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Retorno ao Brasil e Silêncio

8 nov

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Olá queridos (as) leitores!!! Saudade grande de vocês! Como muitos já devem saber, voltei a morar no Brasil! Após 6 anos me aperfeiçoando nas questões mais importantes da vida – autoconhecimento, aprender nosso propósito de estar aqui e aprender a usar esse propósito para servir e ajudar o Mundo – o coração e o destino me ofereceram sinais claros de que era hora de voltar! E cá estou! Feliz e contente. Me sentindo literalmente em casa. Com a alma ainda se ajustando (pois tudo é um processo), mas  muito certa da decisão do retorno e das missões que tenho pela frente (e algumas que já estou realizando!!).

Entre as atividades mais importantes que realizei ao retornar está um retiro de silêncio, yoga e meditação do qual participei em outubro em um local muito especial e com um facilitador também especial! Quem me segue faz tempo já acompanhou minhas peripécias no retiro de silêncio de 10 dias que realizei em 2011 na Georgia, nos EUA (para quem quiser conferir, os posts começam em agosto de 2011 se não me engano… eles foram um sucesso by the way!!). Retornei ao silêncio pela terceira vez com intenções e experiências bem diferentes, mas não menos ricas e engrandecedoras!

Desta vez meu relato foi publicado no site Nowmastê – um website dedicado totalmente ao autoconhecimento por meio de várias vertentes, como a yoga e a psicologia. Vale a pena conferir o site: http://www.nowmaste.com.br e seguirei escrevendo por lá como colaboradora! Aproveito para deixar o link para o meu texto, que vale muito ler como forma de inspiração e pelas dicas no final!

http://www.nowmaste.com.br/11/05/o-silencio-e-o-reencontro-com-a-alma-por-livia-stabile/

E tem muito mais por vir! Muitas novidades que estou formatando para disseminar ferramentas poderosas de transformação! Por hora deixo aqui o meu abraço apertado e o meu tradicional beijo no coração! Sigo extremamente grata por todo o carinho que tenho recebido de todos! A vida e as pessoas têm sido muito maravilhosas comigo! Então, boa leitura, beijo no coração e Namastê!

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Dia 10 – quando a boca fala a meditação cala

3 out

Queridos leitores. Obrigada pela paciência. Minhas ausências são, quase sempre, baseadas em falta de inspiração mesmo. Escrever, ao meu ver, é uma arte. E, as vezes, me dou ao luxo de ser uma artista afetada que desaparece até sentir que tem algo de bom pra produzir. Enquanto minha escrita não for meu ganha-pão posso fazer isso né… Mas, olha, tudo para o bem de vocês viu. Pois nunca, nunquinha, quero dar apenas parte de mim aos meus textos. Ou me dou por inteira ou permaneço reclusa. Hoje aqui vai minha alma toda no último dia do meu retiro. Logo logo escrevo sobre o dia em que deixei o retiro e
voltei à vida “normal”. Boa leitura.

Acordei as cinco. Não tinha como seguir dormindo. Sábado chegou e com ele a promessa da volta da comunicação com o mundo externo. Externo ao meu mundo interno. Corri para o Dhamma Hall. Não queria perder tempo. “Será que minha iluminação vem hoje?”, me perguntei, ou melhor, me perguntou meu ego. “Quietinho. Me deixa curtir os últimos momentos”, falei pra ele. A dedicação à meditação foi intensa naquela manhã. Era como se minha alma pudesse prever o que estava por vir. Quando Goenka começou a cantar o mantra que finaliza a primeira meditação do dia não aguentei: lágrimas corriam pelo
meu rosto. Foi um choro silencioso, em gratidão pelo silêncio que consegui cultivar naqueles 10 dias.

Café da manhã. Todos ainda em silêncio. Ninguém falava nada, mas uma bruma de tristeza nos rondava. A manhã foi nublada, assim como nossos pensamentos. Como quebrar o silêncio? Como voltar a uma vida louca, cheia de dramas, de ansiedades, de mini-depressões, de julgamentos constantes, de distrações pra não enfrentar a realidade, de medo, de paixões, de apegos? Foi quando entendi. No fundo, seguíamos sendo reles mortais: só que dessa vez apegados à ilusão da nossa nova vida espiritual. Estávamos esquecendo o principal – que tanto na roda viva da vida quanto em um retiro silencioso, seguimos
sendo sempre alma. Somos alma com um corpo físico temporário, e não um corpo físico com uma alma temporária. Pensando assim não existe medo, pois tudo é eterno e ao mesmo tempo passageiro. Mas esse pensamento pareceu durar pouco na
minha mente.

A segunda meditação da manhã chegou e corri para o Dhamma Hall. Uma hora sem me mexer. As sensações no corpo lternavam-se: dor, fluxo de energia, sensações paradoxais para um mundo paradoxal. O professor saiu da sala, mas eu segui meditando até a hora em que minha bexiga não me permitiu mais. Dou o primeiro passo pra fora da sala e lá está o cartaz em letras garrafais. “ Final do período de silêncio. Alunos podem comunicar-se, porém, contato físico não é permitido durante todo o curso”. O “meditative mode” acabou aí mesmo minha gente. “Hein?? Tá falando que eu não posso abraçar minhas companheiras de prisão?? Helllooooo eu sou brasileira minha gente… Eu abraço, beijo, encosto… É da minha natureza” gritava minha mente… Parei. Respirei fundo. Vamos ver no que isso vai dar, pensei.

Fui rumo ao banheiro e, na entrada do Bangu, já tinha gente de ti-ti-ti. Foi meio chocante ver pessoas conversando. Passei reto. “Será que eu falo? Será que permaneço calada?”, pensava. Saí do banheiro e duas meninas olharam pra mim. “Você sabe se a reunião final é agora?”, perguntaram. Meus olhos se arregalaram “ Meu Deus, alguém falou comigo… O que faço??? Pânico”. Claramente elas viram minha cara de espanto e, uma delas, que estava fazendo o curso pela segunda vez, falou: “ eu sei o que você está sentido. Eu senti o mesmo da outra vez. Dá uma vontade de não falar. Dá medo de voltar pro mundo
né? Não se preocupe. Logo passa. Vamos lá na sala que eles indicaram pra ver o que está acontecendo”. Muda segui as duas meninas. “Vou tentar evitar falar o máximo possível. Assim mantenho minha paz interna por mais tempo”, decidi.

A decisão durou exatos 5 minutos. Depois desses 300 segundos encontrei minha vizinha de colchonete de meditação no hamma Hall e não me aguentei. “Oi! Você é minha vizinha de meditação né? Olha, me impressionei com você. Você não fazia barulho nenhum. Foi muito bom te ter ao meu lado viu”. Pronto, falei!!! E daí se foram mais 60 minutos ininterruptos de conversa, pois Hanna, uma garota de 23 anos, recém-formada em psicologia, era um doce e foi delicioso poder ter uma conversa bacana depois de tanto tempo. E lembrei o quanto eu amo me comunicar e conhecer gente nova. Sim, a troca, a conversa, as novas amizades, estão entre as coisas que mais amo e cultivo na minha vida! Esses insights das suas rincipais características, do que é super importante pra você, também vem com o Vipassana. É como se você finalmente stivesse recebendo o “Manual de você mesmo – tudo sobre a dor e a delícia de ser quem você é”, parafraseando Caetano.

No almoço foi aquela falação generalizada né… A mulherada ria, contava o que tinha sentido. O clima era de festa total gente!  sem DJ ou bebidinhas. Eram nossas almas se divertindo e dividindo o que passamos juntas. A comida estava especialmente gostosa e tivemos cookies e brownies de sobremesa.Ignorei total a lei do “não me toque” e dei um abraço apertado na minha companheira de quarto (e em várias outras colegas depois)! “Roomy I love you!!”, falei com toda a sinceridade do meu oração. “Love you too Hummingbird”, ela respondeu. Pra quem não sabe, hummingbird é o passarinho beija-flor. Hummingbird???”,
perguntei sem entender. “Sim. Te apelidei de hummingbird já no segundo dia, pois você não parava quieta nunca. Estava empre andando de uma lado para o outro, varrendo, limpando, caminhando depois do almoço. Igual a um hummingbird que voa de uma flor pra outra e não pára nunca”, Winnie, 45 anos, professora do Bronx, em NY,  explicou. Outras colegas de prisão confirmaram “é verdade Lívia. Você estava sempre saracutiando por aí” e rimos todas juntas!!

Depois do almoço seguimos para a segunda meditação obrigatória do dia e foi quando entendi a frase dita por Goenka na noite anterior “Onde tem conversa não tem meditação”. Pensa que minha meditação foi praticamente um desastre (estou julgando, o que os professores de meditação – inclusive eu -SEMPRE pedem pra gente não fazer, mas tudo bem). Só onseguia
pensar em todas as conversas que tive, as pessoas que conheci. Uma alegria muito genuína tomou conta de mim e ela não estava a fim de meditar não. No resto da tarde praticamente todas nós ignoramos a segunda meditação.Preferimos papear, claro! Me vi no quarto ao lado do meu, em uma roda de mulheres. Éramos cerca de 12, com idades entre 18 a 75 anos, falando sobre o que vivemos. Foi um dos momentos mais especiais dos 10 dias. Apesar da diferença de idade, de nacionalidade e de história de vida, éramos todas iguais, vivemos o mesmo desespero, o mesmo “orgasmo spiritual”, os mesmos questionamentos durante os 10 dias. Fiquei espantada em saber que apenas mais uma garota era professora de Yoga. O resto da mulherada nunca tinha meditado antes! “Uau, admiro vocês demais”, falei.  Nossa condição de humano nos mostra, diariamente, que somos todos um, mas, de forma quase diabólica, nosso ego nos leva a acreditar que somos piores ou melhores (logo, diferentes e separados) do que os outros. Talvez esse seja o maior desafio da humanidade: relembrar e genuinamente sentir que somos todos um, unindo nossos corações e sendo fraternais uns com os outros novamente.

A última aula com Goenka na TV foi divertida e ao mesmo tempo triste. O Dhamma Hall parecia vibrar de alegria. Estávamos contentes. Quando Goenka falou (não me lembro literalmente…) “Hoje é o décimo dia do curso. Parabéns, você conseguiu sobreviver”, caímos todos no riso. Me emocionei no final, claro, pois sabia não o veria novamente tão cedo. Mesmo Goenka estando em uma tela de plasma, não tem como não se apaixonar por ele! Ele é puro amor! Opa, falando em amor, foi nessa hora que também me dei conta que eu não dei bola nenhuma para os meninos. Durante o dia todo o contato com os homens foi liberado, mas, até onde me lembro, nenhuma moçoila (a não ser os casais que estavam lá meditando juntos) se interessou em conhecer nenhum rapaz. Interessante.

A rotina do dia foi totalmente ignorada e nos vimos todas, depois das 21h, ainda sem tomar banho. Me deixaram ser a primeira a enfrentar o chuveiro e pela primeira vez sequei meu cabelo usando um secador. Me senti tão mulher! Saí do banheiro cantando “Men, I feel like a woman” e rimos juntas! Juro! essas coisinhas tipo secar o cabelo, fazer a unha, limpar a sobrancelha, é o que temos como conceito de feminilidades. Me dei conta do meu apego à beleza…  Admirei ainda mais as freiras e monjas, que vivem sem nada disso e são felizes. Conversa vai conversa vem.  Onze da noite e ainda estamos de papo. A gerente não aguentou e passou pela nossa ala no Bangu pra botar ordem. “Bora dormir cambada”, foi provavelmente o que ela gostaria de dizer, mas acabou sendo bem gentil e nos pedindo pra ir descansar.

Amanhã é o último dia. Meditaremos pela manhã, tomaremos café, ajudaremos a limpar o Bangu pela última vez e aí sim seremos soltas para o mundo. “O mundo pode ser um lugar perigoso”, pensei. Juntei minhas mãos e
iniciei uma prece. Boa noite.

Namaste, beijo no coração e até logo.

Dez dias sem falar, meditando: o Diário de uma sobrevivente Parte I

25 jul

Olá Caro Leitor. Por onde começar esse texto? Os dez dias mais intensos da minha vida? Os mais fantásticos? Os mais difíceis e reveladores? Os de maior raiva, alegria, perdão, insight e gratidão? Não existem termos exatos para definir o que eu passei e senti nos meus 10 dias em silêncio aprendendo a Meditação Vipassana – a meditação originalmente ensinada por Buda, conhecido como “O Iluminado”. Logo, decidi dividir os dias em diferentes textos, pra tentar descrever minhas impressões da melhor maneira possível, pois um só texto não é suficiente para relatar minha aventura, minha viagem ao lugar mais misterioso de todos os lugares: o meu próprio inconsciente. Aviso aos navegantes: o relato é longo, mas eu garanto que vale a pena e que você vai se divertir em pelo menos um dos parágrafos.

Todo mundo que encontro começa me perguntando se eu realmente fiquei em silêncio por 10 dias. Tipo, “nem um “puta merda” quando topava na parede você soltava??”. Caros amigos, sou sempre a favor da verdade, então, aí vai: não fiquei. Era liberada apenas a comunicação com a sua “gerente”, espécie de supervisora/salva-vidas, em caso de emergências ou dúvidas pertinentes; e com o professor designado para auxiliar no curso. No entanto, as palavras se resumiam a 8 frases, quando muito, por dia. A média era de 3 frases diárias, tipo “Sim”, “Estou sentindo isso e aquilo”, “Tudo bem”. De resto, puro silêncio. E no nono dia passei o dia inteiro sem falar uma palavra, mas conto sobre o nono dia em outro texto.

 Primeiro quero deixar bem claro que o curso todo é de graça em todo o mundo (inclusive no Brasil). Sim, de graça! O aspecto mais bonito de todos, na minha opinião! Mas você pode doar o quanto ($$) quiser ou voltar ao local para trabalhar como voluntário (a) (cozinhando, servindo os alunos), o que eles apreciam mais que doação. Entretanto, sendo gratuito, você segue as regras dele direitinho ou então é convidado a se retirar. Assim que cheguei lá e entreguei meu celular (por razões óbvias), a carteira e chave do meu carro, comecei a entender que estava passando por um ritual de entrega total. São dez dias sem comunicação alguma com o resto do mundo, sem livros pra ler, sem diários pra escrever, sem nenhum equipamento eletrônico. É você com você mesmo. E só.  

 

Amigas, não gritem, não se desesperem, mas passei 10 dias sem maquiagem alguma (nem mesmo meu corretivo básico, pois ninguém é obrigado conviver com minhas olheiras), sem perfume ou creminhos cheirosos e, para piorar, sem nenhuma bijuteria ou jóia. Nada de anéis, correntes ou brincos. No primeiro dia ainda consegui usar meu colar com minha pedra ametista fofa pendurada, mas, no dia seguinte, o professor me pediu pra tirar. Sim, isso mesmo, eu vivi a vida de uma freira por 10 dias e não consigo parar de admirá-las. A ausência de apetrechos é libertadora, eu garanto.  

 A rotina era intensa: às 4:20 da manhã o sino tocava para nos acordar e avisar que em 10 min a primeira meditação do dia começaria. Ela ia até às 6:30, quando o café era servido. Das 8 às 9 acontecia a primeira meditação em grupo, o que significa que você é obrigada a ir, a não ser que seja caso de vida ou morte. Depois das 9 outra meditação segue até às 11horas, quando o almoço é servido. Das 12 às 13h o professor atende os alunos com dúvidas ou chama os alunos para fazer perguntas e saber como eles estão indo. Das 13 às 14:30 tem mais uma sessão de meditação. Das 14:30 às 15:30 acontece a segunda meditação em grupo, seguida por meditação aberta (o que significa que vc não é obrigada a ficar lá dentro) até às 17h, quando um Tea Break (ou seja, nada de cafézinho, bolinho, bolachinhas) é servido, acompanhado somente de frutas (esta era a última refeição do dia).

 Das 18 as 19h acontecia a última meditação em grupo, seguida do discurso (ou aula) do Goenka – principal professor de Vipassana e quem guia (por meio de gravação) todo o processo. As aulas eram gravadas e mostradas em duas televisões de tela plana. Apesar de ser uma gravação, era o momento que eu mais gostava, pois o Goenka é um professor muito especial e considerado um Guru entre muita gente. Ele explicava melhor a técnica e falava sobre os ensinamentos originais de Buda, sem os ismos das religiões que seguem ele. Também cantava mantras que no começo achei engraçado (pela forma como ele cantava) e depois acabei me apaixonando. A aula acabava lá pelas 20:30 e aí voltávamos a meditar até as 21h. Das 21h às 21h30 você podia fazer perguntas para o professor. Às 22h todos deveriam estar na caminha, dormindo. E tudo começava novamente no outro dia, mesma sequência, mesmo roteiro, mesmo tudo.

 Quesito comida aos amigos que também perguntaram: vegetariana e, para o meu gosto, muito gostosa! O café da manhã tinha pães, leites (de vaca, arroz e soja), suco, chás, frutas, cereal, aveia, iogurte. Tudo orgânico, sem glúten. O almoço era sempre muito gostoso e variado, com muitas saladas e verduras, arroz integral, mas nada de carne e a sobremesa foi escassa (depois conto como eu materializei os doces – ahã!!). O chá da tarde consistia apenas em frutas e chá. O chá da tarde se tornou motivo de revolta interna e muda para muitos (eu inclusive, claro), mas contarei em outro texto! Ah! E detalhe: alunos antigos, ou seja, que estavam lá pela segunda ou terceira, ou décima vez, não tinham direito a comer no chá da tarde. Só beber chazinho e água com limão. Depois explico o porquê e os benefícios.

Tudo o que precisávamos saber estava escrito em um Código de Disciplina ou em avisos espalhados por todo o retiro, que fica em uma área rural linda, com um lago pequeno, mas que abrigava peixes, cobras (eu vi, eu vi!!), tartaruga, e muita mata nativa de dar gosto de ver. Não era preciso perguntar nada. Tudo estava bem claro e estampado. Até os horários de banho de cada um estava especificado em uma escala, que escolhíamos no primeiro dia. Não tinha desculpa para falar. O jeito era… calar! Meu quarto era pequeno e bem simples. Tinha um beliche e tive tempo suficiente para descobrir que minha roomate (companheira de quarto) era uma diretora-assistente de uma escola em Nova Iorque. Super gente boa e comunicativa. Nos demos bem logo de cara (eu sempre tenho uma sorte lascada com roomates que não conheço – thanks God).

 Cheguei lá às 15h da quarta-feira. Tomei banho, arrumei minhas coisas. Troquei poucas palavras com a roomate e as vizinhas de quarto. Éramos 24 mulheres e cerca de 15 homems alojados no que chamei carinhosamente de Bangu 1 e 2. Carinhosamente porque éramos todos literalmente prisioneiros de nossas próprias mentes. Os homens ficaram absolutamente separados da gente. Os víamos de longe e o máximo que dava pra fazer era dar uma conferida básica na sala de meditação.

 Jantamos às 18h. Depois disso escutamos todos os “pode e não pode” do curso e fomos para o Dhamma Hall (sala principal de meditação) para receber as primeiras instruções sobre a técnica. Uma gravação (sem imagem) do Goenka explicava de maneira simples: “Ah tá! É só focar na minha inspiração e expiração. Meditação focando na respiração. Vou tirar isso de letra”, pensei comigo mesma. Nessa noite às 20:30 já estávamos todas mudas (como diz minha mãe) – ou impossibilitadas de qualquer tipo de comunicação: verbal, gestual e corporal. Evitávamos até olhar nos olhos umas das outras. Às 21h já estava na cama, dormindo, exausta do dia que começou às 5 da manhã, pois dirigi 7:30 horas até o local do retiro.

 Dia 1 – o começo do fim.

Acordei com uma dor de cabeça horrorosa, entenda-se, sinusite. O ar condicionado funcionou a todo vapor (não poderia ser diferente, estamos nos EUA) e eu levantei me sentindo mais bêbada que peru de Natal temperado com vinho e ao molho de vinho. Apesar disso, às 4:30 lá estava eu, feliz e contente, cheia de certeza da minha vitória como meditadora. Quarenta minutos depois eu só conseguia pensar em dormir, e foi isso que fiz. Voltei para o quarto e só me levantei para comer (isso não tem doença que me atrapalhe) o café da manhã.

Primeira meditação em grupo e eu sigo sofrendo com o sono, a falta de concentração, era ressaca na ausência de bebida. Parecia que eu não estava ali, não estava presente… Eu não conseguia pensar claramente, não conseguia focar em nada. Nem minha visão era clara, estava embaçada. Decidi ignorar parte da meditação livre e ficar ao ar livre pra ver se a sinusite passava. O resto do dia passei totalmente sem consciência de mim, lutando pra tentar me manter acordada, mas meu corpo parecia estar em um estado próprio de ressaca interna voluntária. Impossível focar na respiração, impossível achar aquilo tudo prazeroso. “Buda, meu filho, como você conseguiu?”, me perguntava. Não teve jeito – acabei chorando. Chorei de desespero mesmo, por não conseguir me concentrar, por não ter controle sob minha sinusite e ressaca virtual… Decidi proteger meu rosto e garganta dormindo com a cabeça e o pescoço enrolados em uma pashimina, no maior estilo Talibã Carnaval 2011. Quem sabe acordo mais acordada amanhã?

 Dia 2 – mulher à beira de um ataque de nervos.

Dizem que depois da tempestade sempre vem a bonança, mas, no meu caso, veio o dilúvio mesmo. Acordei ainda pior que no dia seguinte e junto com meu mal-estar físico veio uma raiva profunda. Raiva do professor que parecia tão angelical, imóvel e em paz lá no altarzinho dele, raiva da gerente que também parecia contente, raiva da minha amiga e inspiradora que me disse “você vai amar. É tão maravilhoso”. “Maravilhoso aonde minha filha?”. Socoorrrrroooo! Nas meditações da manhã decidi cobrir o rosto com uma mantinha que tinha levado. Isso não permitia que o vento frio entrasse pelas minhas narinas e me deu um certo alívio, entretanto, eu sabia que isso me traria problemas futuros.

 Dito e feito. “O professor quer te ver às 12h”, disse minha gerente. Eu já tinha meu discurso na ponta da língua. E lá fui eu. Expliquei minha sinusite, dor de cabeça, tudo bem técnico e embasado cientificamente. E foi então que ele jogou no chão minha explicação “ego-based” e me explicou o que veio a ser a lição para o resto dos meus dias lá e para o resto da minha vida: todas essas sensações de desconforto são criações da nossa mente e do nosso inconsciente para que evitemos o desconforto, para que sigamos funcionando como sempre funcionamos – são IMPUREZAS (nas palavras dele e de Buda) do nosso consciente ou/e inconsciente.

 Fez muito sentido, mas não me impediu de no meio da conversa cair em lágrimas… Bem, lágrimas eu estou sendo gentil comigo mesma, eu me descabelei total mesmo! “E-eu sooou um-mma meeeeditadorrra” eu e meu ego conseguimos falar entre as lágrimas. “Maaas está di-fí-cil demmaaaaaa-aaais”, completei soluçando. PS: ele já sabia que eu era professora de yoga e meditação. Falamos sobre isso no primeiro dia, onde ele também me chamou, para me pedir pra praticar apenas Vipassana e não a minha técnica nos próximos 10 dias. Claro que eu concordei…

Voltando ao momento-histeria: foi no meu desespero total, finalizado com “Ee-eu estou proo-nta pra iiirrrr embo-raaaa”, que ele usou todo o seu conhecimento de causa (no sentido real, ou só pra amaciar meu ego mesmo) e me disse “Lívia, é exatamente porque você já medita que suas impurezas estão surgindo de maneira tão extrema. Você já eliminou grande parte delas, então as que sobraram são as mais profundas e intensas. Espere até o quarto dia. Nele aprenderemos outra parte da técnica e eu te garanto que tudo vai melhorar”, disse ele, com uma compaixão que poucas vezes vi na minha vida.

Pronto, ele me ganhou no argumento. Primeiro, porque amaciou meu ego “Ahã! Então como já sou uma meditadora muito competente já aniquilei várias impurezas, logo, só restaram as maiores de todas, tipo as últimas fases de vídeo game onde o monstro é quase imortal”, pensei. Segundo, porque me disse que aprenderíamos algo novo! Sem dar mais detalhes! Sou jornalista minha gente, consequentemente, curiosa por natureza! Ele me fisgou. Ao menos a tempo de me acalmar pra sair da sala e passar pelas outras alunas que estavam esperando para falar com ele sem estar no momento “descabelada e devastada forever”.

Mas a calma durou pouco. Exatos 2 minutos, pra ser mais precisa, suficientes para eu me sentar no banquinho de uma das trilhas na mata, chorando como uma prisioneira em primeiro dia de prisão perpétua. Nada como a natureza para testemunhar a miséria humana. Dessa vez chorei de decepção. Decepção por achar que sabia tanto e estar sendo derrotada pelos meus próprios mecanismos de defesa. Decepção por concluir que eu não tinha alcançado “nada” com meus 2 anos de meditação. Me senti falida, me senti fraca, me senti derrotada. Aos poucos o choro passou e a derrota passou a ser raiva.

 A raiva voltou e o ego veio com tudo. “Você tem uma prática excelente. Sua meditação vai muito bem. Você não precisa desse povo aqui não”, misturado com “O que você quer provar para os outros? Acho que você só está aqui por conta desse blog seu ein… Deixa de bobagem, vamos embora!”, argumentava minha mente. Das 13h até às 21h ela (mente) não fez outra coisa a não ser arrumar motivos para eu querer ir embora e para eu imaginar o prazer que sentiria ao entrar no meu carro e dirigir de volta pra casa. Ah! E, pra piorar, meu estômago estava totalmente nauseado (parte da ressaca virtual). Minha vontade era de vomitar o dia todo, apesar de não saber o motivo, afinal, a comida era fresca e bem preparada.

 Da aula do Goenka naquela noite só me lembro da passagem “Parabéns, Você sobreviveu ao segundo dia. Eu sempre digo que o segundo e o sexto dia são os mais difíceis”, ele afirmou com um sorriso ingênuo nos lábios. “Não me diga?”, pensei ironicamente. Eu estava decidida. No final da aula eu avisaria minha gerente que eu estava indo embora na manhã seguinte. Senti o prazer de estar novamente na “minha casa”, “minha cama”. Me perguntava “De onde eu tirei a idéia maluca de perder meus 10 dias de férias pra vir aqui, ficar em silêncio e comer fruta de janta??”.

 A aula acabou e, resumo da noite: saí do Dhamma Hall e a gerente estava exatamente posicionada na minha frente. “É agora ou nunca”. Foi nunca caro Leitor, pois uma força maior do que minha mente, maior do que eu, me fez seguir reto e não falar nada pra ela. Me fez colocar o meu pijama e me enfiar embaixo das cobertas sem nem mesmo passar meus cremes noturnos (esses eu mantive, claro). Tudo o que consegui fazer foi, robóticamente, me jogar na cama e fechar os olhos. Não tinha mantra, não tinha voz, não tinha nada dentro de mim, só o silêncio do cansaço.

PS: para saber sobre o restante dessa saga e mais sobre a técnica e os efeitos dela espere os posts dos próximos capítulos!

Beijo no coração e Namastê!

 

 

A decisão mais radical da minha vida

4 jul

Estou prestes a fazer a coisa mais radical de toda a minha vida. Não, não é saltar de paraquedas, nem tatuar todo o meu corpo, nem ser motorista da Fórmula Indy. Farei o que considero ser a coisa mais desafiadora da atualidade. Na minha opinião, nada requer mais coragem… (fundo musical de suspense) Tã tã tã tã: passarei 10 dias meditando, sem contato com o mundo exterior. E sem falar.

 Não existe NADA mais radical do que abrir mão do celular, da Internet, do carro, das compras, da televisão (apesar de que já quase não vejo mais), da música, dos livros, do escrever, do conversar com amigas, do conhecer novas pessoas, do sair pra jantar, dançar, do falar com minha mãe, pai e irmão no telefone, do fazer yoga, do ser a Lívia ativa. Não existe nada mais radical do que silenciar-se. Nada mais radical do que aceitar apenas ser, sem “nada fazer” a não ser meditar.  

 Se você nesse momento está surtando (a) e/ou em choque, ou falando pra você mesmo que você JAMAIS faria isso, saiba que você não é o primeiro (a) nem o último (a). Eu quase desisti de falar para as pessoas o que estou indo fazer porque todo mundo tem um mini-piripaque quando eu conto. Algo do tipo: “Você tá louca. Nem a pau Juvenal. Eu não consigo. Ai meu Deus…” e por aí vai. Muito interessante ver a reação.

 Esse é um desejo meu muito antigo, desde de quando li a matéria da Eliane Brum na Época (que eu considero a melhor matéria já feita – pesquisa no site da revista que você acha) sobre a experiência dela no mesmo retiro que farei, só que ela fez no Brasil. Desde aquele dia (acho que 2007 ou 20088) prometi a mim mesma que teria essa experiência um dia. Uma grande amiga minha acabou indo para o mesmo centro da Eliane, que não fica tão longe da Flórida, e quando voltou e me contou sua experiência. Não pensei duas vezes: aqui vou eu!

 Mas por que Lívia? Muitos me perguntam. A resposta é: porque a resposta para tudo está dentro de mim, logo, tenho de me silenciar e ir além da minha mente pra saber quem realmente sou. Sim, eu já faço isso diariamente (e é o que me mantém equilibrada e feliz), mas saio da meditação e volto pra vida normal, falando que nem papagaio em dia de mudança (modificação do cachorro!! Hahaha, vocês entenderam a idéia). A vida cotidiana puxa nossa atenção para fora o tempo todo. Vivemos em alta velocidade, mas, sinceramente, não quero ser escrava desse mundo doido que criamos não… Quero mergulhar mais profundamente em mim mesma!

 Então vou me silenciar pra enfrentar minhas fraquezas e fazer as pazes com elas, pra assumir minhas qualidades e incorporá-las ainda mais no meu dia-a-dia. Pra fazer crescer dentro de mim a serenidade que é preciso quando você trabalha auxiliando pessoas a encontar a cura de seus problemas, a qualidade de vida e a felicidade. Pra eu ser uma pessoa melhor e assim conseguir ajudar as pessoas, e o mundo, a ser melhor também!

 No silêncio está o real encontro com a alma, está o redescobrir o amor, o coração… no silêncio mora a compreensão, a compaixão, a fé inabalável, a empatia, a felicidade genuína que se chama contentamento.  No silêncio mora minha alma, sua alma, a alma do mundo. No silêncio não existe ambição, não existe ego, não existe necessidades superficiais, não existe preconceito, não existe ciúmes, cobrança, não existe julgamento, não existe medo, não existe expectativa, não existe ansiedade, não existe pressa, não existe dúvida. Onde mais eu poderia querer ir?

 Por conta disso ficarei 10 dias sumida! Talvez um cadinho mais. Mas meu coração estará sempre com vocês, mesmo quando eu estiver concentrada na minha prática.

É na ausência de palavras que eu quero me reencontrar e desse reencontro poder estar ainda mais ao dispor do mundo, pra que possamos viver em uma realidade melhor!!! Um beijo no seu coração! Espero que seus próximos dias sejam iluminados! Namastê!

Silêncio

12 set

Se você não consegue entender o meu silêncio de nada irá adiantar as palavras, pois é no silêncio das minhas palavras que estão todos os meus maiores sentimentos“. *

Eu não sou o tipo de pessoa que consegue ficar quieta. Mesmo quando luzes de neón piscam na minha frente em todas as cores dizendo : Cale-se!  Vim ao mundo com esse defeito de fabricação, não sei a hora de fechar a boca. Tenho tentado melhorar, algumas vezes consigo, muitas outras não…

A Lívia já dedicou um post aqui sobre a arte do silêncio. Mas acho que nos referimos a coisas distintas. Eu estou falando da ausência de resposta, de não precisar  dizer sempre alguma coisa sobre tudo. Da capacidade de calar-se diante de situações em que não há nada a ser dito. Ou mesmo quando há muito a se dizer, mas de nada vai adiantar. Ou ainda, aqueles momentos em que a situação simplesmente não te diz respeito. Melhor coisa a ser feita: silêncio.

Posso passar dias aqui citando situações em que o silêncio é imperativo. Por exemplo: na hora em que uma amiga está fazendo merda pela vigésima vez, quando você se sente tentada a dar palpite na forma como uma mãe cuida do seu bebê. Quando um casal termina e vem dividir os fatos com você ( eles não querem realmente sua opinião). Ou ainda, quando foi o seu relacionamento que terminou e não há mais argumentos que justifiquem uma conversa, embora você queira muito dizer qualquer coisa. Para todas essas horas : Silêncio! Silêncio! Silêncio!

Eu juro que estou tentando!

 

*Me deparei com a citação acima no twitter, mas não consegui checar a veracidade da autoria ( Shakespere ou  Oscar Wilde – provavalmente nenhum dos dois), portanto vai aqui sem crédito. Se alguém souber de quem é me avise, please.

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