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Tocando em frente

10 jun

Quando somos sensíveis a vida, ela nos mostra pequenos milagres diariamente. Entretanto, todos nós temos grandes momentos de transformação que são responsáveis pelos principais traços da nossa personalidade. Eu conto alguns dos meus abaixo, no primeiro post-lista que escrevo (Fabi é a escritora oficial de listas do blog!). Fique à vontade para contar os seus também!!

1)      Sair de casa. Aos 17 anos eu me mudei para Campinas, não tinha mais como escapar: era hora de deixar o conforto do ninho! Lembro-me perfeitamente que no primeiro dia na nova vida eu chorei ininterruptamente por mais de duas horas. Foi como parir um novo eu. Chorei o medo, chorei o passado, chorei o namorado que ficou, chorei o fim das mordomias de casa e o carinho materno, chorei o que não sabia, chorei quem era e chorei quem viria a ser. Não existe nada mais transformador do que abrir mão da sua segurança e abrir as asas para o desconhecido. Nunca mais chorei como naquele dia. Do choro renasci para uma nova Lívia.

2)      O dia em que meu tio morreu. Pela primeira vez vi meu pai chorando, vulnerável, entregue a dor. Pela primeira vez vi o luto nos olhos dos meu irmão e senti a indignação dele pela vida ter nos tirado alguém tão especial. Senti junto. A dor nos transforma em um só. Pela primeira vez me arrependi verdadeiramente: durante a doença do meu tio eu me afastei… não sabia muito bem como administrar o que estava acontecendo. Difícil administrar a morte de quem amamos. Me arrependi por muitos anos. Hoje sei que a distância foi o que de melhor eu consegui “fazer” naquele momento. Ele foi um transformador de vidas, meu tio… Sua morte me mostrou o quanto é importante comunicar o que sentimos e dividir nossas vidas e momentos com quem amamos.

3)      O dia em que minhas palavras geraram justiça. Na minha aventureira vida de jornalista tive a oportunidade de escrever matérias de denúncia, com algumas delas, graças a Deus, resultando em processos criminais e justiça para as vítimas. Na primeira delas, denunciei uma creche muito pobre onde o dono, um ex-militar, colocava crianças em quartos escuros com seu cachorro pastor alemão dentro ou fazia outras tantas torturas horríveis, “para gerar disciplina” entre os pequenos… No dia em que ele foi setenciado a pagar indenização aos pais das crianças vitimadas e escutei de uma das mães “Muito obrigada, nunca pensei que justiça fosse possível pra gente pobre”, entendi porque eu estava viva e o que realmente me fazia feliz. Não existe nada mais realizador do que ajudar e trazer de volta a fé e a coragem das pessoas.

4)      O meu divórcio. Entre as coisas que tenho mais gratidão  está o meu casamento. O amor que senti pelo meu ex-marido me mostrou o quanto sou capaz de amar e hoje entendo que posso expandir esse amor não só para relacionamentos amorosos, mas também para toda a humanidade. Ao mesmo tempo, meu divórcio (ou melhor dizendo, meu casamento) me mostrou minha sombra, meus aspectos negativos, aquela versão negra que sempre tentamos esconder. Como esposa, nos meus momentos dark side, fui infantil, ciumenta, medrosa, fraca, submissa, histérica (como diria Freud)… Ainda tenho tudo isso dentro de mim, mas hoje aceito minhas loucuras e lido com elas de forma bem mais positiva. Negar nossa sombra é negar nosso eu. Deixar nossa sombra nos controlar é negar nossa alma. Culpar o outro pela nossa sombra é viver com os olhos e o coração vedados.  Relacionamentos são obras do destino para nos mostrar onde ainda temos de melhorar. Ao me divorciar me permiti ser quem realmente queria ser. Me permiti explorar a vida sem tanto julgamento, preconceito, rigidez. Deixei a luz entrar. Descobri minha vida espiritual durante o processo e isso foi fundamental para ser quem sou hoje. Ao meu casamento, ex-marido e ao meu divórcio sou grata.

5)      O dia em que decidi deixar o Brasil. A vida ia bem. Emprego, namorado, salário estável. Mas meu coração pedia mais. Nunca esquecerei. Eu estava deitada na minha cama, falando com meu irmão ao telefone, quando ele me convidou para ir morar com ele por um tempo. Ele não sabe, mas foi como se Deus falasse comigo por meio dele. Meu corpo todo se arrepiou. Naquele momento eu sabia que não tinha volta. Um mês e meio depois fechei minha vida no Brasil. Tudo fluiu de maneira fácil. Uma amiga-irmã me disse antes de partir “É um novo país, uma nova terra. Lá você pode ser quem você quiser. Nunca se esqueça disso”. Eu não esqueci. Ser quem eu realmente quero ser é meu trabalho diário. Me desapegar das normas e regras impostas por uma sociedade doente e vazia estão no meu cardápio constantemente. Sempre busco escolher a liberdade. Mesmo que me doa. Mesmo que o medo venha junto. Mesmo que as vezes não funcione! Sempre vale a pena, pois ela, a liberdade de ser minha verdade, ela é minha!

6)      O dia em que aprendi a meditar. Pode parecer cena de filme, ou loucurinhas de Lívia, mas no dia em que recebi meu mantra no primeiro workshop de meditação do Chopra Center, em fevereiro de 2009, foi como se tudo o que vivi até aquele momento estivesse me preparando para aquela experiência. Entrei na sala esfumaçada de incenso. O cheiro era inebriante. Éramos só eu e a instrutora. Ela cantava docemente um mantra longo, parte da cerimônia de entrega do meu mantra pessoal. Meus olhos estavam fechados. Vi claramente a cena do meu nascimento. Vi a sala do hospital São Paulo. Senti quem eu era e o que pensava. Eu não queria nascer… eu estava cansada dessa vida mundana. “Outra encarnação não vai gente…”, reclamei algo do tipo… Me sentia cansada da vida na Terra, da loucura desvairada que criamos pra/na humanidade. Não teve jeito. Já estava do lado de fora, chorando. Entendi, naquele dia, naquele fevereiro, ao meditar em meio ao fumacê e sentindo cada célula do meu corpo vibrando, que minha missão aqui ainda é longa, e bela, é rica. Me reencontrei com minha alma. Voltando ao momento do parto, acariciei aquele criança mal-humorada (que segui sendo por muitos anos) e expliquei pra ela que tudo ia ficar bem. Que a vida seria cheia de aventuras, e dramas, e amores, e amigos, e poesia e luz. Mas acima de tudo, que tudo ia ficar bem. Meditar, pra mim, segue sendo esse ritual místico e mágico de recordar  diariamente que, quando vivemos alinhados com o espírito, tudo sempre acaba bem. E assim é!

E você? Quais foram os momentos que te transformaram profundamente? Beijo no coração e Namastê

Morte II: a volta dos que não foram!

30 set

Há algumas semanas escrevi sobre a morte e, como sei que tudo o que perguntamos a resposta vem na hora certa, nas semanas seguintes tive várias pequenas respostas para o tema! O filme que falo no texto anterior já foi uma das respostas e, não curiosamente, dias depois, em uma conversa sobre o sentido da morte, no ápice de um diálogo bem filosófico, do nada, saiu da minha boca: “A morte é a resposta para a vida”!

 Eu e a outra pessoa ficamos impressionadas com o poder da frase, pois essa é a mais pura verdade! A morte nos lembra da importância de estarmos vivos e de aproveitar cada minuto com intensidade! A resposta que ambas buscávamos veio de mim sem eu mesma saber que a tinha e essas palavras mágicas mudaram bastante nossas vidas! E é isso caro leitor: use o fato da morte ser inevitável para viver plenamente, sem rancores, julgamentos, e outras pequenas bobagens que tiram sua paz de espírito! Lembre-se o quanto você é abençoado em muitos aspectos, celebre sua vida!! Ame, cante, seja autêntico (lembre-se, esta é a semana da autenticidade)! Celebrar a vida!! Delícia né?!

 A terceira resposta chegou logo depois, no livro A Roda da Vida (de Elisabeth Kubler-Ross) que recebi de presente de aniversário de uma amiga-irmã! Elisabeth é uma médica famosa mundialmente por seus livros e palestras sobre a morte, tema que ela estudou/ensinou por anos! O livro é uma auto-biografia maravilhosa, um exemplo de vida, pois Elisabeth foi sempre guiada por seu coração e ajudou milhares de pessoas ao longo de sua caminhada. Ela fala bastante sobre a morte e publico aqui as passagens que penso serem as mais belas, porque vem de conclusões da autora após conversas que ela teve com pessoas que experienciaram a morte, mas voltaram para seus corpos (gente que foi reanimada principalmente em hospitais, mas que ficou sem nenhum batimento cardíaco ou sinal vital por uns bons minutos). Aqui vai:

 “Todas as pessoas passam por dificuldades na vida. Algumas são grandes e outras não parecem tão importantes. Mas são lições que temos de aprender. Fazemos isso também das escolhas, das opções. Para se ter uma boa vida, e consequentemente uma boa morte, digo para as pessoas para fazerem suas escolhas tendo em vista o objetivo do amor incondicional e perguntando a si mesmas: “Que serviços estou prestando?

 A capacidade de fazer escolhas é a liberdade que Deus nos deu, a liberdade para crescer e amar.

 A maior dádiva de Deus para nós é a livre escolha. Nada é por acaso. Tudo na vida acontece por uma razão positiva.

 A única finalidade da vida é crescer. A suprema lição é aprender como a mar e ser amado incondicionalmente.”

 Lindo e profundo, não?! Espero que tenha iluminado suas idéias tanto quanto iluminou as minhas! Beijo no coração, siga na autenticidade e Namastê!

Animais de estimação, tô fora!

20 ago

Gael feliz da vida no dia em que ganhou os periquitos

Eu tive poucos animais de estimação na infância. Minha mãe nunca curtiu muito e não cedia aos meus apelos por um cachorro ou um gato. Acho que no fundo ela sabia que sobraria para ela mesmo, pois nunca tive jeito com os bichos. Embora até tentasse.

 Certa vez, depois de muita insistência consegui um pintinho, que vendia no Mercadão da cidade. Vinha dentro de uma caxinha de papelão cheia de furinhos. Enquanto ele ficou lá dentro, fui a criança mais feliz do mundo. Mas quando chegamos ao quintal e ele foi solto, teve início meu tormento. Eu morria de medo dele! Quanto mais ele crescia, maior meu pânico. Até que um dia, já pinto feito, ele desapareceu. Segundo relatos da época, foi vendido ao dono da banca de jornais. Coincidentemente, neste mesmo dia o almoço foi frango ensopado.

 
Me lembro também de ter tido um casal de peixinhos. Coisa mais linda. Comprei aquário, comida, enfeite. Jurei ser a melhor cuidadora de peixes do mundo. Morria de medo deles passarem fome, então a cada cinco minutos jogava uma comidinha lá, para garantir. Duraram dois dias. Morreram por excesso de alimentação e tiveram direito a funeral e enterro. Foi triste.
 
Ah, teve a tartaruga ( na verdade um jaboti, mas só aprendi a diferença há uns dois anos) que ganhei para me curar da bronquite e funcionou.  Logo nos primeiros dias dela em casa, choveu e a protegi com uma caixa de sapato, mas esqueci de resgatá-la ao final da chuva. Lembrei só no dia seguinte, mas a bichinha era forte e saiu dessa. Ficou com a gente até eu fazer uns 12 anos. Naquela vidinha sem-graça. Depois minha mãe deu para o pedreiro que fazia uma reforma lá em casa. Acho que foi melhor pra ela, a vida na minha casa era uma chatice, coitada.
 
No meu aniversário de 18 anos minhas amigas me deram um poodle toy. Minha mãe ficou super feliz, imaginem.  Cuidei bem dele, dei todas as vacinas, aguentei o choro noturno do baby dog. Foi um mês intenso de amor. Daí chegaram as férias, passei na faculdade e precisei comemorar em Maresias. “E o cachorro?”, perguntou minha mãe. “Ah, ele aguenta uma semana sem mim”, respondi. Bom, quando cheguei minha mãe já tinha passado o Pip’s pra frente. Deu pra minha tia. Eu nem pude reclamar, pois estava arrumando as malas pra mudar pra São Paulo e não tinha mesmo condição de levá-lo comigo.
 
Dez anos depois, morando sozinha eu decidi investir novamente no mundo aquático e comprei um peixe beta. Ou melhor, três, num espaço de dois meses. Morreram todos sem que eu descobrisse a causa. Mas eu estava realmente a fim de me dedicar ao mundo animal. Era um espécie de desafio, antes de casar e ter filhos, sabem? Meu marido ( então namorado) comprou um casal de hamsters para nós. Aquelas bolinhas de pelo eram tão fofinhas. Na primeira semana, um deles teve uma doença no sistema nervoso e pirou. Passei uma noite com ele agonizando, sem dormir e chorando. Dia seguinte levei ao veterinário, que o internou, à espera da morte. Morreu antes do anoitecer. Triste demais. O companheiro ficou traumatizado com a morte prematura e se transformou num rebelde. Mordia quem chegasse perto. Resultado: peguei pânico dele e depois de mais uns meses insistindo, doei o bicho. Nunca mais sequer perguntei se estava vivo. Era o fim das minhas tentativas frustradas de ter um bicho de estimação. Ou não…
 
Um dia a escolinha do meu filho resolveu presentear os aluninhos com um peixinho, daqueles minusculos. Claro que ele adorou. Lá vai a mama comprar comida de peixe, providenciar aquário. Já estava começando a me afeiçoar ao peixinho quando ele surgiu morto no meio da minha cozinha. Saltou do aquário e deu um fim a sua vidinha medícocre. Dessa vez preferimos nem contar ao Gael, que sinceramente nem deu a falta do amigo.

Quando achei que tinha superado minhas tragédias com o reino animal, lá vou eu envolvida com os bichos novamente. Gael ganhou um casal de periquitos. Por um tempo só almoçava se  aves estivessem junto, quase matava os dois de infarto de tanto bater na gaiola. Uma alegria só. E a gente tendo que limpar gaiola, colocar comida, proteger do frio. Agora sim eu entendi o que minha mãe queria dizer… Mas enfim, por ele vale tudo. Até que inesperadamente um dos periquitos apareceu morto na gaiola. Assim, de uma hora para outra. Morreu mesmo feito um passarinho. Lá vamos nós explicar o sentido da vida e da morte para Gael. Ele não entendeu muito, mas ao menos ainda sobravava um periquito.

O tempo passou. Estava conosco há 5 meses, era parte da família. Eu já pensava até em dar um upgrade na gaiolinha dele. De repente, não mais que de repente, a gaiola amanheceu vazia e torta. Esqueci o passarinho para fora durante uma noite e ele foi brutalmente assassinado por um gato. Sobraram penas e um rastro de sangue. Ainda não sei o que dizer ao Gael. Só tenho certeza de uma coisa: bicho de estimação NUNCA MAIS!
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