vamos combinar que cerveja não é a bebida mais empolgante do mundo né? Cerveja é boa pra tomar sentada em bar e não dançando em festa, mas enfim. RPM começou a tocar, procurei meu marido pra dançar ( não que ele dance, mas ao menos me faz companhia) e o encontrei brincando com uma bebezinha linda, que ensaiava os primeiros passos. Ela era a coisa mais fofa do mundo, admito, ainda assim dei aquele olhar “hoje não” pra ele, mas não funcionou. Fui descaradamente trocada por uma mulher mais nova. Mas eu ainda estava decidida a deixar meu lado mãe engavetado, certo? Mesmo sozinha.

Peguei a quinta cerveja e me aproximei de uma rodinha de mulheres. Passados alguns minutos, estávamos discutindo alegremente qual o melhor momento para se ter um segundo filho e as dificuldades de fazer uma criança dormir á noite toda. Nesta hora percebi que a sexta cerveja não ia descer redonda e que se eu tivesse um pouco de sorte e determinação conseguiria ir embora calçando as botas (e não descalça como eu desesperadamente gostaria). As crianças já tinham ido embora, junto com minha animação e arrastei meu marido porta afora. Deu saudade do meu filho.

Ao chegar em casa, sóbria graças a Deus, dou de cara com minha mãe de pé. Gael tinha acordado assustado e ensopado de suor e ficou me chamando por horas. Só voltou a dormir na cama com eles. Joguei as botas na sala, arranquei a roupa e os apetrechos todos com mais rapidez que adolescente na primeira vez e voei para acudir meu pequeno. Dormimos juntinhos.

Resumo da ópera: difícil retomar o caminho do pé na jaca quando se tem filhos pequenos. E impossível deixar o lado mãe dentro da gaveta, pelo menos por enquanto.

Ah, fiquei sem graça de colocar uma foto minha aqui. Mas a fofa da Gabi Yamada me publicou no post dela de hj, passa lá pra ver: www.gabrielayamada.blogspot.com

Eu não nasci para ser mãe

28 set

 

Esse olhar diz tudo não é?

Nunca entendi direito o conceito “nascer para ser mãe”. Embora eu tenha amigas que afirmem isso categoricamente e outras que nem precisam dizer, pois está escrito em cada molécula de seu corpo. Mas comigo é diferente, nunca tive esse espírito maternal.

Não tenho lembrança de ter tido nenhuma boneca-bebê, não gostava de brincar de mamãe e filhinha e etc. Meu negócio eram Barbies descoladas, solteiras e sempre muito apaixonadas – mas sem filhos. Minhas historinhas nunca acabavam com “e eles casaram e tiveram muitos filhos”.

Ao contrário do meu marido, cujo maior sonho sempre foi ser pai, ter filhos para mim foi  uma conseqüência natural da vida e nunca um objetivo em si. E foi assim, naturalmente, que decidi (mos) engravidar. Senti pela primeira vez o desejo com o nascimento de minha afilhada, mas ainda achei cedo e esperei a vontade passar. Num dia dos namorados, nasceu a filha de outros amigos e fomos visitar. Embalada pela emoção e romantismo da data, disse ao meu marido saindo do hospital: “acho que hoje a gente pode começar a tentar”. E engravidei na primeira tentativa!

Apesar de feliz, fiquei um pouco assustada. Não imaginei que aconteceria tão rápido. Eu não me sentia totalmente preparada, então li todos os livros que estavam ao meu alcance e fiz o possível para ter a gravidez e o parto mais saudáveis do mundo. Na minha cabeça, era o melhor que eu podia fazer.

E então o Gael nasceu ( depois de uma gravidez tranquilíssima e um parto normal). Agora é a hora que vocês devem estar me esperando dizer : e a maternidade foi a coisa mais linda que me aconteceu. Mas aqui não. Posso escolher uma série de adjetivos para explicar o que a maternidade significou para mim, muitos deles positivos, mas nenhum  sinônimo de lindo.

A maternidade me deixou mais responsável, consciente e presente. Por outro lado me enlouqueceu, literalmente. A turbulência hormonal me causou um baby blues bem forte (não conseguia deixar meu marido sair de casa por mais de 30 minutos). Subverteu a ordem da minha vida, alterou drasticamente a dinâmica do meu casamento, exterminou minhas noites de sono por longos 10 meses, murchou meus peitos e manchou minha pele. Foi o ano mais difícil da minha vida (somado a uma mudança de cidade e carreira). Ser mãe é tudo, menos fácil e lindo.

Mas calma! Não estou aqui querendo acabar com o seu sonho de ser mãe ( ou pai). Ao contrário, estou querendo apenas que seu sonho seja mais pautado na realidade do que no mundo de fantasias das propagandas de fraldas infantis. E olha que meus livros me alertaram muito sobre isso ( A Encantadora de Bebês – excelente e minha biblia por um ano)!

Mas se você quer saber, eu passaria por tudode novo e quantas vezes fossem necessárias para ter o Gael na minha vida. Porque simplesmente não dá nem para imaginar mais o meu mundo sem aquela vozinha chamando “mamãe” todas as manhãs. Pois apesar de agora eu dormir mal pra caramba, não existe cena mais linda do que ver meu molequinho capotado no berço, durante a madrugada. Nada me satisfaz tanto quanto sentir o cheiro de sabonete daquela curvinha do pescoço, depois do banho. Ou ver aquela carinha gostosa rindo com todos os seus 12 dentes para mim. E, sem dúvida nenhuma, posso dizer que a melhor coisa do mundo é receber dele um abraço apertado e um beijo estalado. Por mim, a vida podia congelar neste instante e eu seria feliz para sempre. Porque eu não nasci para ser mãe, eu nasci para ser a mãe do Gael!

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