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Mundo dos Sonhos

16 set

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Os tambores tocavam em um ritmo lento e profundo. O calor da fogueira fez com que pequenas gotas de suor nascessem entre seus seios.

Ela entrou na tenda com um suspiro longo.

Seu mestre a esperava .

Um faixo de fogo, suficiente pra iluminar as duas almas e refletir a sombra de seus corpos, chamou sua atenção.

Não tinha volta…

Sua jornada, suas escolhas, o processo…

Ele lhe deu uma faca.

“Corte a ponta do seu dedo indicador esquerdo. Com as gotas faça um círculo onde ambos caibamos”, disse.

Um rápido tremor correu seu corpo, mas ela seguiu as instruções.

“Tire seu vestido, mas deixe o cabelo solto”, ele determinou.

O pudor da nudez já não fazia mais parte daquela relação. Muitas Luas já haviam se passado onde ambos estavam nus, próximos, mas não para o que estava por vir.

“Entre no círculo. Sente-se. Inicie a meditação que fizemos da última vez”.

Ela assim o fez. Não sabia dizer se foi a vibração da música lá fora, se foi a intenção daquela cerimônia, se foi a Lua crescente banhando seus companheiros de jornada que, tocando tambores, sabiam o que aconteceria; mas foi rapidamente levada para uma área de vegetação densa. Avistou um templo de colunas brancas e douradas. Caminhando vagarosamente em sua direção, sentiu a presença de seu mestre. Continuaram andando em silêncio.

No templo centenas de pessoas os esperavam. Mais tambores, a Lua os seguia. Subiram as escadas do templo. Ambos vestidos de branco. No alto, uma espécie de palco coberto de peles de animais. Duas fogueiras, uma à esquerda e outra à direita, iluminavam o local. Tiraram suas roupas. A batida da música era frenética, mas um silêncio profundo ditava o ritual. Deitada, nua, sentiu a meia-lua surgindo como uma queimadura em seu terceiro olho. Voltara à sua essência.  Seu mestre a penetrou vagarosamente. Ela abriu a boca, seus olhos se fecharam por um momento. Era a hora de sentir. Os cântigos começaram e, apesar de pressentir a familiaridade de tudo aquilo, não lembrava mais como cantá-los.

Se deixou levar pelo ritmo. Seu corpo movia-se de acordo com a pressão do corpo dele, de acordo com a sensação de que o Divino estava em cada milímetro de prazer. A certeza de que o sexo continha o segredo da criação do Universo… O sexo continha o segredo da cura. Sentiu-se a Sacerdotisa que por muitas primaveras abeçoou o solo, as águas, o ar, as borboletas daquela região. Seus olhos abertos concentravam-se somente nos olhos de seu mestre. Seu cheiro lhe remetia a algo conhecido, algo que por muito tempo ela permitiu que lhe tomasse por inteira. Suas mãos deslizaram pelas costas dele e tornou-se impossível não soltar gemidos, suspiros, palavras que saiam de forma primitiva de sua boca. Sons que ela não lembrava de onde vinham. Uma prece de êxtase, de gozo. Nada podia roubar sua liberdade. Alí não existia restrição. Alí ela era.

Contida pela vibração do momento, não soube definir quanto tempo havia passado até o final da cerimônia. Gentilmente, seu mestre a vestiu novamente. Entregou-lhe um cesta de flores brancas, colocou algumas das flores em seu cabelo. Beijou seus olhos, beijou seu queixo, testa. Passou seus dedos em seu cabelo. Abraçou-a. Sabiam que o trabalho estava encerrado e que finalmente aquela comunidade voltaria a receber as bençãos da Deusa. De mãos dadas desceram as escadas. Os tambores haviam parado. Escutava-se apenas o barulho da brisa. Um beija-flor dourado e azul cruzou seus corpos duas vezes e desapareceu entre a multidão. Seguiram caminhando em direção à mata.

Ao abrir os olhos já era manhã. Seu mestre estava sentado a sua frente, dentro do círculo.

“Bom trabalho”, ele disse, com um sorriso nos lábios. 

Na frequência certa

18 dez

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Há tempos venho namorando a ideia de ir a um retiro, mas nunca tinha rolado a perfeita conjunção de fatores – tempo, dinheiro, oportunidade e companhia – para eu realizar esse desejo.  Talvez eu não estivesse pronta.  Então surgiu esse curso de meditação no Parque Visão Futuro, um lugar do qual eu já havia ouvido falar muito, e quatro amigas toparam ir.

Depois de nos perdermos absurdamente ( quatro mulheres,  dois GPS e 222 opiniões diferentes), chegamos ao parque ecológico. Já estava escuro e embora não pudéssemos enxergar quase nada, era possível sentir o cheiro do perfume das flores. Isso, perfume das flores. Eu não sei vocês, mas eu, sempre que imaginava cheiro de flores, pensava em cheiro de velório, coroa de flores, sei lá. Não era algo agradável. Fiquei encantada com essa nova sensação e é a primeira coisa que me vem a mente quando lembro do parque.

Iniciamos o dia seguinte com uma palestra sobre meditação. Com dados científicos e tal. Tem até um Departamento de Harvard estudando o assunto, vejam só. Provavelmente para apaziguar os ânimos dos mais céticos como eu. Nesse momento, meu senso crítico ainda estava afloradíssimo. Eu estava observando as pessoas e meio que zoando e colocando apelidos em  todo mundo, mentalmente.  A fundadora do Parque, Susan Andrews, que carinhosamente chamamos de monja ou Didi, é uma americana que após anos morando na Índia decidiu vir para o Brasil montar uma ecovilla e ensinar aos outros a procurar a felicidade dentro de si mesmos.  Eu não sou muito atenta para a energia das pessoas, mas a dessa mulher é algo impossível de se ficar imune. Ela irradia uma luz a quilômetros de distância. E repito: não sou do tipo que vê luz irradiando das pessoas. Mas só de olhar para ela, dá vontade de sorrir, abraçar. Agradecer. Uma hora ela pegou na minha mãe, e juro, era como se eu estivesse de mãos dadas com um anjo. Difícil descrever sem soar piegas ou deslumbrada.

Na hora da primeira meditação, senti muita dor nas costas, um calor insuportável e fui atacada por pernilongos. Mudei de lugar no meio do processo (imagine a cara das pessoas com a louca aqui levantando no meio do silêncio pra sentar num local mais fresco. Super zen, só que não).  Fiquei bem irritada com a situação e comigo mesma. Não consegui nem me concentrar o suficiente para repetir o mantra ou acalmar a minha respiração ( algo me diz que eu estava bufando). Só queria que acabasse logo e quando tocou o sino eu quase saí correndo pelas colinas.

Depois do almoço (vegetariano delicioso) fomos para uma sala no alto de uma colina, com uma vista maravilhosa, praticar yoga. Só que não era yoga, era um negócio meio mal explicado que nem vou saber definir aqui. Repetitivo, chato. Nada de ásanas.  Eu já estava começando a pensar que teria que mudar o meu objetivo do final de semana, não haveria grandes revelações ou descobertas, seria apenas um descanso num sítio com comida vegetariana e um monte de bicho grilo.

O próximo exercício foi caminhar, em total silêncio, até a mata e lá permanecer por uns quarenta minutos, com um papel e um caixa de giz de cera na mão.  Me esforcei para não pensar no ridículo da situação, achei um cantinho para sentar, e fiquei lá, esperando a tal revelação. Ainda passei bem uns cinco minutos brigando com um galho que insistia em bater na minha cabeça e espantando os bichos que pousavam na minha perna.  Até que encontrei uma posição agradável, controlei o ritmo da respiração, olhei para cima e vi, por uma brecha entre a copa das árvores, o céu azul e uns pássaros voando. Ouvi o canto deles e  finalmente: click! Desliguei meus julgamentos e me conectei com a natureza, com o meu propósito do final de semana e com Deus.

Continuamos em silêncio até a próxima meditação.  Que aconteceu ao pôr do sol, numa sala cheia de janelas, que davam para as árvores e o cair do sol. Consegui encontrar uma posição que não doía as costas,  fui acalmando e acho que pela primeira vez na vida consegui meditar calma e profundamente.

Eu gostaria de relatar tudo que aconteceu depois ( na verdade eu o fiz, mas o texto ficou longo, chato e meio nonsense). Entretanto,  nada que eu escreva vai sequer passar perto do que realmente experimentei.  Depois de mais de uma década de busca espiritual, eu finalmente encontrei o meu canal de conexão com Deus. É como se eu estivesse há anos tentando sintonizar uma rádio, e ás vezes conseguisse, mas sempre pegando mal, com estática. E finalmente  descobrisse a frequência exata! Hahahaha, analogia péssima, mas foi o melhor que consegui.

Voltei para casa renovada, grata e feliz. E recomendo a experiência com força!

Para quem quiser conhecer mais sobre o Parque e a Susan entrem no site: www.visaofuturo.org.br

P.S. Quem diria que eu estaria escrevendo um post ~sério~ sobre meditação ein?

A decisão mais radical da minha vida

4 jul

Estou prestes a fazer a coisa mais radical de toda a minha vida. Não, não é saltar de paraquedas, nem tatuar todo o meu corpo, nem ser motorista da Fórmula Indy. Farei o que considero ser a coisa mais desafiadora da atualidade. Na minha opinião, nada requer mais coragem… (fundo musical de suspense) Tã tã tã tã: passarei 10 dias meditando, sem contato com o mundo exterior. E sem falar.

 Não existe NADA mais radical do que abrir mão do celular, da Internet, do carro, das compras, da televisão (apesar de que já quase não vejo mais), da música, dos livros, do escrever, do conversar com amigas, do conhecer novas pessoas, do sair pra jantar, dançar, do falar com minha mãe, pai e irmão no telefone, do fazer yoga, do ser a Lívia ativa. Não existe nada mais radical do que silenciar-se. Nada mais radical do que aceitar apenas ser, sem “nada fazer” a não ser meditar.  

 Se você nesse momento está surtando (a) e/ou em choque, ou falando pra você mesmo que você JAMAIS faria isso, saiba que você não é o primeiro (a) nem o último (a). Eu quase desisti de falar para as pessoas o que estou indo fazer porque todo mundo tem um mini-piripaque quando eu conto. Algo do tipo: “Você tá louca. Nem a pau Juvenal. Eu não consigo. Ai meu Deus…” e por aí vai. Muito interessante ver a reação.

 Esse é um desejo meu muito antigo, desde de quando li a matéria da Eliane Brum na Época (que eu considero a melhor matéria já feita – pesquisa no site da revista que você acha) sobre a experiência dela no mesmo retiro que farei, só que ela fez no Brasil. Desde aquele dia (acho que 2007 ou 20088) prometi a mim mesma que teria essa experiência um dia. Uma grande amiga minha acabou indo para o mesmo centro da Eliane, que não fica tão longe da Flórida, e quando voltou e me contou sua experiência. Não pensei duas vezes: aqui vou eu!

 Mas por que Lívia? Muitos me perguntam. A resposta é: porque a resposta para tudo está dentro de mim, logo, tenho de me silenciar e ir além da minha mente pra saber quem realmente sou. Sim, eu já faço isso diariamente (e é o que me mantém equilibrada e feliz), mas saio da meditação e volto pra vida normal, falando que nem papagaio em dia de mudança (modificação do cachorro!! Hahaha, vocês entenderam a idéia). A vida cotidiana puxa nossa atenção para fora o tempo todo. Vivemos em alta velocidade, mas, sinceramente, não quero ser escrava desse mundo doido que criamos não… Quero mergulhar mais profundamente em mim mesma!

 Então vou me silenciar pra enfrentar minhas fraquezas e fazer as pazes com elas, pra assumir minhas qualidades e incorporá-las ainda mais no meu dia-a-dia. Pra fazer crescer dentro de mim a serenidade que é preciso quando você trabalha auxiliando pessoas a encontar a cura de seus problemas, a qualidade de vida e a felicidade. Pra eu ser uma pessoa melhor e assim conseguir ajudar as pessoas, e o mundo, a ser melhor também!

 No silêncio está o real encontro com a alma, está o redescobrir o amor, o coração… no silêncio mora a compreensão, a compaixão, a fé inabalável, a empatia, a felicidade genuína que se chama contentamento.  No silêncio mora minha alma, sua alma, a alma do mundo. No silêncio não existe ambição, não existe ego, não existe necessidades superficiais, não existe preconceito, não existe ciúmes, cobrança, não existe julgamento, não existe medo, não existe expectativa, não existe ansiedade, não existe pressa, não existe dúvida. Onde mais eu poderia querer ir?

 Por conta disso ficarei 10 dias sumida! Talvez um cadinho mais. Mas meu coração estará sempre com vocês, mesmo quando eu estiver concentrada na minha prática.

É na ausência de palavras que eu quero me reencontrar e desse reencontro poder estar ainda mais ao dispor do mundo, pra que possamos viver em uma realidade melhor!!! Um beijo no seu coração! Espero que seus próximos dias sejam iluminados! Namastê!

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